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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Não posso me oppÔr, — respondeo Moraes com ar triste e abatido, — a que Rozaura fique sabendo quem é sua mãe; o que desejo é que meus filhos ignorem sempre a falta de Adelaide.

— Tem toda a razão, — confirmou o carmelita; — seus filhos são ainda mui creanças, e a indiscreção propria da edade os levaria naturalmente a divulgar um segredo que deve ficar para sempre occulto aos olhos do mundo.

Más eu tambem não sahirei daqui com a consciencia tranquilla, si não fizer ainda um pedido por minha parte e por parte do amigo que aqui me trouxe. Este pedido, que não importa sacrificio algum para a familia, tem por si a justica, a humanidade, mesmo a gratidão. É innegavel que quem mais contribuio para que se reconhecesse o verdadeiro nascimento e a liberdade de Rozaura, foi a escrava Lucinda. Sem ella a pobre menina ficaria talvez para sempre condemnada á condição de escrava em casa de sua propria mãe, quando muito á de liberta, sem que jamais se pudesse saber a sua verdadeira origem, e si tivesse de ter filhos toda a sua descendencia ficaria com essa nodoa original. De certo nem o senhor major, nem o senhor Moraes sabem ainda por que meios mysteriosos a divina Providencia se servio dessa boa rapariga como de um instrumento para seus altos e misericordiosos designios; mas cm breve serão informados dc tudo isso, e se convencerão de que digo a verdade. Lucinda é a verdadeira libertadora da menina Rozaura. Ora% não é justo que aquella que dá libcrdadc aos outros, que acaba de desatar os nós que amarravão ao posto do captiveiro a filha de seus senhores, continue a ser captiva. É emfim a liberdade de Lucinda que lhes pedimos. O meu amigo dará por ella qualquer somma que exigirem.

— Não acceito somma alguma, nem grande, nem pequena; não quero nem mesmo agradecimentos, — disse o major, — porque é esse o meu dever. Lucinda desde este momento é livre.

— Deus lhe levará em conta a sancta e generosa acção que acaba de praticar. Agora pódem mandar abrir essas portas ; nosso principal empenho era reconhecer Rozaura como livre de nascimento ; isto felizmente está conseguido ; é quanto basta e quanto se deve saber fóra daqui. Peço a Deus, senhor major, que a paz e felicidade, que tem reinado até aqui em sua casa, não se perturbe com este incidente, e se conserve sempre inalteravel.

Conrado. e Frei João se retirárão commovi dos e pensativos, mas satisfeitos com o resultado da espinhosa missão que tinhão desempenhado.

CAPITULO x VIII

A mãe e a filha.

Terminou-se assim o grave e delicado negocio do reconhecimento de Rozaura como livre de nascimento, com aprazimento de todos, Sómente Moraes, apezar de reconhecer a justica e indeclinavel necessidade daquelle acto, sentia-se com razão humilhado e abatido sob o peso de sua nova situação. A revelação que acabava de ouvir, confirmada por um modo irrefragavel, de ter elle desposado como pura uma mulher maculada por uma primeira falta, o acabrunhava. Si já os encantos de Rozaura ião extinguindo em seu coração o amor conjugal, dahi em diante jamais poderia conservar para com ella a mesma affeição e estima, que até alli lhe votava, mas desprezo e aversão.

Não se pôde negar que assistia-lhe bastante razão. Os zelos não se limitão sómente aos cuidados do presente e aos receios do futuro ; estendem-se tambem pelo passado e tornão-se retrospectivos. Com effeito deve ser bem doloroso para o coração de um marido, que tern vivido largos annos na doce persuasão de que fora elle objecto do primeiro e unico amor de sua esposa, saber que esta já tivéra outro affecto talvez mais extremoso e ardente do que aquelle que lhe consagrava, embora mesmo não fosse acompanhado das fataes consequencias, q le teve o de Adelaide. Ainda si o objecto dessa primeira paixão já não existisse, ou pelo menos a distancia ou novos laços de amor tornassem provavel a completa extincção de seu primeiro affeito, o espirito de Moraes poderia tranquillisar-se algum tanto. Mas Conrado estando alli vivo, morando na mesma cidade, solteiro, com o coração completamente livre e isento, moço elegante, rico e rodeado, a situação de Moraes não era das mais invejaveis.

Por outro lado, a perda de Rozaura por quem tinha concebido uma dessas paixões sensuaes e infrenes, que quasi não se pódem explicar, o enchia de despeito, raiva e ciume. Rozaura livre e debaixo do dominio de Conrado ficava inteiramente fóra do alcance de seus libidonosos desejos, e formosa, rica e cheia de attraetivos como era, não tardaria a encontrar algum amante feliz que a desposasse ; esta idéa, por mais que elle se esforçasse por arrancal-a, se lhe agarrava teimosa ao coração como farpa envenenada.

(continua...)

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