Por Machado de Assis (1870)
Espantou-me aquele movimento, e durante alguns minutos fiquei na posição em que estava, sem saber o que havia de dizer.
Eusébia parecia estar chorando.
Levantei-me afinal, e acercando-me do sofá, perguntei-lhe que motivo tinha para aquelas lágrimas.
Não me respondeu.
Tive uma suspeita; imaginei que Eusébia amava alguém, e que, para castigá-la do crime desse amor, obrigavam-na a casar com um velho desconhecido a quem ela não podia amar.
Despertou-se-me uma fibra de D. Quixote. Era uma vítima; cumpria salvá-la. Aproximei me de Eusébia, confiei-lhe a minha suspeita, e declarei-lhe a minha resolução. Quando eu esperava vê-la agradecer-me de joelhos o nobre impulso das minhas palavras, vi com surpresa que a moça olhava para mim com ar de compaixão, e dizia-me abanando a cabeça:
— Desgraçado! é o senhor quem está perdido!
— Perdido! exclamei eu dando um salto.
— Sim, perdido!
Cobriu-se-me a testa de um suor frio; as pernas entraram a tremer-me, e eu para não cair assentei-me ao pé dela no sofá. Pedi-lhe que me explicasse as suas palavras. Por que não? disse ela; se lhe ocultasse seria cúmplice perante Deus, e Deus sabe que eu sou apenas um instrumento passivo nas mãos de todos esses homens. Escute. O senhor é o meu quinto marido; todos os anos, no mesmo dia e à mesma hora, dá-se nesta casa a cerimônia que o senhor presenciou. Depois, todos me trazem para aqui com o meu noivo, o qual...
— O qual? perguntei eu suando.
— Leia, disse Eusébia indo tirar de uma cômoda um rolo de pergaminho; há um mês que eu pude descobrir isto, e só ha um mês tive a explicação dos meus casamentos todos os anos.
Abri trêmulo o rolo que ela me apresentava, e li fulminado as seguintes linhas: Elixir da eternidade, encontrado numa ruína do Egito, no ano de 402. Em nome da águia preta e dos sete meninos do Setentrião, salve. Quando se juntarem vinte pessoas e quiserem gozar do inapreciável privilégio de uma vida eterna, devem organizar uma associação secreta, e cear todos os anos no dia de S. Bartolomeu, um velho maior de sessenta anos de idade, assado no forno, e beber vinho puro por cima. Compreende alguém a minha situação? Era a morte que eu tinha diante de mim, a morte infalível, a morte dolorosa. Ao mesmo tempo era tão singular tudo quanto eu acabava de saber, parecia-me tão absurdo o meio de comprar a eternidade com um festim de antropófagos, que o meu espírito pairava entre a dúvida e o receio, acreditava e não acreditava, tinha medo e perguntava por quê?
— Essa é a sorte que o espera, senhor!
— Mas isto é uma loucura! exclamei; comprar a eternidade com a morte de um homem! Demais, como sabe que este pergaminho tem relação?...
— Sei, senhor, respondeu Eusébia; não lhe disse eu que este casamento era o quinto? Onde estão os outros quatro maridos? Todos eles penetraram neste aposento para saírem meia hora depois. Alguém os vinha chamar, sob qualquer pretexto, e eu nunca mais os via. Desconfiei de alguma grande catástrofe; só agora sei o que é. Entrei a passear agitado; era verdade que eu ia morrer? era aquela a minha última hora de vida? Eusébia, assentada no sofá, olhava para mim e para a porta. — Mas aquele padre, senhora, perguntei eu parando em frente dela, aquele padre também é cúmplice?
— É o chefe da associação.
— E a senhora! também é cúmplice, pois que as suas palavras foram um verdadeiro laço; se não fossem elas eu não aceitaria o casamento...
— Ai! senhor! respondeu Eusébia lavada em lágrimas; sou fraca, isso sim; mas cúmplice, jamais. Aquilo que lhe disse foi-me ensinado.
Nisto ouvi um passo compassado no corredor; eram eles naturalmente. Eusébia levantou-se assustada e ajoelhou-se-me aos pés, dizendo com voz surda: — Não tenho culpa de nada do que vai acontecer, mas perdoe-me a causa involuntária! Olhei para ela e disse-lhe que a perdoava.
Os passos aproximavam-se.
Dispus-me a vender caro a minha vida; mas não me lembrava que, além de não ter armas, faltavam-me completamente as forças.
Quem quer que vinha andando chegou à porta e bateu. Não respondi logo; mas insistindo de fora nas pancadas, perguntei:
— Quem está aí?
— Sou eu, respondeu-me Tobias com voz doce; queira abrir-me a porta. — Para quê?
— Tenho de comunicar-lhe um segredo.
— A esta hora!
— É urgente.
Consultei Eusébia com os olhos; ela abanou tristemente a cabeça.
— Meu sogro, adiemos o segredo para amanhã.
— É urgentíssimo, respondeu Tobias, e para não lhe dar trabalho eu mesmo abro com outra chave que possuo.
Corri à porta, mas era tarde; Tobias estava na soleira, risonho como se fosse entrar num baile.
— Meu caro genro, disse ele, peço-lhe que venha comigo à sala da biblioteca; tenho de comunicar-lhe um importante segredo relativo à nossa família.
— Amanhã, não acha melhor? disse eu.
— Não, há de ser já! respondeu Tobias franzindo a testa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. A vida eterna. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, ano 6, [p. e n. desconhecidos], 1870.