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#Romances#Literatura Brasileira

Memorial de Aires

Por Machado de Assis (1908)

Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ela. Tendo ouvido ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo, — que sou eu ê imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dois magistrados.

Eu, relativamente a Fidélia, já cheguei à liberdade de lhe perguntar se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada, um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto mais freqüente da conversação, dizendo eu todo o bem que penso dele e francamente é muito, ao que ela retrucava sem vaidade, antes com modéstia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que ele recebera cartas da família, confirmando por extenso o que já lhe mandara em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases da futura sogra, e foi buscar a carta dela para que eu a lesse também.

— Cartas políticas não vieram?

— Parece que vieram.

Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efetivamente terna, ainda que derramada, mas ternura de mãe não conhece sobriedade de estilo. Era escrita à própria Fidélia.

Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi música; ela é que foi de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão não ouviu em Petrópolis não foi por falta de expressão da pianista. A eternidade é mais longe, e ela já lá mandou outros pedaços da alma; vantagem grande da música, que fala a mortos e ausentes.

Sábado

Fidélia parece retrair-se agora depois das primeiras confidências que me fez, e é natural. Como eu lhe pedisse noticias de Tristão, respondeu-me que não as tinha, e falou de outra coisa; mas, falando-lhe eu da alegria recente de D. Carmo, referiu-me as tristezas que lhe ouviu uma vez a propósito da volta do afilhado, e do conselho que então lhe deu de ir com ele; ao que a boa senhora retrucou que seria preciso separar-se do marido e não podia.

— Veja o perigo de dividir a alma com duas pessoas; eu, em moço, nunca o fiz, menos o faria agora depois de velho.

Sobre isto (que não tinha sentido claro nem intenção) dissemos coisas que não importa escrever aqui. Ela falou com graça, e provavelmente com verdade, mas não tratamos do assunto principal do coração da moça. Eu deleitava-me em apreciá-la por dentro, e por fora, não a achando menos curiosa interna que externamente. Sem perder a discrição que lhe vai tão bem, Fidélia abre a alma sem biocos, cheia de confiança que lhe agradeço daqui.

9 de março

Tristão voltou de Petrópolis. Deixou casa alugada em Westfalia, casa posta pelo comendador Josino, que a vai deixar por algum tempo e segue com a família para o sul; passou-lhe o contrato por três meses. D. Carmo e Fidélia sobem a vê-la esta semana. Andam agora muito mais juntas, em casa ou na rua, naturalmente a confidência é maior. Também eu ando com elas se as encontro, também ouço as palavras de ambas.

— Mana, disse eu a Rita contando-lhe estas coisas em Andaraí, eis aqui em que acaba um velho e grave diplomata aposentado, sem os cansaços do oficio, é certo, mas também sem as esperanças da promoção.

Rita entendeu e quase me puxou o nariz; preferiu dizer com saudade e consolação que não tivesse idéias de cemitério. Esta alusão à visita que fizemos ao jazigo da família há mais de um ano, levou-me quase a confessar o sentimento paterno que Fidélia acaso acorda em mim, mas recuei a tempo. Era provável que Rita me dissesse, como fez um dia, que eram desculpas de mau pagador. A mana gosta de mofar, sem criar ódio a ninguém, e menos a mim que a outro. Ao cabo, há coisas que apenas se devem escrever e calar, é o que eu faço a esta espécie de afeição nova que acho na viúva.

13 de março

Não há como a paixão do amor para fazer original o que é comum, e novo o que morre de velho. Tais são os dois noivos, a quem não me canso de ouvir por serem interessantes. Aquele drama de amor, que parece haver nascido da perfídia da serpente e da desobediência do homem, ainda não deixou de dar enchentes a este mundo. Uma vez ou outra algum poeta empresta-lhe a sua língua, entre as lágrimas dos espectadores; só isso. O drama é de todos os dias e de todas as formas, e novo como o sol, que também é velho.

20 de março

D. Carmo tomou a si adornar a casa dos noivos. Soube isto pelo desembargador, que chegou de Petrópolis e deixou a casa "uma beleza" com a ordem em que ela dispõe os móveis e os adornos, alguns destes obra já de suas mãos.

— Já? perguntei.

— Já; D. Carmo trabalha depressa, e neste momento com grande afeição; deu-lhes também muitos trabalhos seus. Converse com o Aguiar, que lhe dirá a mesma coisa, e Tristão também; Fidélia é do mesmo parecer.

Rita, sem nada ver, acredita que seja assim; foi o que me respondeu. Quanto a D. Cesária também não viu nada, mas inclina-se a crer que lhe falte alguma harmonia.

— Pode ser que não, aventurei.

— Não digo que D. Carmo não pudesse fazer alguma coisa capaz, mas com esta pressa, às carreiras, não é provável. Demais ela não possui tanto gosto como se quer; algum tem, mas falta-lhe graça. Aos noivos também; ele parece-me espalhafatoso...

(continua...)

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