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#Contos#Literatura Brasileira

Nem uma nem outra

Por Machado de Assis (1862)

E dizendo isto, o velho levantou-se e dirigiu-se para o quarto sem lhe dirigir um olhar sequer.

Vicente compreendeu que estava despedido e saiu.

Quando chegou à casa, achou a moça que já tivemos ocasião de ver no primeiro capítulo, a qual o recebeu com um abraço que era ao mesmo tempo um ponto de interrogação.

— Briguei com meu tio, disse o moço sentando-se.

— Ah!

— Adivinha o que ele queria?

— Mandar-te para fora daqui?

— Casar-me com a filha dele e fazer-me seu herdeiro.

— Recusaste?

— Recusei.

A moça ajoelhou-se diante de Vicente e beijou-lhe as mãos.

— Que é isto, Clara?

— Obrigada! murmurou ela.

Vicente levantou-a e beijou-lhe por sua vez as mãos.

— Tolinha! Pois há nisto motivo para me agradeceres? E chorando! Clara, deixa-te de lágrimas! Eu não gosto de ver uma moça chorona... Vamos! ri-te.

Clara sentou-se calada; via-se-lhe a alegria no rosto, mas uma alegria misturada de tristeza.

— Quem sabe? disse ela no fim de algum tempo; quem sabe se fizeste bem recusando?

— Essa agora!

— Recusaste por minha causa, e eu...

— Já vejo que fiz mal em falar-te nisto. Ora, vamos... nada de tolices; anda passear. Vicente Ferreira, desde que lhe morrera a mãe, deixara o interior da província de S. Paulo, aonde vivera, e estabeleceu-se na corte com o pouco que herdara; algum tempo empregou-se, e já sabemos que por influência do tio, que deveras o estimava. Era um rapaz um tanto orgulhoso, e imaginava que viver com o tio era mostrar-se adulador da fortuna dele, idéia esta de que fugia sempre. Quando estava em S. Paulo visitara muitas vezes o tio; mas, depois que viera para a corte, nunca mais o fez. Além dos sentimentos que já apontamos acima, não queria deixar a casa ainda que com licença do patrão, que aliás era o primeiro a oferecer-lha; e finalmente a Clara da Rua do Passeio tinha grande parte na decisão do rapaz.

Por que essa influência e como começara ela?

Apressemo-nos a tirar do espírito do leitor uma idéia que porventura já lhe tenha surgido, e vem a ser a de que a nossa Clara é uma Margarida Gauthier lavando-se nas águas do amor das culpas passadas.

Clara tinha sido raptada de casa de seus pais por um amigo de Vicente, ou pelo menos o sujeito que andava com ele — e abandonada no fim de um mês pelo tratante, que embarcou para Buenos Aires.

A moça achou-se só um dia de manhã, sem arrimo nenhum, nem esperança dele. A primeira idéia que teve foi matar-se; nessa resolução entrou por muito o amor que ainda tinha pelo rapaz. Mas o medo, a educação religiosa que lhe haviam dado depressa lhe arredaram do espírito semelhante idéia.

No meio da sua aflição lembrou-se de Vicente, que lá fora à casa dela, uma vez, em companhia do fugitivo Enéas. Mandou-o chamar e contou-lhe a sua situação. Vicente ainda não sabia da fuga do amigo, e ficou admirado que ele houvesse cometido semelhante ato de covardia. Mas, sabendo que pelo lado da justiça o raptor nada temia, admirou-se da fuga sem outro motivo aparente além da questão do rapto, motivo que não era motivo, porque um homem que furta uma moça tem sempre ânimo para conservá-la durante algum tempo, até que possa a fuga completar a obra do rapto: a audácia coroada pela covardia.

Ora, esse tempo nunca é simplesmente um mês.

Outra causa devia haver, e Vicente tratou de indagar nesse mesmo dia sem nada obter; no dia seguinte, porém, a gazetilha do Jornal do Commercio tirou todas as dúvidas: noticiava a fuga do homem com alguns contos de réis.

Para acabar já com a história deste sujeito, acrescentarei que, depois de longos trabalhos do mesmo gênero, em Buenos Aires, fugiu ele para o Chile, onde consta que é atualmente empregado em umas obras das estradas.

A moça contou a Vicente qual era a sua posição, e pediu-lhe por esmola o seu auxílio. Vicente tinha bom coração; achou que naquele estado não devia fazer à moça um discurso inútil sobre o seu ato; cumpria-lhe socorrê-la. Tirou, portanto, um conto de réis do pecúlio que tinha e deu a Clara os primeiros auxílios necessários; alugou-lhe casa e uma criada; preparou-lhe uma mobília e despediu-se.

Clara recebeu agradecida e envergonhada os auxílios de Vicente; mas ao mesmo tempo não via nos atos do rapaz mais do que um sentimento de interesse.

No fim de quinze dias, Vicente foi à casa de Clara e disse-lhe que, não podendo adiantar lhe tudo quanto ela precisasse e não devendo ela ficar exposta aos perigos da sua situação, era conveniente que procurasse trabalhar, e para isso escolhesse o que mais lhe conviesse.

Clara achou justas as observações de Vicente, e ficou assentado que a moça trabalharia de costureira em casa de alguma modista.

Daí a dias estava a moça empregada.

Entretanto, Vicente não voltou lá mais; de quando em quando recebia um recado de Clara, mas era sempre em assunto que lhe dispensava uma visita pessoal. O procedimento do moço não deixou de influir na rapariga, que já se arrependia do seu primeiro juízo.

(continua...)

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