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#Comédias#Literatura Brasileira

Não consultes médico

Por Machado de Assis (1876)

CAVALCANTE — Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.

D. LEOCÁDIA — Os primos quase que não nascem para outra coisa. Diga-me, não procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes?

CAVALCANTE — Oh! não! Meu único prazer é pensar nela.

D. LEOCÁDIA — Desgraçado! Assim nunca há de sarar.

CAVALCANTE — Vou tratar de esquecê-la.

D. LEOCÁDIA — De que modo?

CAVALCANTE — De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. Penso em fazer-me frade. Há de haver em algum recanto do mundo um claustro em que não penetre sol nem lua.

D. LEOCÁDIA — Que ilusão! Lá mesmo acharás a sua namorada. Há de vê-la nas paredes da cela, no teto, no chão, nas folhas do breviário. O silêncio far-se-á boca da moça, a solidão será o seu corpo.

CAVALCANTE — Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?

D. LEOCÁDIA — Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remédio naturalmente indicado é ir pregar... na China, por exemplo. Vá pregar aos infiéis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez anos está curado. Volte, meta-se no convento, e não achará lá o diabo.

CAVALCANTE — Está certa que na China...

D. LEOCÁDIA — Certíssima.

CAVALCANTE — O seu remédio é muito amargo! Por que é que não manda antes para o Egito? Também é país de infiéis.

D. LEOCÁDIA — Não serve; é a terra daquela rainha... Como se chama?

CAVALCANTE — Cleópatra? Morreu há tantos séculos!

D. LEOCÁDIA — Meu marido disse que era uma desmiolada.

CAVALCANTE — Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora; não se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que ele adorava a V. Exa.

D. LEOCÁDIA — Ah! Ah! Já o doente começa a adular o médico. Não, senhor, há de ir à China. Lá há mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança em mim?

CAVALCANTE — Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permitido fazer uma careta antes de engolir a pílula. Obedeço; vou para a China. Dez anos, não?

D. LEOCÁDIA, levanta-se — Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze está curado.

CAVALCANTE — Vou.

D. LEOCÁDIA — Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá; 10 anos passam depressa.

CAVALCANTE — Obrigado, minha senhora.

D. LEOCÁDIA — Até logo.

CAVALCANTE — Não, minha senhora, vou já.

D. LEOCÁDIA — Já para a China!

CAVALCANTE — Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China. Até daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão.)

D. LEOCÁDIA — Fique ainda alguns dias...

CAVALCANTE — Não posso.

D. LEOCÁDIA — Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana.

CAVALCANTE — Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas, quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico.

D. LEOCÁDIA — Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico. O pior é que daqui a pouco, talvez não se lembre dele.

CAVALCANTE — Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!

D. LEOCÁDIA — No fim de dois anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.

CAVALCANTE — Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.

D. LEOCÁDIA — Então não volta mais a esta casa?

CAVALCANTE — Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou tomar passagem no paquete4 de amanhã.

D. LEOCÁDIA — Jante, ao menos, conosco.

CAVALCANTE — Janto na cidade.

D. LEOCÁDIA — Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. Há pessoas que adoecem se merecimento nenhum; ao contrário, não merecem outra coisa mais que uma saúde de ferro. O senhor nasceu para adoecer; Que obediência ao médico! Que facilidade em engolir todas as nossas pílulas! Adeus!

CAVALCANTE — Adeus, d. Leocádia. (Sai pelo fundo)

Cena VIII

D. Leocádia, d. Adelaide

D. LEOCÁDIA — Com dois anos de China está curado. (Vendo entrar Adelaide.) O dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame médico?

D. ADELAIDE — Não. Que lhe pareceu?

D. LEOCÁDIA — Cura-se.

D. ADELAIDE — De que modo?

D. LEOCÁDIA — Não posso dizer; é segredo profissional.

D. ADELAIDE — Em quantas semanas fica bom?

D. LEOCÁDIA — Em dez anos.

D. ADELAIDE — Misericórdia! Dez anos!

D. LEOCÁDIA — Talvez dois; é moço, é robusto, a natureza ajudará a medicina, conquanto esteja muito atacado. Aí vem teu marido.

Cena IX

Os mesmos, Magalhães

MAGALHÃES, a d. Leocádia — Cavalcante disse-me que vai embora; eu vim correndo saber o que é que lhe receitou.

D. LEOCÁDIA — Receitei-lhe um remédio enérgico, mas que há de salvá-lo. Não são consolações de caracará5. Coitado! Sofre muito, está gravemente doente; mas, descansem, meus filhos, juro-lhes, à fé do meu grau, que hei de curá-lo. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh1 aquele crê em mim. E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados? (Sai pelo fundo.)

Cena X

Magalhães. d. Adelaide

MAGALHÃES — Tinha vontade de saber o que é que ela lhe receitou.

4 Navio a vapor veloz e luxuoso, que fazia transporte regular de passageiros.

(continua...)

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