Por Machado de Assis (1877)
Ah! eu sei que isto não é delicado; mas, em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas opiniões, e em segundo, foi V. Exa. quem me provocou. É infelizmente verdade, eu não creio nos amores leais e eternos. Quero fazê-la minha confidente. Houve um dia em que tentei amar; concentrei todas as formas vivas do meu coração; dispus-me a reunir o meu orgulho e a minha ilusão na cabeça do objeto amado. Que lição mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperanças, casou-se com outro que não era nem mais bonito, nem mais amante.
EMÍLIA
Que prova isso?
TITO
Prova que me aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente aos outros.
EMÍLIA
Ora...
TITO
Há de me perdoar, mas eu creio que é uma coisa já metida na massa do sangue.
EMÍLIA
Não diga isso. É certo que podem acontecer casos desses; mas serão todas assim? Não admite uma exceção que seja? Seja menos prevenido; aprofunde mais os corações alheios se quiser encontrar a verdade... e há de encontrá-la.
TITO
(abanando a cabeça)
Qual...
EMÍLIA
Posso afirmá-lo.
TITO
Duvido.
EMÍLIA
(dando-lhe o braço)
Tenho pena de uma criatura assim! Não conhecer o amor é não conhecer a felicidade, é não conhecer a vida! Há nada igual à união de duas almas que se adoram? Desde que o amor entra no coração, tudo se transforma, tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se não conhece nada disto, pode morrer, porque é o mais infeliz dos homens.
TITO
Tenho lido isso nos livros, mas ainda não me convenci...
EMÍLIA
Há de ir um dia à minha casa.
TITO
É dado saber por quê?
EMÍLIA
Para ver uma gravura que lá tenho na sala: representa o amor domando as feras. Quero convencê-lo.
TITO
Com a opinião do desenhista? Não é possível. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de São Sebastião; afronto, não me curvo.
EMÍLIA
(tira-lhe o braço)
Que orgulho!
TITO
O que pode fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Cleópatra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser, todas as qualidades em uma só criatura e eu não mudarei... É isto e nada mais.
EMÍLIA
(à parte)
Veremos. (vai sentar-se)
TITO
(sentando-se)
Mas, não me dirá; que interesse tem na minha conversão?
EMÍLIA
Eu? Não sei... nenhum.
TITO
(pega no livro)
Ah!
EMÍLIA
Só se fosse o interesse de salvar-lhe a alma...
TITO
(folheando o livro)
Oh! essa... está salva!
EMÍLIA
(depois de uma pausa)
Está admirando a beleza dos versos?
TITO
Não senhora; estou admirando a beleza da impressão. Já se imprime bem no Rio de Janeiro. Aqui há anos era uma desgraça. V. Exa. há de conservar ainda alguns livros da impressão antiga...
EMÍLIA
Não, senhor; eu nasci depois que se começou a imprimir bem.
TITO
(com a maior frieza)
Ah! (deixa o livro)
EMÍLIA
(à parte)
É terrível! (alto, indo ao fundo) Aquele coronel ainda não acabaria de ler as notícias?
TITO
O coronel?
EMÍLIA
Parece que se embebeu todo no jornal... Vou mandar chamá-lo... Não chegará alguém?
TITO
(com os olhos cerrados)
Mande, mande...
EMÍLIA
(consigo)
Não, tu é que hás de ir. (alto) Quem me chamará o coronel? (à parte) Não se move!... (indo por trás da cadeira de Tito) Em que medita? No amor? Sonha com os anjos? (ameigando a voz) A vida do amor é a vida dos anjos... é a vida do céu... (vendo-o com os olhos, fechados) Dorme!... Dorme!...
TITO
(despertando, com espanto)
Dorme?... Quem? Eu?... Ah! o cansaço... (levanta-se) Desculpe... é o cansaço... cochilei... também Homero cochilava... Que há?
EMÍLIA
(séria)
Não há nada! (vai para o fundo)
TITO
(à parte)
Sim? (alto) Mas não me dirá?... (dirige-se para o fundo. Entra o coronel)
Cena VII
Os mesmos, CORONEL
CORONEL
(com a folha na mão)
Estou acerbo!
EMÍLIA
(com muito agrado e solicitude)
Que aconteceu?
CORONEL
Vou naturalmente para a Europa.
TITO
Morreu o urso no caminho?
CORONEL
Qual urso, nem meio urso! Rebentou uma revolução na Polônia!
EMÍLIA
Ah!...
TITO
Lá vai o coronel brilhar...
CORONEL
Qual brilhar!... (consigo) Esta só pelo diabo...
Cena VIII
Os mesmos, SEABRA, MARGARIDA
MARGARIDA
(a Emília)
Que é isso? (vendo-a preparar-se) Que é isso? Já te vais?
EMÍLIA
Já, mas volto amanhã.
MARGARIDA
É sério?
EMÍLIA
Muito sério.
TITO
(a Seabra)
A tal viagem da serra pôs-me entrompado. Ando dormindo em pé.
CORONEL
(a Margarida)
Até amanhã.
MARGARIDA
Que ar triste é esse?
CORONEL.
Fortunas minhas!
EMÍLIA
(a Margarida)
Temos muito que conversar. Até amanhã. (beijam-se. O coronel despede-se dos outros. Emília despede-se de Seabra e de Tito, mas com certa frieza)
Cena IX
MARGARIDA, SEABRA, TITO
MARGARIDA
Emília sai amuada. (a Tito) Que foi?
TITO
Não sei... ela é boa senhora; um pouco secantezinha... muito dada à poesia... ora eu sou todo da prosa... (batendo no estômago) Há prosa?
SEABRA
Ainda não jantaste? Anda jantar...
TITO
Vamos à prosa, vamos à prosa!
(Fim do 1º. ato.)
ATO SEGUNDO
(Sala em casa de Emília.)
Cena I
MARGARIDA, CORONEL
MARGARIDA
Ora viva!
CORONEL
(triste)
Bom dia, minha senhora!
MARGARIDA
Que ar triste é esse?
CORONEL
Ah! minha senhora... sou o mais infeliz dos homens...
MARGARIDA
Por quê? Venha sentar-se... (o coronel senta-se) Então, conte-me... Que há?
CORONEL
Duas desgraças. A primeira em forma de ofício da minha legação.
MARGARIDA
É chamado ao exército?
CORONEL,
Exatamente. A segunda em forma de carta.
(continua...)
ASSIS, Machado de. As forças caudinas. In: ___. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Publicado originalmente em 1877