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#Contos#Literatura Brasileira

Miloca

Por Machado de Assis (1870)

D. Pulquéria recebeu o pretendente com aquelas carícias que as velhas de bom coração costumam ter. Rodrigo desfez-se em solícitos cumprimentos. Só Miloca parecia indiferente. Estendeu-lhe a ponta dos dedos, e nem olhou para ele enquanto o mísero namorado murmurou algumas palavras relativas ao desastre. O intróito foi mau. D. Pulquéria percebeu isso, e tratou de animar o rapaz, falando-lhe com animada familiaridade.

Nunca a filha de Rodrigo parecera tão formosa aos olhos de Adolfo. A mesma severidade lhe dava um ar distinto e realçava a incomparável beleza das suas feições. Mortificava-o, é verdade, a indiferença; mas podia ele esperar mais alguma cousa logo da primeira vez? Miloca tocou piano a convite do pai. Era excelente pianista, e entusiasmou deveras o pretendente, que não pôde disfarçar a sua impressão e murmurou um respeitoso cumprimento. Mas a moça limitou-se a um gesto de cabeça, acompanhado de um olhar que parecia dizer: "O senhor entende disto?".

Durante o jantar, a velha e o cunhado fizeram galhardamente as honras da casa. Adolfo ia perdendo a pouco e pouco as maneiras cerimoniosas, conquanto a atitude de Miloca lhe acanhasse o espírito. Era inteligente, polido e galhofeiro; a boa vontade dos olhos e as qualidades reais dele venceram em pouco tempo grande caminho. No fim do jantar era um conhecido velho.

— Tenho uma idéia, disse Rodrigo quando chegaram à sala. Vamos dar um passeio? A idéia foi aceita por todos, exceto por Miloca que declarou estar incomodada, pelo que a idéia ficou sem execução.

Adolfo saiu de lá mal impressionado; e teria desistido da empresa, se o amor não fosse engenhoso em derrubar maginariamente todas as dificuldades deste mundo. Continuou a freqüentar a casa de Rodrigo, onde era recebido com verdadeira satisfação, menos por Miloca que parecia cada vez mais indiferente ao namorado.

Vendo que a situação do rapaz não melhorava, e parecendo-lhe que a sobrinha não acharia melhor marido do que ele, interveio D. Pulquéria, não por meio da autoridade, mas com as armas dóceis da persuasão.

— Acho singular, Miloca, a maneira por que tratas o sr. Adolfo.

— De que maneira o trato? perguntou a moça mordendo os beiços.

— Secamente. E não compreendo isto porque ele é um excelente moço, muito bem educado, e além disso já nos prestou um serviço em ocasião séria.

— Tudo isso é verdade, respondeu Miloca, mas eu não sei como quer que o trate. Meu modo é esse. Não posso afetar o que não sinto; e a sinceridade creio que é uma virtude. — É também a virtude do sr. Adolfo, observou D. Pulquéria sem parecer abalada com a sequidão da sobrinha; devias ter reparado que é um moço muito sincero, e eu... Aqui parou D. Pulquéria por um artifício que lhe pareceu excelente: esperou que a curiosidade de Miloca lhe pedisse o resto. Mas a sobrinha parecia completamente ausente dali, e não deu mostras de querer saber o resto do período. D. Pulquéria fez um gesto de despeito, e não disse palavra, enquanto Miloca folheava os jornais em todos os sentidos.

— Não acho casa, disse ela depois de algum tempo.

— Casa? perguntou D. Pulquéria admirada.

— É verdade, minha tia, disse Miloca sorrindo, eu pedi a papai para que nos mudássemos daqui. Acho isto muito feio: não faria mal que morássemos em algum bairro mais bonito. Papai disse que sim, e eu ando a ler os anúncios...

— Ainda agora sei disso, disse D. Pulquéria.

— Casas aparecem muitas, continuou a moça, mas as ruas não prestam. Se fosse no Catete...

— Estás douda? perguntou D. Pulquéria; lá as casas são mais caras do que aqui, e além disso transtornaria o negócio de teu pai. Admira como ele consente em semelhante cousa!

Miloca pareceu não atender às objeções da tia. Esta, que era sagaz, e vivia com a sobrinha havia muito tempo, atinava com a razão do recente capricho. Levantou-se e pôs a mão na cabeça da moça.

— Miloca, por que hás de ser assim?

— Assim como?

— Por que hás de olhar tanto para cima?

— Se titia está de pé, respondeu maliciosamente a moça, eu hei de por força olhar para cima.

D. Pulquéria achou graça à resposta evasiva que a sobrinha lhe deu e não pôde reter um sorriso.

— Tonta! lhe disse a boa velha.

E acrescentou:

— Tenho pensado muito em ti.

— Em mim? perguntou ingenuamente Miloca.

— Sim; nunca pensaste no casamento?

— Nunca.

— E se aparecesse um noivo digno de ti?

— Digno de mim? Conforme; se eu o amasse...

— O amor vem com o tempo. Há bem perto de nós alguém que te ama, um moço digno de toda a estima, laborioso, grave, um marido como não há muitos.

Miloca desatou a rir.

— E titia viu isso primeiro que eu? perguntou ela. Quem é esse achado? — Não adivinhas?

— Não posso adivinhar.

— O Adolfo, declarou D. Pulquéria depois de um minuto de hesitação. Miloca franziu o sobrolho; depois deu uma nova risada.

— De que te ris?

— Acho engraçado. Com que então o sr. Adolfo dignou-se olhar para mim? Não tinha percebido; não podia esperar tamanha felicidade. Infelizmente, não o amo... e por mais digno que seja o noivo, se eu o não amar vale para mim o mesmo que um vendedor de fósforos.

— Miloca, disse a velha contendo a indignação que lhe causavam estas palavras da sobrinha, o que acaba de dizer não é bonito, e eu...

(continua...)

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