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#Contos#Literatura Brasileira

Diana

Por Machado de Assis (1866)

Os ponteiros corriam lentamente como uma agonia. 

Luís levantava-se, espiava por entre as folhagens e via as janelas ainda fechadas. Dar-se-á caso que ainda dormissem ou teriam saído? 

Esta pergunta feita a si mesmo trouxe ao espírito do namorado uma dúvida cruel. Se tivessem saído seria uma desilusão. 

Nisto sentiu passos. 

Voltou-se para o lado de onde partia o rumor da areia calcada por pés vagarosos. Viu dois vestidos de mulher. 

Imaginou logo que seriam Diana e sua mãe. 

Naturalmente tinham deixado a cama nesse momento e andavam passeando no jardim, fazendo apetite. 

Luís lembrou-se que ouvira algumas vezes a Diana dizer que tinha este hábito de longos meses. 

Melhor, pensou ele, causo-lhes a surpresa de me verem aqui, e é mais uma prova do amor que dou a Diana. 

E comprimiu a respiração para não ser pressentido e aparecer como nos romances o herói avisado por algum bilhete misterioso. 

As duas aproximavam-se cada vez mais. 

Luís deixou que elas se aproximassem bastante para aparecer então. Entretanto quis ainda uma vez cravar os olhos naquela que era já senhora do coração. Arredou cautelosamente as folhas para melhor ver e colou os olhos à abertura. As duas passavam nesse momento. 

Luís soltou um grito e recuou. 

As mulheres espantadas correram para o caramanchel; mas, ao mesmo tempo, Diana, mal conheceu o rapaz, correu para casa. 

Ficou a velha diante de Luís. 

Qual era a significação do grito do rapaz? 

Era que o sonho que durante tantos dias criara e idealizara desfizera-se ali todo e de uma vez. Diana, a jovem, a bela, a sedutora mulher que tanto impressionara o advogado, era uma mulher amarela, sem beleza, sem mocidade; sem encanto algum. Todos os encantos dela eram artifícios comprados e aplicados diariamente com uma paciência de feia pretensiosa. 

Luís nunca a vira senão à noite, porque Diana, apesar dos artifícios, não queria expor-se à luz meridiana. Ainda assim pudera passar. Mas, ( [1]) luz do dia, e sem os socorros da arte, caminhando em um jardim fechado, na plena confiança de quem não esperava àquela hora semelhante visita, não era feia, era horrenda! 

Calcula-se qual não seria o desencanto do rapaz. Aquele grito fora o grito do amor moribundo. 

A velha mãe da viúva, quando viu Luís, ficou um tanto atrapalhada. Parece que ela era cúmplice nas manhas da vaidosa filha. Mas, como não se tratasse dela pessoalmente, pôde falar ao rapaz, rindo e sem ocultar a natural surpresa de encontrá-lo ali. Luís respondeu que ia visitá-la e esperava a hora marcada. 

A velha convidou-o a entrar, mas o rapaz pretextou um incômodo, explicando o grito que dera, e despediu-se. 

Instâncias, pedidos, rogos, tudo foi inútil. 

O rapaz saiu. 

Dali para casa os seus passos eram incertos, como os de um ébrio. Já não era amor que sentia, visto que o amor fora dedicado à criatura que ele vira à noite e aparentemente bela. Era mal-estar do espírito que por tanto tempo se iludira. 

Quando chegou à casa fez esta reflexão filosófica: 

— Nem sempre os palpites são vãos ; se eu não fosse esperar no jardim não escapava tão milagrosamente ao perigo de carregar todo o resto de minha vida com um... Não acabou a reflexão porque nesse momento apresentou-se-lhe o criado perguntando quando partia para Pelotas. 

— Já, respondeu Luís. 


* * * 


Tempos depois recebia Alberto na corte a terceira carta de Luís. 

Luís a Alberto. — Esta carta há de chegar às tuas mãos poucos dias antes de mim. Estou em Porto Alegre em preparativos de viagem. 

Podia guardar-me para contar-te de viva voz tudo o que me acontecesse depois da última que te escrevi (há um século?), mas prefiro dar-te já a grande notícia. Naturalmente supões que vou chegar à corte casado com a bela Diana? Engano positivo; vou solteiro, como vim. E vou explicar-te a razão. 

Tive ocasião de ver à luz do sol a mulher que eu só vira ao clarão da lua ou das velas da sala. Que abismo entre ambas! Passei do anjo ao dragão! A mulher era feia como um demônio; a noite e a tinta eram a solução daquela charada viva. Dei graças a Deus quando fiz a descoberta. 

À vista te contarei mais detalhadamente o episódio desta descoberta, que só difere de Colombo em não ser de um novo mundo, mas de um velho mundo.

Desenganado dos meus amores, decidi partir para Pelotas. 

Este episódio não é menos interessante. Ouve-me. 

Cheguei a Pelotas e foi examinar a casa que há cinco anos não recebia um bocado de ar. Foram precisos alguns dias para que pudesse deixar entrar lá alguém. Quando ficou em estado de receber-me, lá fui com o meu criado, e preparei tudo para proceder ao exame necessário. 

Tive o cuidado de consultar as paredes para ver se eram ocas e podiam, portanto, encerrar alguma coisa que constituísse o segredo de que falava meu padrinho. Nada. 

Marquei um dia e começamos os nossos trabalhos. 

(continua...)

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