Por Bernardo Guimarães (1883)
— Nossa filha! — bradou elle espumando de raiva e avançando para Conrado de punho alçado. — Mentira ! infamia ! vil impostura!...
— Que pretende, senhor? disse Frei João avançando tambem, estendendo o braço e com um gesto firme e imponente contendo a colera insensata de Moraes. —- Espere ainda; não se exaspere tanto ; já que assim o quer e não dá credito a nossas palavras, tendo—nos em conta de embusteiros e calumniadores, a verdade vae-lhe ser revelada em toda a sua cruel realidade pela bocca mais competente.
— Mentira ! embuste' para apadrinhar um roubo querem trazer a deshonra ao seio de uma familia honesta ! — bradou ainda Moraes.
— Senhor Moraes, — disse Conrado, — é Vossa senhoria quem força um pae a lançar mão deste meio extremo, mas legitimo, para arrancar a filha das garras do captiveiro e da deshonra. Do captiveiro, é cousa manifesta; da deshonra, o senhor Moraes melhor que ninguem sabe o motivo por que assim me exprimo.
— Não insulte por esse modo a toda uma familia honrada.
— Não insulto a ninguem; digo simplesmente a verdade. Minha senhora, — continuou Conrado voltando-se para Adelaide com accento repassado de amargura, — espero que me não ficará odiando por tão estranho procedimento, a que as circumstancias me obrigão. Perdoe-me; a senhora tambem é mãe, e não quereria por preço nenhum ver a sua filha reduzida á escravidão, exposta continuamente ás seducções... Ah ! minha senhora, é escusado dizer-lhe mais... não posso sacrificar a liberdade e a honra da filha á reputação da mãe. É preciso que a senhora declare quem é a mãe de Rozaura.
Adelaide não respondeo directamente a esta pergunta, mas cahindo de joelhos aos pés de seu marido, contorcendo convulsivamente as mãos, debulhada em lagrimas, c affogada cm soluços, mal podia pronunciar :
Perdão perdão!...
— Levanta-te dahi, mulher indigna! —- gritou Moraes repellindo-a brutalmente. —
levanta-te, e nunca mais me appareças.
— Perdão! perdão ! continuou ella abracando as pernas do marido. — Em nome de nossos filhinhos, perdão, meu marido! perdão, meu pae' perdão, meu Deos!...
Perdoar-te eu disse Moraes. — ah si eu soubesse ha mais tempo que não passavas
de uma...
— Basta ! — bradou Conrado atalhando a palavra ignominiosa, que irrompia dos labios de Moraes. — Insultar a uma senhora em tão afllictivas circumstancias não é só uma crueldade, é uma indignidade, uma covardia; quatorze annos de uma vida pura e de um procedimento exemplar sho mui sufficientes para fazer esquecer uma primeira e unica fraqueza, devido a imprudencia e ardor da mocidade. Embora ! si va Sa não perdoa, Deus perdoará. E Va sa , continuou Conrado voltando-se respeitosamente para o major, que mal voltára a si do effeito esmagador, com que o fulminára tão triste revelação, —- tambem não perdoa á sua filha?
— Eu ! eu nunca ! — respondeo elle com olhar desvairado e vóz lugubre e cavernosa.
Quando pensei eu que estava reservada por minha filha semelhante vergonha para meus ultimos dias ah! meu Deus ! antes nunca semelhante opprobrio tivesse chegado ao meu conhecimento !
O velho cravou os cotoveos sobre os joelhos, e escondendo o rosto e a fronte entre as mãos tremulas e convulsas, cahio em triste e profundo abatimento. Adelaide em pé a um canto da sala, debruçada sobre um aparador, envolvendo o rosto entre os braços procurava em vão abafar os soluços, que lhe abalavão os seios. Moraes sentou-se a um canto, e para disfarçar a confusão a vergonha e o desespero, que lhe flagellavão a alma, trincava desapiedadamente entre os dentes as pontas de seu aspero e comprido bigode. Conrado e o frade, opprimidos pela mais dolorosa impressão contemplárão por instantes silenciosamente aquella pungente e contristadora scena.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.