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#Contos#Literatura Brasileira

Decadência de dois grandes homens

Por Machado de Assis (1873)

— Foi inventada por meu ilustre sogro, o incomparável Catão, quando César, voltando vencedor da Espanha, queria o triunfo e o consulado. A assembléia inclinava-se a favor do pretendente; Catão não teve outro meio: subiu à tribuna e falou até a noite, falou sem parar um minuto. Os ouvintes ficaram estafados com a arenga, e César vendo que não podia ceder a um homem daquele calibre, dispensou o triunfo, e veio pleitear o consulado. — De maneira que hoje quando um orador toma o tempo até o fim da hora?... — Está na altura de Catão. 

— Tomo nota. 

— Ah! meu rico senhor, a vida é uma eterna repetição. Todos inventam o inventado. — Tem razão. 

— Matamos o divino Júlio, e mal lhe posso dizer o assombro que se seguiu ao nosso crime... Crime lhe chamo porque reconheço hoje que o era; mas sou obrigado a dizer que o ilustre César ofendera a majestade romana. Eu não fui o inventor da conjuração; toda a gente estava inspirada dos meus desejos. Eu não podia entrar no senado que não achasse essa cartinha: “ ou então: “. De toda a parte me instigaram. Uniram-se todos os ódios ao meu, e o mundo presenciou aquela tremenda catástrofe... 

Jaime ou Bruto, que eu realmente não sei como lhe chame, concentrou um pouco o seu espírito; depois levantou-se, foi à porta, espiou, deu uma carreirinha e veio sentar-se defronte de mim. 

— Há de ter lido que a sombra de César me apareceu depois duas vezes, sendo que, da segunda, veio silenciosa e silenciosa foi. É um erro. Da segunda vez foi que eu ouvi tremendo segredo que lhe vou revelar. Não o disse a ninguém por medo, e medo do que se dissesse de mim. Vá, abra os ouvidos... 

Nesse momento o gato começou a dar saltos vertiginosos. 

— Que diabo é isto? disse eu. 

— Não sei; creio que está com fome. São horas de cearmos. 

Jaime-Bruto foi buscar a ceia do gato, e trouxe para a mesa um assado frio, pão, queijo

inglês, e vinho italiano e figos secos. 

— Os vinhos italianos são uma recordação de minha vida anterior, disse ele. Quanto aos figos, se não são de Túsculo, ao menos os fazem lembrar. 

Comemos tranqüilamente; eram então oito horas, e o velho estava ansioso que batessem as doze. Ao cabo de meia hora acendeu ele um charuto, e eu o mesmo que ele me havia dado de manhã, e continuamos a falar de César. 

— Apareceu-me a sombra, disse ele, e desenrolou um libelo dos males que eu havia feito à República com a morte dele, e ao mesmo tempo acrescentou que o meu crime nada salvara, pois era inevitável a decadência da República. Como eu respondesse um pouco irritado, a sombra soltou estas fatídicas palavras: “ 

Tirei o charuto da boca, e contemplei a cara do meu interlocutor. Era impossível que não estivesse próximo um acesso de loucura; mas o olhar do homem conservava a mesma inteligência e serenidade. Ele respirava a fumaça com delícias e olhava, ora para o teto, ora para o gato. 

— É um doido manso, pensei eu, e continuei a fumar enquanto o velho continuou: — Compreende o senhor por que motivo receio esses malditos idos de março, aniversário do meu crime. 

Atirou fora o charuto. 

— Não fuma? perguntei eu. 

— Destes não fumo hoje. 

— Quer dos meus? 

— Aceito. 

Dei-lhe um charuto, que ele acendeu, e eu continuei a fumar o dele, que me fazia sentir delícias inefáveis. Ia-se-me o corpo ficando mole; estendi-me na poltrona e prestei ouvidos ao anfitrião. 

Este passeava vagarosamente, gesticulando, rindo sem motivo, outras vezes chorando, tudo como quem tem alguma mania na cabeça. 

— Não me dirá, perguntei eu, se é neste gato que está a alma de Júlio? — Sem dúvida, é neste bicho que se meteu a alma daquele grande homem, o primeiro do universo. 

O gato não pareceu reparar nessa adulação póstuma do nobre Bruto, e foi colocar-se no sofá em ação de querer dormir. Pus os olhos no animal, e admirei o que eram os destinos humanos. César estava reduzido à condição de animal doméstico! Aquele gato, que estava ali diante de mim, tinha escrito os Comentários, subjugado os Gauleses, vencido Pompeu, destruído a República. Saciava-se agora com uma simples ceia, quando outrora queria dominar todo o universo. 

Jaime veio tirar-me das minhas cogitações. 

— Poderia eu ter alguma dúvida acerca da identidade deste animal, disse ele; mas tudo me prova que é ele o meu divino Júlio. 

— Como? 

— Apareceu-me aqui uma noite sem que a porta estivesse aberta e começou a olhar para mim. Quis pô-lo fora; impossível. Então lembrou-me a ameaça da sombra. — “, disse eu, chamando o gato; e imediatamente começou ele a fazer-me festas. Era fado ou ocasião: mais tarde ou mais cedo o meu túmulo é o ventre deste nobre animal. — Acho que não tem razão de crer... 

— Ah! meu caro doutor... é razão e mais que razão. Quer ver? Júlio César! O gato, apenas ouviu este nome, pulou do sofá e começou a dar saltos mortais por cima de um Niágara imaginário, a ponto de me obrigar a sair da cadeira e ir para o sofá. — Aquieta-te, Júlio! disse o velho. 

(continua...)

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