Por Machado de Assis (1866)
Ouvindo esta narração, Fernando estava aturdido. Desfazia-se em névoa a esperança suprema das suas ambições de moço. A donzela casta e sincera que supunha vir encontrar desaparecia para dar lugar a uma mulher de coração pérfido e vulgar espírito. Não pôde reter algumas lágrimas; mas poucas foram; às primeiras palavras de sua mãe adotiva pedindo-lhe coragem, Fernando ergueu-se, enxugou os olhos e prometeu não abater-se. Procurou mesmo ficar alegre. A pobre Madalena receou alguma coisa e consultou Fernando sobre os seus projetos.
— Oh! descanse, minha mãe, respondeu este; supõe talvez que eu me mate ou mate alguém? Juro-lhe que não farei nem uma nem outra coisa. Olhe, juro por isto. E Fernando beijou respeitosamente a cabeça encanecida e veneranda de Madalena. Passaram-se alguns dias depois da chegada de Fernando. Madalena, vendo que pouco a pouco se tranqüilizava o espírito de Fernando, tranqüilizou-se também. Um dia Madalena, ao entrar Fernando para jantar, disse-lhe:
— Fernando, sabes que Fernanda vem hoje visitar-me?
— Ah!
Fernando não pensara nunca que Fernanda podia visitar sua mãe e encontrar-se com ele em casa. Todavia, depois da primeira exclamação, pareceu refletir alguns segundos e disse:
— Isso que tem? Ela pode vir; eu cá estou: somos dois estranhos...
Madalena ficou desta vez plenamente convencida de que Fernando não sentia mais nada por sua filha, nem amor, nem ódio.
À noite, com efeito, na ocasião em que Fernando se preparava para ler à sua mãe uns apontamentos de viagem que estava escrevendo, parou à porta um carro conduzindo Soares e Fernanda.
Fernando sentiu palpitar-lhe violentamente o coração. Duas lágrimas, as últimas, saltaram-lhe dos olhos e correram pelas faces abaixo. Fernando enxugou-as ocultamente. Quando Madalena olhou para ele, estava completamente calmo.
Entraram os dois.
O encontro de Fernando e Fernanda não foi sem alguma comoção em ambos; mais apaziguada em seus amores por Soares, Fernanda entrava já na reflexão, e a vista de Fernando (que aliás ela sabia já ter voltado) era para ela uma exprobração viva do seu procedimento.
Era mais: a presença do primeiro amante lembrava-lhe os primeiros dias, a candura do primeiro afeto, os sonhos de amor, sonhados por ambos, na doce intimidade do lar doméstico.
Quanto a Fernando, sentia também que lhe voltavam estas lembranças ao espírito; mas, ao mesmo tempo, unia-se à saudade do passado um desgosto pelo aspecto presente da mulher que amara. Fernanda estava uma casquilha. Ar, maneiras, olhares, tudo era característico de uma revolução completa em seus hábitos e em seu espírito. Até a palidez natural e poética do rosto desaparecia debaixo de umas posturas de carmim, sem tom nem graça, aplicadas unicamente para afetar um gênero de beleza que não tinha.
Esta mudança era resultado do contacto de Soares. Com efeito, desviando os olhos de Fernanda para cravá-los nos do homem que lhe roubara a sua felicidade, Fernando pôde ver nele um tipo completo do pintalegrete moderno.
Madalena apresentou Fernando a Soares, e os dois retribuíram friamente o cumprimento do estilo. Por que friamente? Não é que Soares já soubesse do amor que houvera entre sua mulher e Fernando. Não quero deixar supor aos leitores uma coisa que não existe. Soares era de natural frio, como um homem cujas preocupações não vão além de certas futilidades. Quanto a Fernando, compreende-se bem que não era o mais próprio a cumprimentar calorosamente o marido de sua ex-amada.
A conversa entre todos foi indiferente e fria; Fernando procurava e requintava nessa indiferença, nos seus parabéns a Fernanda e na narração que fazia das viagens. Fernanda estava pensativa e respondia por monossílabos, sempre com os olhos baixos. Tinha vergonha de fitar aquele que primeiro lhe possuíra o coração, e que era agora o remorso vivo do seu amor passado.
Madalena procurava conciliar tudo, aproveitando a indiferença de Fernando para estabelecer uma intimidade sem perigo entre as duas almas que um terceiro divorciara. Quanto a Soares, esse, tão frio como os outros, dividia a sua atenção entre os interlocutores e a própria pessoa. A um espírito atilado bastavam dez minutos para conhecer a fundo o caráter de Soares. Fernando no fim de dez minutos sabia com que homem lidava.
A visita durou pouco menos do que costumava. Madalena tinha por costume conduzir sua filha à casa todas as vezes que esta a visitava. Desta vez, quando Soares a convidou a tomar lugar no carro, Madalena pretextou um ligeiro incômodo e pediu desculpa. Fernando compreendeu que Madalena não queria expô-lo a ir também levar Fernanda até à casa; interrompeu a desculpa de Madalena e disse:
— Por que não vai, minha mãe? É perto a casa, creio eu...
E dizendo isto interrogou Soares com o olhar.
— É perto, é, disse este.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Fernando e Fernanda. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.