Por Machado de Assis (1876)
— Como vai o inventário do nosso pobre Matias? perguntou ela.
— Vai andando, respondeu Gaspar escondendo um charuto que casualmente tiram da algibeira.
— Fuma, fuma, disse D. Mônica sorrindo.
Gaspar agradeceu e acendeu um fósforo continuando a resposta.
— O inventário não levará muito tempo; toda a questão será o negócio da herança... — Da herança! Por quê? perguntou D. Mônica. Há algum herdeiro que reclame?... — Não há nenhum. A senhora sabe que meu tio nomeou-me seu herdeiro universal, com a condição...
— Sim... interrompeu D. Mônica.
— Peço-lhe que acredite que eu nunca ousaria exigir da senhora um sacrifício... — Eras capaz de sacrificar a herança? perguntou D. Mônica olhando para ele admirada. — Era.
D. Mônica refletiu alguns instantes.
— Compreendo os teus sentimentos, e admiro o teu desinteresse. Espero contudo que me farás a justiça de crer que eu não consentiria nunca em deserdar-te... Desta vez foi Gaspar que olhou admirado para D. Mônica.
— A vontade do capitão era beneficiar-nos a ambos, continuou D. Mônica. Pareceu-lhe que o casamento correspondia às suas intenções. Não refletiu, de certo, na disparidade que há entre mim e ti; não se lembrou de que podia expor-nos um e outro aos comentários do mundo.
— Justamente, respondeu Gaspar.
— Mas o capitão morreu e não pode reparar o mal. Pela minha parte, doer-me-ia se contribuísse para que perdesses a herança... Que razão alegaria eu para fazê-lo? A tal ou qual distância entre as nossas idades; não tenho porém nenhum direito a demorar-me nessa consideração.
— Mas...
— Um casamento entre nós será uma formalidade necessária para receber a herança. Não tenho direito de recusar a formalidade como não teria de recusar a minha assinatura se esta fosse precisa.
— Oh! minha tia! exclamou Gaspar, o seu coração é bom, mas posso eu abusar... — Não há abusar...
— Nunca!
— Nunca e sempre... São duas palavras que pedem reflexão, interrompeu D. Mônica levantando a sua pachorra. Até outro dia! Não sou tão má como poderias supor... Adeus! — Mas...
D. Mônica estendeu-lhe a mão sorrindo, e sorrindo com tanta arte, que só um dos dentes lhe apareceu. Gaspar beijou-lhe a mão; a boa velha encaminhou-se para uma das portas que davam para o interior. Gaspar ficou pasmado na sala. Dois minutos depois transpunha a porta que dava para o corredor e descia as escadas.
— Esta agora é melhor! pensava ele. De maneira que a velha sacrifica-se para me dar gosto?
Vinte minutos depois encontrou Veloso.
— Sabes o que me acontece?
— Não.
— Acho disposição em tia Mônica para casar comigo.
Veloso encostou-se a um portal para não cair. Quando pôde recobrar a fala: — Impossível! disse ele.
— Parece impossível, mas é a pura verdade.
— De maneira que tu...
— Vou mandá-la ao diabo.
Tais eram efetivamente as intenções de Gaspar. Durante oito dias não voltou à casa de D. Mônica, não tanto porque as disposições da velha o irritavam, mas porque andava tomado de terror. A cada passo parecia-lhe ver um padre, um altar, a tia e o casamento celebrado sem remissão nem agravo.
IV
Entretanto, Lucinda entrou a desanimar um pouco nas suas esperanças matrimoniais. A situação de Gaspar era pior do que antes; e sobre ser pior não lhe falava ele em coisa que se parecesse com casamento. Quais seriam as suas intenções, e que desilusão lhe preparava o futuro? Um dia abriu-se com ele.
— Oh! Descansa! respondeu Gaspar, serás minha ainda contra a vontade do céu... — Não blasfemes!
— Falo-te assim, para te mostrar a resolução em que estou. E já que me falaste nisto, dir te-ei que ainda é tempo de refletir. Bem sei que não amaste em mim os bens da fortuna, que aliás nunca tive. Contudo, é bom que vejas a situação em que me acho. A pouca esperança que podia haver de melhorar de sorte esvaeceu-se; nada tenho, além do meu trabalho. Queres-me assim mesmo?
A moça lançou um olhar de indignação ao rapaz.
— Não me respondes? perguntou este.
— Com o desprezo, era a única resposta que merecias! exclamou Lucinda. Esta indignação da namorada foi um bálsamo suave lançado no coração do moço. Era muito melhor do que um sorriso ou um levantar de ombros, ou qualquer outra coisa menos expressiva.
— Perdoas-me? disse ele.
— Não!
— Mas não ficas querendo mal?
— Talvez!
— Não digas isso! Reconheço que sou culpado mas a intenção das minhas palavras era a mais pura e inocente!
Lucinda acreditou piamente na pureza da intenção do rapaz e a conversa encaminhou-se para assuntos menos ásperos, em que por enquanto os deixaremos para ir ver em que se ocupa a senhora D. Mônica durante a longa ausência de Gaspar.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.