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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Adelaide já esperava sua filha, essa que ainda hontem julgava sua escrava, e que a oora pela primeira vez ia apertar em seus braços. Estava encostada a um bufete, com a face pousada sobre uma das mãos, e voltada para a porta, sobre a qual tinha os olhos fixos. Divisavam-se em suas palpebras vestigios de lagrimas, mas pairava-lhe nos labios um levc sorriso cheio do affccto e melancolia. Era nobre e sympathica a sua figura e em seu todo brilhava uma especie de formosura talvez mais attractiva do que essa que na aurora da vida florejava em seu rosto tão esplendida e viçosa. Era a belleza calma e suave do outono, despida dos garridos encantos e das vivazes o embaidoras seducções da primavera. Apenas vio Rozaura, que entrava por seu quarto procurando em váo com os olhos por todos os cantos alguem que nao fosse Ádelaide, adiantou-se para ella com os bracos abertos.

Vem, minha filha, vem, exclamou Ádelaide com transporte ; — vem abraçar tua mae...

Rozaura a principio estacou petrificada de pasmo ; seu espirito hesitou um momento ; julgava-se victima de alguma allucinação ; mas bem depressa a voz de natureza fallouIhe alto ao coração, e dissipou-lhe todas as duvidas.

— Minha mãe ! — foi a unica palavra que pronunciou, e precipitou-se nos braços de Adelaide, inundando-lhe o seio de lagrimas de prazer e ternura.

CAPITULO XIX

Um estudante sinceramente enamorado.

— Que tem, meu Carlos, que ha tempos a esta parte andas triste e amuado, assim com cara de Romeo pallido com saudade de sua Julieta, e outras vezes com gestos de Othelo furibundo prestes a suffocar Desdémona?

-— Tu fallas galhofando, Frederico, porque não sabes o que eu soffro. É um sentimento intimo e profundo, que tenho vergonha e até medo de communicar a vocês, que tudo mettem a ridiculo.

—— Menos eu, Carlos ; principalmente, quando estamos a sós, longe da algazarra de nossos turbulentos companheiros. Pergunto-te com verdadeiro interesse o motivo desse abatimento de espirito, que ha mais de um mez todos notão em ti, e que, digo-te com sinceridade, não deixa de me affligir e inquietar bastante.

Obrigado, Frederico ; sei que me tens sincera amizade, e que embora na turba dos outros sejas tão caçoador como outro qual quer, tens caracter sisudo e sensivel, e não zombas dos soffrimentos alheios. Por isso não faço a menor duvida em contar-te a causa deste aborrecimento e tristeza, que ha tempos me acabrunha.

— Pois bem; vamos a isso ; desembucha tudo sem receio. Sou um pouco menos frivolo e leviano do que nossos companheiros, e saberei guardar segredo, si o exiges.

— Não será máo; os gracejos indiscretos, as caçoadas cynicas no estado em que me acho, soão-me muito mal.

— Portanto, emquanto fumamos um pouco, — disse Frederico, offerecendo um charuto a seu amigo, — váe-me desfiando o teu drama, que seguramente não deixará de ser algum idyllio amatorio.

Este dialogo passava-se entre dois estudantes do quarto anno juridico de S. Paulo. Tinhão acabado de jantar e ainda se achavão á mesa em casa de Frederico, que morava só no alto da Consolação, um dos bairros mais isolados e solitarios da cidade. Era isto cerca de dois mezes antes dos interessantes successos, de que demos conta nos dois ultimos capitulos desta historia. Os dous quartanistas erão da provincia de Minas, e amigos intimos de longa data, não dessa amizade fundada em relações passageiras e de occasião, que frequentemente se dão entre estudantes, as quaes tanto têm de francas e sinceras, como de pouco duradouras ; são laços que não se rompem, mas que com o tempo e ausencia acabão por desatar-se insensivelmente.

Os dous mineiros consagravão-se reciproca. mente uma affeição solida, firmada pelo tempo desde os estudos collegiaes e fundada nas bellas qualidades que cada um delles reconhecia com prazer em seu amigo. Frederico era um mancebo de alta estatura, louro e de olhos castanhos.

A indole bondosa, a lisura e franqueza d'alma transluzião em sua physionomia sempre pla cida e expansiva, como seu nobre coração, sobre o qual as paixões tumultuosas da juventude jamais tinhão conseguido exercer imperio absoluto. Lia-se em sua fronte espaçosa e bem conformada o bom senso, o juizo recto, a intelligencia luminosa, sobre a qual a imaginação podia bem exercer sua influencia encantadora, mas nunca poderia dominal-a. Parecia mais um bátavo, descendente de algum dos companheiros de Mauricio de Nassau, do que um brazileiro de pura raça latina.

O outro apresentava um typo inteiramente diverso; era um verdadeiro filho do Brazil e da provincia de Minas ; assemelhava-se a um napolitano.

Estatura regular, cabellos e olhos escuros, tez clara e levemente colorida, olhar scintilante e profundo revelavão nelle imaginação viva, natureza ardente e apaixonada.

Tanto um como outro erão tidos em conta de mui distinctos estudantes por sua intelligencia, assiduidade e bom comportamento, considerados pelos lentes e estimados pelos collegas.

(continua...)

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