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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

O famoso Albuquerque, mais ufano

Que Iason na conquista do véu d’ouro,

E seu Irmão, Duarte valoroso

, Irão co Rei altivo, Imperioso.



LXX

Nô a Nau, mais que Pístris, e Centauro,

E que Argos venturosa celebrada,

Partirão a ganhar o verde Lauro

À região da seta reprovada.

E depois de chegar ao Reino Mauro,

Os dous irmãos, com lança e com espada,

Farão nos Agarenos mais estrago

Do que em Romanos fez o de Cartago.



LXXI

Mas, ah! ínvida sorte, quão incertos

São teus bens e quão certas as mudanças;

Quão brevemente cortas os enxertos

A ô as mal nascidas esperanças.

Nos mais riscosos trances, nos apertos,

Ante mortais pelouros, ante lanças,

Prometes triunfal palma e vitória,

Pera tirar no fim a fama, a glória.



LXXII

Assim sucederá nesta batalha

Ao mal afortunado Rei ufano,

A quem não valerá provada malha,

Nem escudo d’obreiros de Vulcano.

Porque no tempo que ele mais trabalha

Vitória conseguir do Mauritano

Num momento se vê cego e confuso,

E com seu esquadrão roto e difuso".



LXXIII

Anteparou aqui Proteu, mudando

As cores e figura monstruosa,

No gesto e movimento seu mostrando

Ser o que há de dizer cousa espantosa.

E com nova eficácia começando

A soltar a voz alta e vigorosa,

Estas palavras tais tira do peito,

Que é cofre de profético conceito:



LXXIV

"Ante armas desiguais, ante tambores

De som confuso, rouco e redobrado,

Ante cavalos bravos corredores,

Ante a fúria do pó, que é salitrado;

Ante sanha, furor, ante clamores,

Ante tumulto cego e desmandado,

Ante nuvens de setas Mauritanas,

Andará o Rei das gentes Lusitanas.



LXXV

No animal de Netuno, já cansado

Do prolixo combate, e mal ferido,

Será visto por Jorge sublimado

, Andando quase fora de sentido.

O que vendo o grande Albuquerque ousado,

De tão trágico passo condoído,

Ao peito fogo dando, aos olhos água,

Tais palavras dirá, tintas em magoa":



LXXVI

— Tão infeliz Rei, como esforçado,

Com lágrimas de tantos tão pedido,

Com lágrimas de tantos alcançado,

Com lágrimas do Reino, em fim perdido.

Vejo-vos co cavalo já cansado,

A vós, nunca cansado, mas ferido,

Salvai em este meu a vossa vida,

Que a minha pouco vai em ser perdida.



LXXVII

Em vós do Luso Reino a confiança

Estriba, como em base só, fortíssimo;

Com vós ficardes vivo, segurança

Lhe resta de ser sempre florentíssimo.

Ante duros farpões e Maura lança,

Deixai este vassalo fidelíssimo,

Que ele fará por vós mais que Zopiro

Por Dario, até dar final suspiro.



LXXVIII

"Assim dirá o Herói, e com destreza

Deixará o genete velocíssimo,

E a seu Rei o dará: Ó Portuguesa

Lealdade do tempo florentíssimo!

O Rei Promete, se de tal empresa

Sai vivo, o fará senhor grandíssimo,

Mas ‘te nisto lhe será avara a sorte,

Pois tudo cubrirá com sombra a morte.



LXXIX

Com lágrimas d’amor e de brandura,

De seu Senhor querido ali se despede,

E que a vida importante e mal segura

Assegurasse bem, muito lhe pede,

Torna à batalha sanguinosa e dura,

O esquadrão rompe dos de Mafamede,

Lastima, fere, corta, fende, mata,

Decepa, apouca, assola, desbarata.



LXXX

Com força não domada e alto brio,

Em sangue Mouro todo já banhado,

Do seu vendo correr um caudal Rio,

De giolhos se pôs, debilitado.

Ali dando a mortais golpes desvio,

De feridas medonhas trespassado,

Será cativo, e da proterva gente

Maniatado em fim mui cruelmente.



LXXXI

Mas adonde me leva o pensamento?

Bem parece que sou caduco e velho,

Pois sepulto no Mar do esquecimento

A Duarte sem par, dicto Coelho.

Aqui mister havia um novo alento

Do Poder Divinal e alto Conselho,

Porque não ai quem feitos tais presuma

A termo reduzir e breve suma.



LXXXII

Mas se o Céu transparente e alta Cúria

Me for tão favorável, como espero,

Com voz sonora, com crescida fúria,

Hei de cantar Duarte e Jorge fero.

Quero livrar do tempo e sua injúria

Estes claros irmãos, que tanto quero,

Mas, tornando outra vez a triste História,

Um caso direi digno de memória.



LXXXIII

Andava o novo Marte destruindo

Os esquadrões soberbos Mauritanos,

Quando sem tino algum viu ir fugindo

Os tímidos e lassos Lusitanos.

O que de Pura mágoa não sufrando

Lhe diz"; - Donde vos is, homens insanos?

Que digo: homens, estátuas sem sentido,

Pois não sentis o bem que haveis perdido?



LXXXIV

Olhai aquele esforço antigo e puro

Dos ínclitos e fortes Lusitanos,

Da Pátria e liberdade um firme muro

Verdugo de arrogantes Mauritanos;

Exemplo singular pera o futuro

Ditado, e resplendor de nossos anos,

Sujeito mui capaz, matéria digna

Da Mantuana e Homérica Buzina.



LXXXV

Ponde isto por espelho, por treslado,

Nesta tão temerária e nova empresa.

Nele vereis que tendes já manchado

De vossa descendência a fortaleza.

À batalha tornai com peito ousado,

Militar sem receio, nem fraqueza,

Olhai que o torpe medo é Crocodilo

Que costuma, a quem foge, persegui-lo.



LXXXVI

E se o dito a tornar vos não compele,

Vede donde deixais o Rei sublime?

Que conta haveis de dar ao Reino dele?

Que desculpa terá, tão grave crime?

Quem haverá que por traição não sele

Um mal que tanto mal no mundo imprime?

Tornai, tornai, invictos Portugueses,

Cerceai malhas e fendei arneses.



LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

(continua...)

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