Por Bernardo Guimarães (1883)
— Tem razão, senhor major, disse por fim Frei João em tom brando e benevolo, approximando-se do major; — melhor seria, que vossa senhoria e seu genro ficassem para sempre ignorando esse mysterio, que estava escondido nas sombras de um passado inexcrutavel para vós e para todo o mundo, e era esse o nosso maior empenho, para o qual envidámos os meios a nosso alcance. Mas quem é o culpado dessa revelação ? quem provocou esta scena angustiosa, que ameaça destruir para sempre a paz e felicidade, que até aqui tem reinado no seio de sua familia?. .. Vossas senhorias mesmos, fazendo-se surdos ás nossas propostas, a nossos avisos e conselhos, inspirados por sentimentos de honra, de justiça e de humanidade. Por que razão não se decidirão a conceder logo e sem condições, como aconselhavão a razão, a justiça e a conveniencia, a liberdade a essa menina, que nasceo livre, como tudo estava denunciando Si assim tivessem procedido, o triste segredo que acaba de ser revelado, ficaria para sempre sepultado entre nós tres, entre mim, o senhor Conrado, e a senhora Adelaide. Mas vossas senhorias, bem a pezar nosso, nos forçarão a esta cruel revelação. Ainda mesmo que não apparecesse o proprio pae reclamando sua filha, nem eu, nem qualquer outro, que tivesse coração nobre e sensivel, uma vez sciente do occorrido, poderia jamais consentir que o avô e a mãe continuassem a conservar em casa entregue aos vexames da escravidão, a neta e a filha.
Agora cumpre-lhes acceitar com resignação as consequencias de sua imprudente e mal avisada obstinação. Cumpre-lhes sobretudo eliminar para sempre do espirito e do coração a lembrança de uma falta, que já está amplamente expiada por longos annos de uma vida exemplar e sem mancha, e que já se perde sepultada nas trevas profundas de um remoto passado.
— Console-se, meu amigo, — continuou Frei João pousando brandamente a mão sobre o hombro do ancião, que ainda se não reerguera de seu abatimento. — Não se entregue a um pezar, que não tem muita razão de ser. Nenhum opprobrio pesa sobre sua familia, nem macula alguma veio marear a bella reputação de sua filha, que por suas virtudes e pelos excellentes dotes de seu coração e de seu espirito, tem sabido conquistar na sociedade o respeito e a estima de todos. A solicitude, a paciencia, o zelo religioso, com que por largo tempo tem desempenhado os deveres de filha, de esposa e de mãe, a tem tornado tão pura, e talvez mais respeitavel do que o era antes de sua falta. A fraqueza de sua mocidade é um segredo, que ficará para sempre entre I)oos c nós. Senhor major, sou eu quem lhe pede em nome da humanidade e da religião, abençoe sua filha. Senhor Moraes, em nome da honra e da dignidade, e sobretudo em nome de seus innocentes filhinhos, abrace sua esposa.
As palavras graves, mas brandas e insinuantes do carmelita produzirão profunda impressão no animo dos que o escutavão. Depois que terminou, reinou ainda completo silencio por alguns instantes, durante os quaes só se ouvia a respiração offegante de todos, e os soluços mal abafados de Adelaide.
O espirito de Moraes nadava na mais cruel perplexidade. As palavras do frade lhe havião penetrado no coração ; não podia deixar de reconhecer quanto erão cordatas e assizadas ; mas o orgulho, o pundonor, c a honra do esposo offendida dc um modo tão brusco e doloroso, offuscavão-lhe a razão e quasi o fazião surdo aos dietames da justiça e da humanidade. Debalde porém tentaria resistir á cruel situação, que o assoberbava ; si quizesse recalcitrar, iria tornal-a ainda mais complicada e escandalosa. Deo a mão a Adelaide, que de novo tinha vindwp prostrar-se a seus pés banhada em lagrimas, e ajudou-a a levantar-se.
— Levante-se, senhora, — disse friamente dando—lhe a mão. — Da minha parte está perdoada.
Não quiz porém abraçal-a.
O major sentia-se abalado até o intimo d'alma; as palavras do carmelita tinhão operado nelle profunda e salutar revolução. As rijas fibras d'aquelle coração endurecido pelos preconceitos da educação e da ignorancia, agora amolgadas pelos gelos da edade e pelas severas lições de amarga experiencia vibrárão pela primeira vez a um impulso nobre c generoso, e tornárão-se sensiveis á voz da razão e da natureza. Duas grossas lagrimas lhe escorrogárão pelas faces rugosas e macilentas; erão talvez as primeiras que lhe corrião das palpebras, desde que se conhecera homem; mas por isso mesmo quanta dôr, quanta amargura, quanto arrependimento devião encerrar ! . . . Levantou-se, e avançando de braços abertos para sua filha a cingia contra o coração.
Não, minha filha, não és tu que deves pedir perdão a mim, nem a ninguem, — disse com accellto da mais intima e sincera compuncçao. — É teu velho pae que o vem pedir-te agora. Perdão, minha filha !
E o velho apertava a filha entre os braços, e ambos derramavão lagrimas no seio um do outro.
— Perdoar-lhe eu meu pae, porque ? — dizia a filha entre soluços.
— Agora vejo que te fiz muito, muito mal. Eu sou a principal causa de tudo isto ; fui eu o autor de tua deshonra... fui eu, quem escravisou minha neta l . . . Perdão, Adelaide !... Perdão Conrado!...
— Não meu amigo, — atalhou Frei João, o perdão generoso que acaba de dar á sua filha, o absolve de qualquer falta, e o torna digno do respeito de todos nós.
— É verdade o que diz o meu amigo, senhor major, — disse Conrado. — Eu tambem de hoje em diante, banindo inteiramente da lembranca nossa antiga desavença, beijo a mão do pae generoso e bom, que sabe perdoar.
E dizendo isto beijava com respeitosa effusão a rugosa mão de seu antigo patrão.
— Mas, — continuou elle, a minha
culpa é talvez a maior e a mais grave de todas ; e eu tambem preciso do seu perdão.
— Si não tosse a minha, senhor Conrado, — replicou o major, — a sua culpa não existiria, nem a de Adelaide. Nada tenho que perdoar-lhe; mas si assim o quer, em minha consciencia e em meu coração está perdoado.
— Fico-lhe agradecido do fundo d'alma, Agora só me resta fazer ainda um pedido. O segredo, que aqui entre nós já não existe, deve ainda desgraçadamente ser conservado até entre irmãos. Rozaura ainda não sabe quem é seu pae ; mas hoje mesmo o saberá ; e si e senhor Moraes consentir, hoje mesmo saberá quem é sua mãe. Rozaura já tem quatorze annos, e parece-me que será capaz de guardar o segredo até para com seus proprios irmãos.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.