Por Machado de Assis (1867)
Três anos esteve ela ao pé de mim, sem articular uma queixa, pronta a executar todos os meus desejos, desempenhando aquele papel de mártir que o destino lhe dera. Compreendes que aquela sepultura que ali está perto de mim é a dela. É ali que eu vou pedir-lhe sempre com as minhas orações e as minhas lágrimas um perdão de que preciso.
E toda esta lúgubre história é a história desta lágrima.
Isolei-me, procurei na solidão um descanso; tomam-me uns por doido; outros chamam-me excêntrico. Eu sou apenas uma vítima depois de ter sido um algoz, inconsciente é verdade, mas algoz cruel daquela alma que podia ser feliz na terra, e não o foi. Um dia em que ali estava no cemitério vi aparecer um homem vestido de preto, encaminhando-se para a mesma sepultura. Era Luís. Viu-me chorar, compreendeu que eu amava aquela que havia morrido por ele. Diante daquela sepultura a nossa rivalidade fez uma paz solene; trocamos um aperto de mão, depois do que saímos cada um por seu lado para nunca mais nos encontrarmos.
Luís matou-se. Não podendo achar o deserto na vida, foi buscá-lo na morte. Está ao pé dela no céu; é por isso que eu não vou perturbar lhes a felicidade.
Dizendo isto o velho curvou a cabeça e meditou.
Eu saí...
***
Ainda hoje uma ou duas vezes por semana quem for ao cemitério de Catumbi encontrará Daniel rezando ao pé de uma sepultura, cujas letras o tempo apagou, mas que o velho conhece porque ali reside a sua alma.
ASSIS, Machado de. História de uma lágrima. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1867.