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#Contos#Literatura Brasileira

Francisca

Por Machado de Assis (1867)

Não pretendo descrever a extensão e o efeito das dores morais que dentro de pouco tempo acabrunharam Daniel. Concebe-se que a situação do rapaz era angustiosa e aflitiva. Assim como era apto para as grandes paixões era apto para as grandes dores; e às que sofreu com os últimos desenganos não resistiu; adoeceu gravemente. Quinze dias esteve entre a vida e a morte, com desespero dos médicos, que aplicaram tudo o que a ciência podia oferecer para salvar o enfermo. Desses quinze dias, dez foram de completo delírio. 

Entre os poucos amigos que ainda viera encontrar, e que o visitavam a miúdo no leito da dor, César era um dos mais assíduos e zelosos. 

Mais de uma noite César deixou-se ficar velando junto ao leito do amigo; e quando voltava à casa para descansar, e Francisca, com um interesse a que podia dar uma explicação verossímil, indagava do estado de Daniel, César respondia em voz dolorida: — O rapaz está cada vez pior. Creio que se vai! ... 

Francisca ouvia estas palavras, achava pretexto para retirar-se e ia derramar algumas lágrimas furtivas. 

Em uma das noites que César escolheu para velar junto a Daniel, este, que dormia a espaços, e que nas horas de vigília falava sempre em delírio, pronunciou o nome de Francisca. 

César estava na outra extremidade do quarto lendo para matar o tempo. Ouviu o nome de Francisca. Voltou-se para o leito. Daniel continuou a pronunciar o mesmo nome com voz lamentosa. Que tinha aquele nome? Mas o espírito de César uma vez despertado não se deteve. Lembrou-lhe a cena do encontro em casa com Daniel; o enleio de ambos em sua presença. Tudo isso inspirou-lhe uma suspeita. Largou o livro e aproximou-se da cama. Daniel continuava a falar, mas então acrescentou algumas frases, alguns pormenores que deixaram no espírito de César, não dúvida, mas certeza de que algum laço anterior prendia Francisca a Daniel. 

Esta noite foi a última noite de delírio de Daniel. 

Na manhã seguinte, ainda o doente dormia, quando César se retirou para casa. Francisca não dormira igualmente a noite inteira. Velara junto de um crucifixo a orar pela salvação de Daniel. 

César entrou sombrio e angustiado. Francisca fez-lhe a pergunta do costume sobre o estado do rapaz; César disse-lhe que estava melhor, mas com tal sequidão que fez estremecer a moça. 

Depois do que recolheu-se ao quarto. 

Entretanto, Daniel restabeleceu-se completamente, e, depois da convalescença, a primeira visita que fez foi a César, de cujos cuidados e privações teve exata notícia. Do último dia do delírio até o dia em que saiu, César apenas foi lá duas vezes. Daniel dirigiu-lhe palavras de sincero reconhecimento. 

César aceitou-as com sentimento de verdadeira amizade. Teriam as suas suspeitas desaparecido? Não; aumentavam-se pelo contrário. Suspeitas dolorosas, visto como o estado de Francisca era cada vez mais próprio a fazer crer que, se amor houvera entre ela e Daniel, esse amor não havia desaparecido, antes existia na mesma proporção. É fácil de compreender uma situação como esta; receber, em troca do seu amor de marido, uma afeição de esmola, possuir o vaso sem possuir o perfume, esta situação, todos compreendem, era dolorosa para César. 

César via bem que o amor de Francisca e Daniel devia ter sido anterior ao casamento da primeira; mas esse amor unia Francisca e Daniel, a mulher e o amigo, duas partes de si, a quem ele voltava, na medida própria, os afetos do seu coração. 

César desejava que fosse outro o rival. Teria a satisfação de ir direito a ele e exigir-lhe a posse inteira de um coração que ambicionava e que por honra sua devia possuir todo. Mas Daniel, mas o amigo, mas o homem honrado, com que palavras, com que gestos, reclamaria o marido despojado a posse do coração da moça? 

E bastaria reclamar? Oprimir não seria atear? A distância mataria aquele amor que resistira à distância? O tempo mataria aquele amor que resistira ao tempo? O espírito de César oscilava entre as duas correntes de idéias e de sentimentos; queria e não podia, podia e não queria; a honra, o amor, a amizade, o orgulho, tudo lutava naquele coração, sem que o infeliz esposo enxergasse ao longe um meio de tudo conciliar. Daniel não suspeitava o que ia no espírito do amigo. Fora-lhe mesmo difícil, à vista da alegria que este manifestava mal se encontravam, alegria igual à do passado e que mostrava a medida em que César possuía a triste hipocrisia da dor e do infortúnio. Daniel resolveu ir visitar César em casa. Era talvez a última ou penúltima visita. Desenganado da sorte não lhe restava mais do que ativar o espírito a fim de esquecer o coração. O meio era partir logo para Minas, onde a aplicação dos seus cuidados ao gênero de vida que abraçara por seis anos podia produzir nele algum resultado benéfico. Preparou-se e saiu em direção da casa de César. Daniel escolheu de propósito a hora em que era certo encontrá-lo. 

Quis o destino que exatamente a essa hora César estivesse fora de casa.

Quem lhe deu esta notícia foi Francisca, que, pela primeira vez depois da moléstia, via Daniel. 

Francisca não pôde conter uma pequena exclamação vendo as feições mudadas, a magreza e a palidez do moço. 

(continua...)

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