Por Machado de Assis (1867)
A conversa continuou assim: César, na plena ignorância das coisas, era familiar e folgazão; Daniel, apesar dos sentimentos contrários que lhe enchiam o coração, procurava conversar com o marido de Francisca de modo a não inspirar-lhe suspeitas que pudessem amargar-lhe a paz doméstica; a moça falava o menos que podia e mantinha-se no silêncio habitual.
À despedida de Daniel, que foi dali a uns vinte minutos, César instou com ele para que voltasse amiudamente. Daniel não podia senão prometer: prometeu. E saiu.
O caminho para o hotel em que morava foi para Daniel uma via dolorosa. Já livre das conveniências que o obrigavam a disfarçar, podia agora dar largas ao pensamento e revolver na memória o amor, as esperanças, os trabalhos e o triste resultado de seus esforços malfadados.
Caminhava sem saber como; ia ao sabor do acaso, inteiramente ermo no meio da multidão; a outra de Xavier de Maistre era a única parte de Daniel que vivia e funcionava; o resto seguia em passo automático, distraído e incerto.
Não pretendo descrever a extensão e o efeito das dores morais que dentro de pouco tempo acabrunharam Daniel. Concebe-se que a situação do rapaz era angustiosa e aflitiva. Assim como era apto para as grandes paixões era apto para as grandes dores; e às que sofreu com os últimos desenganos não resistiu; adoeceu gravemente. Quinze dias esteve entre a vida e a morte, com desespero dos médicos, que aplicaram tudo o que a ciência podia oferecer para salvar o enfermo. Desses quinze dias, dez foram de completo delírio.
Entre os poucos amigos que ainda viera encontrar, e que o visitavam a miúdo no leito da dor, César era um dos mais assíduos e zelosos.
Mais de uma noite César deixou-se ficar velando junto ao leito do amigo; e quando voltava à casa para descansar, e Francisca, com um interesse a que podia dar uma explicação verossímil, indagava do estado de Daniel, César respondia em voz dolorida: — O rapaz está cada vez pior. Creio que se vai! ...
Francisca ouvia estas palavras, achava pretexto para retirar-se e ia derramar algumas lágrimas furtivas.
Em uma das noites que César escolheu para velar junto a Daniel, este, que dormia a espaços, e que nas horas de vigília falava sempre em delírio, pronunciou o nome de Francisca.
César estava na outra extremidade do quarto lendo para matar o tempo. Ouviu o nome de Francisca. Voltou-se para o leito. Daniel continuou a pronunciar o mesmo nome com voz lamentosa. Que tinha aquele nome? Mas o espírito de César uma vez despertado não se deteve. Lembrou-lhe a cena do encontro em casa com Daniel; o enleio de ambos em sua presença. Tudo isso inspirou-lhe uma suspeita. Largou o livro e aproximou-se da cama. Daniel continuava a falar, mas então acrescentou algumas frases, alguns pormenores que deixaram no espírito de César, não dúvida, mas certeza de que algum laço anterior prendia Francisca a Daniel.
Esta noite foi a última noite de delírio de Daniel.
Na manhã seguinte, ainda o doente dormia, quando César se retirou para casa. Francisca não dormira igualmente a noite inteira. Velara junto de um crucifixo a orar pela salvação de Daniel.
César entrou sombrio e angustiado. Francisca fez-lhe a pergunta do costume sobre o estado do rapaz; César disse-lhe que estava melhor, mas com tal sequidão que fez estremecer a moça.
Depois do que recolheu-se ao quarto.
Entretanto, Daniel restabeleceu-se completamente, e, depois da convalescença, a primeira visita que fez foi a César, de cujos cuidados e privações teve exata notícia. Do último dia do delírio até o dia em que saiu, César apenas foi lá duas vezes. Daniel dirigiu-lhe palavras de sincero reconhecimento.
César aceitou-as com sentimento de verdadeira amizade. Teriam as suas suspeitas desaparecido? Não; aumentavam-se pelo contrário. Suspeitas dolorosas, visto como o estado de Francisca era cada vez mais próprio a fazer crer que, se amor houvera entre ela e Daniel, esse amor não havia desaparecido, antes existia na mesma proporção. É fácil de compreender uma situação como esta; receber, em troca do seu amor de marido, uma afeição de esmola, possuir o vaso sem possuir o perfume, esta situação, todos compreendem, era dolorosa para César.
César via bem que o amor de Francisca e Daniel devia ter sido anterior ao casamento da primeira; mas esse amor unia Francisca e Daniel, a mulher e o amigo, duas partes de si, a quem ele voltava, na medida própria, os afetos do seu coração.
César desejava que fosse outro o rival. Teria a satisfação de ir direito a ele e exigir-lhe a posse inteira de um coração que ambicionava e que por honra sua devia possuir todo. Mas Daniel, mas o amigo, mas o homem honrado, com que palavras, com que gestos, reclamaria o marido despojado a posse do coração da moça?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Francisca. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.