Por Bernardo Guimarães (1883)
É porque eu não sou nenhuma senhora, respondeo ella com voz timida e e angustiada. — sou uma simples escrava do senhor Baziliov — Escrava ! escrava a senhora! gritei com sorpresa e indignação, esquecendo o logar e as circumstancias em que me achava. Foi preciso que a menina me tapasse a bocca, para que eu não continuasse a proromper em gritos e exclamações, que terião trahido a nossa entrevista. Foi mistér que ella asseverasse mais duas e tres vezes e confirmasse com juramento para eu acabar de crer que ella era realmente escrava. Fiquei por alguns instantes acabrunhado sob o peso de tão cruel e estranha revelação. Como é concebivel com effeito, meu caro Frederico, que aquella mocinha de tez tão clara, de feições tão regulares e perfeitas como as de qualquer moça de pura raça caucasiana, tenha sangue dessa raça desventurada, que nossa deshumanidade e cobiça condemnou á escravidão ?
Nada mais simples, Carlos; com a continuação do cruzamento, a raça africana se depura e aperfeiçoa, e eu tenho visto mais de uma escrava mais branca e mais bonita que sua senhora.
Seja embora assim, mas é revoltante que haja no mundo quem tenha animo de manter na escravidão creatura tão linda ; servir um homem, e a que homem, sancto Deus ! aquella formosura ideal e celeste, digna de viver no céo em companhia dos anjos! . . . Mas essa é a pura esmagadora verdade. Rozaura percebeo a cruel impressão que sua declaração produzira em meu espirito, recolheo-se e encos- tando-se com o fronte á parede e escondendo o rosto entre os alvos braços meio nús, começou a chorar. Não sei explicar-te a emoção que senti nesse momento. Todos os horrores praticados com formosas e nobres escravas, a começar pela infeliz Agar barbaramente sacrificada ás conveniencias da familia de Abraham, me vierão a lembrança ; senti-me aniquilado!
— Estás quasi a chorar, Carlos; continua e deixa-te de emoções.
— Si exiges que me não commova, não continúo, porque me é impossivel prosegüir de sangue frio.
— Pois vá ; lamenta-te e chora á tua vontade; mas prosegue.
Estendi o meu braço para dentro da janella e arranquei-a suavemente daquella lastimosa attitude. Então ella com um tom de voz que me doeu no intimo d'alma, disse-me :
— Agora, que o senhor sabe que eu não passo de uma pobre escrava, vae me desprezar e fazer bem pouco caso de mim, não é assim? não mereço outra cousa, e nem posso ser objecto de seu amor. Foi contra minha vontade que fiquei lhe querendo bem; mas eu sou captiva; fuja de mim. Foi só para lhe dizer isto, que deixei o senhor vir conversar commigo.
Como unica resposta tomei ambas as suas mãos, cobri—las de beijos ardentes, e disse-lhe já não me lembro bem que palavras loucas e apaixonadas ; mas foi pouco mais ou menos isto :
— Agora que sei que és escrava, amo-te mais que nunca, minha querida. És escrava por um capricho da sorte; Deus te fez livre, porque Deus não permitte a escravidão. Nasceste escrava, mas eu te farei livre, porque é um insulto feito á natureza, á humanidade, ao proprio creador conservar na escravidão um anjo, como tu és. Si a escravidão fosse uma cousa possivel aos olhos da moral e da religião, serias a senhora, porque todo o mundo deve respeito c obediencia, amor e adoração á innocencia c á formosura, e tu possucs a belleza, a innocencia e a immaculada candura dos anjos. Não penses que desmereceste o amor que te consagro, com a declaração que acabas de fa—zer-me. Tu és escrava ! pois bem ! . . . és uma escrava que póde ter milhares de escravos a teus pés, e o mais dedicado, o mais submisso delles sou eu. Linda escrava, eu sou teu escravo, e de hoje em diante considero meu principal dever empregar todo o meu esforço em quebrar-te os ferros da escravidão.
Disse-lhe muitas outras cousas com uma eloquencia apaixonada, que me borbotava da abundancia d'alma. Si bem me lembro, no meu enthusiasmo febril e delirante, cheguei a dizerlhe que para conseguir-lhe a liberdade seria capaz até de matar e roubar.
— Arrc lá ! . . . misericordia ! exclamou Frederico rindo-se. — Salteador, e assassino! um novo Luigi Zampa ! apre! é demais, mcu caro.
— O certo é, continuou Carlos, — que ella com essa ingenua credulidade, propria das almas candidas e immaculadas, que ainda não conhecem o fingimento e a linguagem artificial dos seductores, deo pleno credito a meus protestos e expansões ; e tinha razão porque de facto erão puros e sinceros ; erão a expressão de um amor profundo e ardente, que jamais poderei arrancar do coração. Estás a sorrir, Frederico 'P tens razão; bem sei que é uma loucura; mas que hei de eu fazer ? . . . não posso, não posso de todo subtrahir-me a ella.
— Mas em fim de contas o que pretendes tu fazer?...
— Eu sei lá, meu amigo !.. acho-me na mais horrivel perplexidade, e ao mesmo tempo na mais inabalavel resolução de arrostar todas as difficuldades, transpor toclas os barreiras que me separão dessa encantadora menina.
Mas acaso não tens consciencia de tua fraqueza ? para superar essas difficuldades, transpor essas barreiras, de que meios dispões, não me dirás?...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.