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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

É verdade, que posso eu fazer . — suspirou Carlos com desanimo. — É agora, que comprehendo quanto é real e verdadeira a importancia do dinheiro, e quanto é parvo e imbecil o desdem que alguns pretendidos philosophos affectão ter por elle. Estolido é aquelle que diz que a tranquillidade do espirito, os jubilos do coração não se comprão com dinheiro. É certo que muitas vezes a verdadeira felicidade, que consiste na satisfação de todos os prazeres licitos do espirito e do corpo, no bem estar physico e moral, póde-se obter sem a riqueza; mas quantas vezes tambem não depende delle ?. .. Quantas vezes o destino nos prepara todos os elementos de ventura, todas as circumstancias conspirão para nos elevar ao cumulo da felicidade, e a falta de dinheiro nos despenha no abysmo da dÔr e do infortunio ? ! .

Estás hoje um moralista de primeira força, capáz de competir com Labruyére ou com o marquez de Maricá.

— Zombas de minhas reflexões? .... duvidas de sua exactidão ? . . . Si duvidas, aqui estou eu que sou o exemplo vivo do que acabo de avançar. Fosse eu rico, e hoje mesmo ella estaria livre, embora sua liberdade me custasse toda a minha fortuna, a receberia como esposa, embora liberta, e não teria inveja á felicidade de ninguem, porque ella vale mais para mim do que todos os thesouros e todas as grandezas do mundo.

Que exaltação, meu Deos ! devéras tu tinhas animo de te casar com uma liberta...

Pois que tem isso, quando essa liberta vale uma princeza ?! Digo-te mais, continuou levantando-se e dando á sua voz um tom dc extraordinaria firmeza e exaltação ; — captiva como é, si eu não pudesse quebrar-lhe os ferros, dar-me-ia por feliz em tel-a por esposa, e unir o meu destino de homem livre ao de tão formosa e adoravel escrava, empregando minha vida em ajudal-a a arrastar os grilhões do captiveiro.

O' nobre e magnanima dedicação, digna de um philosopho da antiguidade, ou do mais ultra-romantico poéta dos tempos que correm ! — exclamou Frederico em tom solemnemente comico. Agora resta saber, si o tal senhor Bazilio consentirá que te cases com a sua escrava.

E quo não consinta ; um rapto e um casamento clandestino sanaria todas as difficuldadcs.

Irra ! . . . levas bem longe a tua audacia! nunca pensei que fosses tão affouto.

— Demais não será necessario chegar a taes extremos ; posso conseguir tudo por meios Inais naturaes ou menos violentos. Está por um anno a minha formatura, e um anno escoa-se bem depressa, Vou estudar com affinco, e depois dc formado trabalherei como um mouro, e privar-me-ei mesmo do neceseario até adquirir uma somma consideravel, com que possa comprar a liberdade da menina.

Isso é mais razoavel ; mas assim mesmo a quanta vicissitude não vac ficar exposto o teu pobre amor ! . . .A rapariga é escrava, e como tal póde ser vendida, ou o que é peor, póde ser obrigada a casar-se com outro, si não lhe acontecer cousa peor.

Ah ! não me digas tal ; isso é impossivel, ella antes se deixaria matar. Demais ella me disse que seus senhores não a vendião por dinheiro nenhum.

— E como esperas que a vendão a ti?

— Desesperas-me com as tuas objecções ; não sei resolvel-as por agora; mas o amor, como diz Salomão, é forte e poderoso como a morte ; elle saberá a seu tempo quebrar todos os obstaculos.

— Pelo que vejo, tua loucura é incuravel, meu pobre Carlos ; esse teu infausto amor grudou-se ao teu coração, como ostra ao rochedo. Entretanto sempre te direi que o melhor para 23h tido que tens a tomar, para que ella não se torne chronica, é procurar combater por todos os meios essa paixão romanesca e desasisada. Tua situação é com effeito das mais estranhas e originaes, e dá assumpto para um bonito romance ; mas o romance é bom nos livros ; na vida rel é sempre uma atrapalhação, que devemos arredar. É preciso pois dar prompto desenlace á tua complicada situação, e o mais prompto e mais decisevo é cortar o nó gordio com a espada de Alexandre; é renunciar á tua paixão.

Concordo; mas isso é que é absolutamente impossivel.

— Impossivel, porque não queres, porque não fazes o minimo esforço para supplantal-a. A primeira cousa que deverias fazer, era mudar de casa, fugir da vizinhança dessa mulher, que te fascina. Dado esse passo, é preciso procurar distracções no estudo, na leitura de romances, nos passeios, nos pagodes mesmo.

— Não ha distracção possivel para paixões desta ordem, meu Frederico; não tento nada disso, porque estou intimamente convencido de que tudo isso será inefficaz.

— Ah ! bem ! já que assim te entregas sem resistencia ao teu insensato amor, não vejo salvação para ti ; emprehendes contra o destino uma lucta, em que seguramente tens de succumbir. Si não puderes conseguir, como é corto, nem a mão, nem a liberdade da menina, o que será de ti, maluco, com essa tua desastrada paixão ?

(continua...)

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