ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Tito? perguntou Emília a Adelaide em voz baixa.
- Sim.
- D. Emília não sabe ainda quem é o nosso amigo Tito, disse Azevedo. Eu até tenho medo de dizê-lo.
- Então é muito feio o que tem para dizer?
- Talvez, disse Tito com indiferença.
- Muito feio! exclamou Adelaide.
- O que é então? perguntou Emília.
- É um homem incapaz de amar, continuou Adelaide. Não pode haver maior indiferença para o amor... Em resumo, prefere a um amor... o quê? um voltarete.
- Disse-te isso? perguntou Emília.
- E repito, disse Tito. Mas note bem, não por elas, é por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha adoração; mas eu é que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.
Emília olhou para o moço e disse:
- Se não é vaidade, é doença.
- Há de me perdoar, mas eu creio que não é doença, nem vaidade. É natureza: uns aborrecem as laranjas, outros aborrecem os amores: agora se o aborrecimento vem por causa das cascas, não sei; o que é certo é que é assim.
- É ferino! disse Emília olhando para Adelaide.
- Ferino, eu? disse Tito levantando-se. Sou uma seda, uma dama, um milagre de brandura... Dói-me, deveras, que eu não possa estar na linha dos outros homens, e não seja, como todos, propenso a receber as impressões amorosas, mas que quer? a culpa não é minha.
- Anda lá, disse Azevedo, o tempo te há de mudar.
- Mas quando? Tenho vinte e nove anos feitos.
- Já vinte e nove? perguntou Emília.
- Completei-os pela Páscoa.
- Não parece.
- São os seus bons olhos.
A conversa continuou por este modo, até que se anunciou o jantar. Emília e Diogo tinham jantado, ficaram apenas para fazer companhia ao casal Azevedo e a Tito, que declarou desde o princípio estar caindo de fome.
A conversa durante o jantar versou sobre cousas indiferentes.
Quando se servia o café apareceu à porta um criado do hotel em que morava Diogo; trazia uma carta para este, com indicação no sobrescrito de que era urgente. Diogo recebeu a carta, leu-a e pareceu mudar de cor. Todavia continuou a tomar parte na conversa geral. Aquela circunstância, porém, deu lugar a que Adelaide perguntasse a Emília:
- Quando te deixará este eterno namorado?
- Eu sei cá! respondeu Emília. Mas afinal de contas, não é mau homem. Tem aquela mania de me dizer no fim de todas as semanas que nutre por mim uma ardente paixão.
- Enfim, se não passa de declaração semanal...
- Não passa. Tem a vantagem de ser um braceiro infalível para a rua e um realejo menos mau dentro de casa. Já me contou umas cinqüenta vezes as batalhas amorosas em que entrou. Todo o seu desejo é acompanhar-me a uma viagem à roda do globo. Quando me fala nisto, se é à noite, e é quase sempre à noite, mando vir o chá, excelente meio de aplacar-lhe os ardores amorosos. Gosta do chá que se péla. Gosta tanto como de mim! Mas aquela do urso branco? E se realmente mandou vir um urso?
- Aceita.
- Pois eu hei de sustentar um urso? Não me faltava mais nada! Adelaide sorriu-se e disse:
- Quer me parecer que acabas por te apaixonar...
- Por quem? Pelo urso?
- Não, pelo Diogo.
Neste momento achavam-se as duas perto de uma janela. Tito conversava no sofá com Azevedo. Diogo refletia profundamente, estendido numa poltrona.
Emília tinha os olhos em Tito. Depois de um silêncio, disse ela para Adelaide:
- Que achas ao tal amigo do teu marido? Parece um presumido. Nunca se apaixonou! É crível?
- Talvez seja verdade.
- Não acredito. Pareces criança! Diz aquilo dos dentes para fora... - É verdade que não tenho maior conhecimento dele...
- Quanto a mim, pareceu-me não ser estranha aquela cara... mas não me lembro!
- Parece ser sincero... mas dizer aquilo é já atrevimento.
- Está claro...
- De que te ris?
- Lembra-me um do mesmo gênero que este, disse Emília. Foi já há tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um mês. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do que desprezei-o.
- Que fizeste?
- Ah! não sei o que fiz. Santa Astúcia foi quem operou o milagre. Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.
- Bem feito!
- Não era menos do que este. Mas falemos de cousas sérias... Recebi as folhas francesas de modas...
- Que há de novo?
- Muita cousa. Amanhã tas mandarei. Repara em um novo corte de mangas. É lindíssimo. Já mandei encomendas para a corte. Em artigos de passeios há fartura e do melhor.
- Para mim quase que é inútil mandar.
- Por quê?
- Quase nunca saio de casa.
- Nem ao menos irás jantar comigo no dia de ano-bom!
- Oh! com toda a certeza!
- Pois vai... Ah! irá o homem? O Sr. Tito?
- Se estiver cá... e quiseres...
(continua...)