Por Bernardo Guimarães (1883)
Entretanto Carlos ha dous mezes começara a dar muito más contas de si, falhava muitas vezes, balbuciava a muito custo a lição, quando era chamado, e ás vezes se excusava allegando incommodo de saude, que sua progressiva magreza e deperecimento não deixavão de justificar. Seus companheiros notavão a grave e profunda alteração, que se ia operando no physico e moral de Carlos, alteração que, a não ser devida a alguma affecção do organismo, não podia ser attribuida sinão a soffrimentos moraes. Quando lhe inquerião o motivo de tão estranha modificação em todo o seu ser, dava respostas evasivas, que em nada satisfazião a curiosidade dos collegas.
Frederico era o que mais se affligia com o lastimoso estado de abatimento em que via o amigo, e foi com o proposito de obter delle uma declaração confidencial e franca, que nesse dia o convidou a jantar em sua casa a sós com elle.
Carlos não poude esquivar-se á solicitação cordial e sincera de seu amigo, e tendo accendido o seu charuto começou assim :
—Depois que moro na rua do Tabatinguera, adquiri um conhecimento quasi mysterioso, que tem exercido, e ha de exercer sempre, eu bem o presinto, poderosa influencia sobre o meu destino. Além da casa em que moro, deves ter reparado que ha outra casa baixa, separada da minha por um terreno vazio, que não pertence nem a um, nem a outro predio. Nessa casa habitada por um senhor Bazilio, mora uma creatura encantadora, dotada de tantas perfeições, tão cheia de attractivos, que são capazes de transtornar a cabeça mais firme, e inflammar o coração mais empedernido.
Ah! já ouvi fallar nessa menina, — atalhoa Frederico, —- dizem que é um prodigio de belleza ; mas apenas é visivel por momentos, e esconde-se como Diana entre os véos do mais timido recato.
— É verdade ; tem mais esse prestigio a seu favor. Dizer-te que é um anjo, uma fada, que respira em todo o seu ser um perfume de celestial candura e innocencia, que impõe o respeito e adoração é proferir palavras banaes, que nada exprimem. É preciso vel-a para poder formar perfeita idéa de sua deslumbrante formosura. Meus companheiros, que apenas a têm visto de relance, tambem ficárão impressionados ao aspecto de tão rara belleza.
— E tu? .. . a tens contemplado mais á vontade ?
-— Felizmente não sei porque, parece-me que agradei-lhe mais do que qualquer outro. No lado da casa que olha para a nossa, ha apenas uma pequena janella, que dá para o tal terreno neutro, de que te fallei, o qual fica tambem por baixo da janella do meu quarto.
— Oh ! que condições favoraveis para o mais renhido namoro! — exclamou Frederico.
—- É verdade; mesmo da minha mesa de estudo posso vel-a, quando chega á sua janellinha, moldura bem pouco digna daquelle busto mais lindo e mais ideal do que as virgens de Raphael... Alli apparece ella algumas vezes, mas si acaso avista algum dos meus companheiros, retira-se immediatamente.
— Mas de ti nunca ella foge?...
— Não; fica, emquanto eu fico, e creio que só se retira quando é chamada por alguem de casa.
— Oh! quanto és feliz, meu Carlos ahi temos outra vez quasi a mesma aventura de Piramo e Tisbe. Mas dize-me; teu namoro não passa dessas olhadélas de longe? ainda não pudeste conversar de perto com ella ?
— Converso da janella quasi que somente por mimica. Entretanto ultimamente pude obter uma entrevista.
— Uma entrevista! oh ! pois que mais desejas Q pela maneira com que as cousas te vão correndo, só vejo motivo para andares pulando de contente, e não assim como andas, torvo e sombrio, como o Hamlet de Byron.
Ah! meu amigo ! foi mesmo essa entrevista que me lançou o desanimo n'alma, fazendo-me conhecer toda a complicação e estranheza de minha situação.
— Como assim? não posso comprehender-te.
— Vou já explicar—te tudo. Por palavras conversadas cautelosamente ella concedeo-me uma entrevista em horas mortas da noite. Saltei ao pateo na hora aprazada e fui collocar-me junto á janellinha, onde ella não tardou em apparecer. É escusado, e seria enfadonho para ti estar a descrever-te as emoções que senti.
— Oh ! bem dizia eu; temos Romeo e Julieta.
— Mas a minha Julieta...
— Que tinha ella?
— Vaes já saber. Depois de termos feito em termos bem explicitos mutua declaração de nosso amor, disse-me ella por fim com voz tremula e vacillante .
— Eu sei que o senhor me quer muito, e eu tambem lhe tenho muito amor, mas este nosso amor não deve continuar. . .
— Ah I não me falles assim ; não deve continuar porque, minha querida ? . .
— Ah ! bem me custa lhe confessar isto ; mas... mas eu... eu não sou digna do seu amor.
A estas palavras um calafrio percorreo-me todo o corpo. Por que razão a menina se julgava indigna do meu amor? A interpetração mais natural que se me apresentou ao espirito, foi que aquella menina, apezar de -parecer tão ingenua e pura como um anjo, já poderiater maculado o véo da innocencia no lodo da devassidão, e por isso, conservando ainda um pouco de sinceridade, se confessava indigna de ser por mim amada. Esta sinistra idéa pungio-me cruelmente o coração.
-— Mas porque me diz isso? porque se julga indigna do meu amor, minha senhora? perguntei-lhe em tom um tanto brusco.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.