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#Dramas#Literatura Brasileira

Desencantos

Por Machado de Assis (1861)

Não sei. Se eu quisesse concorrer ao bloqueio da praça em questão, era azada ocasião para julgarmos do esforço recíproco e vermos até que ponto a ascendência do elemento positivo exclui a influência do elemento ideal.

PEDRO ALVES

Pois experimente.

LUÍS

Não; disse-lhe já que respeito muito a viúva do coronel e estou longe de sentir por ela a paixão do amor.

PEDRO ALVES

Tanto melhor. Sempre é bom não ter pretendentes para combater. Ficamos amigos, não?

LUÍS

Decerto.

PEDRO ALVES

Se eu vencer o que dirá?

LUÍS

Direi que há certos casos em que com toda a satisfação se pode ser padrasto e direi que esse é o seu caso.

PEDRO ALVES

Oh! se a Clarinha não tiver outro padrasto senão eu ...



Cena V

PEDRO ALVES, LUÍS, D. CLARA



CLARA

Estimo bem vê-los juntos.

PEDRO ALVES

Discutíamos.

LUÍS

Aqui tem o seu leque; está intacto.

CLARA

Meu Deus, que trabalho que foi tomar. Agradeço-lhe do íntimo. É uma prenda que tenho em grande conta; foi-me dado por minha irmã Matilde, em dia de anos meus. Mas tenha cuidado; não aumente tanto a lista das minhas obrigações; a dívida pode engrossar e eu não terei por fim com que solvê-la.

LUÍS

De que dívida me fala? A dívida aqui é minha, dívida perene, que eu mal amortizo por uma gratidão sem limite. Posso eu pagá-la nunca?

CLARA

Pagar o quê?

LUIS

Pagar essas horas de felicidade calma que a sua graciosa urbanidade me dá e que constituem os meus fios de ouro no tecido da vida.

PEDRO ALVES

Reclamo a minha parte nessa ventura.

CLARA

Meu Deus, declaram-se em justa? Não vejo senão quebrarem lanças em meu favor. Cavalheiros, ânimo, a liça está aberta, e a castelã espera o reclamo do vencedor.

LUÍS

Oh! a castelã pode quebrar o encanto do vencedor desamparando a galeria e deixando-o só com as feridas abertas no combate.

CLARA

Tão pouca fé o anima?

LUÍS

Não é a fé das pessoas que me falta, mas a fé da fortuna. Fui sempre tão mal-aventurado que nem tento acreditar por um momento na boa sorte.

CLARA

Isso não é natural num cavalheiro cristão.

LUÍS

O cavalheiro cristão está prestes a mourar.

CLARA

Oh!

LUÍS

O sol do Oriente aquece os corações, ao passo que o de Petrópolis esfria-os.

CLARA

Estude antes o fenômeno e não vá sacrificar a sua consciência. Mas, na realidade, tem sempre encontrado a derrota nas suas pelejas?

LUÍS

A derrota foi sempre a sorte das minhas armas. Será que elas sejam mal temperadas? Será que eu não as maneje bem? Não sei.

PEDRO ALVES

É talvez uma e outra coisa.

LUÍS

Também pode ser.

CLARA

Duvido.

PEDRO ALVES

Duvida?

CLARA

E sabe quais são as vantagens de seus vencedores?

LUÍS

Demais até.

CLARA

Procure alcançá-las.

LUÍS

Menos isso. Quando dois adversários se medem, as mais das vezes o vencedor é sempre aquele, que à elevada qualidade de tolo reúne uma sofrível dose de presunção. A esse, as palmas da vitória, a esse a boa fortuna da guerra: quer que o imite?

CLARA

Disse - as mais das vezes - confessa, pois, que há exceções.

LUÍS

Fora absurdo negá-las, mas declaro que nunca as encontrei.

CLARA

Não deve desesperar, porque a fortuna aparece quando menos se conta com ela.

LUÍS

Mas aparece às vezes tarde. Chega quando a porta está cerrada e tudo que nos cerca é silencioso e triste. Então a peregrina demorada entra como uma amiga consoladora, mas sem os entusiasmos do coração.

CLARA

Sabe o que o perde? É a fantasia.

LUÍS

A fantasia?

CLARA

Não lhe disse há pouco que o senhor via as coisas através de um vidro de cor? É o óculo da fantasia, óculo brilhante, mas mentiroso, que transtorna o aspecto do panorama social, e que faz vê-lo pior do que é, para dar-lhe um remédio melhor do que pode ser.

PEDRO ALVES

Bravo! Deixe-me, V. Exa., beijar-lhe a mão.

CLARA

Por quê?

PEDRO ALVES

Pela lição que acaba de dar ao Sr. Luís de Melo.

CLARA

Ah! por que o acusei de visionário? O nosso vizinho carece de quem lhe fale assim. Perder-se-á se continuar a viver no mundo abstrato das suas teorias platônicas.

PEDRO ALVES

Ou por outra, e mais positivamente, V. Exa. mostrou-lhe que acabou o reinado das baladas e da pasmaceira para dar lugar ao império dos homens de juízo e dos espíritos sólidos.

LUÍS

V. Exa. toma então o partido que me é adverso?

CLARA

Eu não tomo partido nenhum.

LUÍS

Entretanto, abriu brecha aos assaltos do Sr. Pedro Alves, que se compraz em mostrar-se espírito sólido e homem de juízo.

PEDRO ALVES

E de muito juízo. Pensa que eu adoto o seu sistema de fantasia, e por assim dizer, de choradeira? Nada, o meu sistema é absolutamente oposto; emprego os meios bruscos por serem os que estão de acordo com o verdadeiro sentimento. Os da minha têmpera são assim.

LUÍS

E o caso é que são felizes.

PEDRO ALVES

Muito felizes. Temos boas armas e manejamo-las bem. Chame a isso toleima e presunção, pouco nos importa; é preciso que os vencidos tenham um desafogo.

CLARA

(a Luís de Melo)

O que diz a isto?

LUÍS

Digo que estou muito fora do meu século. O que fazer contra adversários que se contam em grande número, número infinito, a admitir a versão dos livros santos?

CLARA

Mas, realmente, não vejo que pudesse responder com vantagem.

LUÍS

E V. Exa. sanciona a teoria contrária?

CLARA

A castelã não sanciona, anima os lidadores.

LUÍS

Animação negativa para mim. V. Exa. dá-me licença?

CLARA

Onde vai?

LUÍS

Tenho uma pessoa que me espera em casa. V. Exa. janta às seis, o meu relógio marca

cinco. Dá-me este primeiro quarto de hora?

(continua...)

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