Por Machado de Assis (1876)
D. Mônica refletiu alguns instantes.
— Compreendo os teus sentimentos, e admiro o teu desinteresse. Espero contudo que me farás a justiça de crer que eu não consentiria nunca em deserdar-te... Desta vez foi Gaspar que olhou admirado para D. Mônica.
— A vontade do capitão era beneficiar-nos a ambos, continuou D. Mônica. Pareceu-lhe que o casamento correspondia às suas intenções. Não refletiu, de certo, na disparidade que há entre mim e ti; não se lembrou de que podia expor-nos um e outro aos comentários do mundo.
— Justamente, respondeu Gaspar.
— Mas o capitão morreu e não pode reparar o mal. Pela minha parte, doer-me-ia se contribuísse para que perdesses a herança... Que razão alegaria eu para fazê-lo? A tal ou qual distância entre as nossas idades; não tenho porém nenhum direito a demorar-me nessa consideração.
— Mas...
— Um casamento entre nós será uma formalidade necessária para receber a herança. Não tenho direito de recusar a formalidade como não teria de recusar a minha assinatura se esta fosse precisa.
— Oh! minha tia! exclamou Gaspar, o seu coração é bom, mas posso eu abusar... — Não há abusar...
— Nunca!
— Nunca e sempre... São duas palavras que pedem reflexão, interrompeu D. Mônica levantando a sua pachorra. Até outro dia! Não sou tão má como poderias supor... Adeus! — Mas...
D. Mônica estendeu-lhe a mão sorrindo, e sorrindo com tanta arte, que só um dos dentes lhe apareceu. Gaspar beijou-lhe a mão; a boa velha encaminhou-se para uma das portas que davam para o interior. Gaspar ficou pasmado na sala. Dois minutos depois transpunha a porta que dava para o corredor e descia as escadas.
— Esta agora é melhor! pensava ele. De maneira que a velha sacrifica-se para me dar gosto?
Vinte minutos depois encontrou Veloso.
— Sabes o que me acontece?
— Não.
— Acho disposição em tia Mônica para casar comigo.
Veloso encostou-se a um portal para não cair. Quando pôde recobrar a fala: — Impossível! disse ele.
— Parece impossível, mas é a pura verdade.
— De maneira que tu...
— Vou mandá-la ao diabo.
Tais eram efetivamente as intenções de Gaspar. Durante oito dias não voltou à casa de D. Mônica, não tanto porque as disposições da velha o irritavam, mas porque andava tomado de terror. A cada passo parecia-lhe ver um padre, um altar, a tia e o casamento celebrado sem remissão nem agravo.
IV
Entretanto, Lucinda entrou a desanimar um pouco nas suas esperanças matrimoniais. A situação de Gaspar era pior do que antes; e sobre ser pior não lhe falava ele em coisa que se parecesse com casamento. Quais seriam as suas intenções, e que desilusão lhe preparava o futuro? Um dia abriu-se com ele.
— Oh! Descansa! respondeu Gaspar, serás minha ainda contra a vontade do céu... — Não blasfemes!
— Falo-te assim, para te mostrar a resolução em que estou. E já que me falaste nisto, dir te-ei que ainda é tempo de refletir. Bem sei que não amaste em mim os bens da fortuna, que aliás nunca tive. Contudo, é bom que vejas a situação em que me acho. A pouca esperança que podia haver de melhorar de sorte esvaeceu-se; nada tenho, além do meu trabalho. Queres-me assim mesmo?
A moça lançou um olhar de indignação ao rapaz.
— Não me respondes? perguntou este.
— Com o desprezo, era a única resposta que merecias! exclamou Lucinda. Esta indignação da namorada foi um bálsamo suave lançado no coração do moço. Era muito melhor do que um sorriso ou um levantar de ombros, ou qualquer outra coisa menos expressiva.
— Perdoas-me? disse ele.
— Não!
— Mas não ficas querendo mal?
— Talvez!
— Não digas isso! Reconheço que sou culpado mas a intenção das minhas palavras era a mais pura e inocente!
Lucinda acreditou piamente na pureza da intenção do rapaz e a conversa encaminhou-se para assuntos menos ásperos, em que por enquanto os deixaremos para ir ver em que se ocupa a senhora D. Mônica durante a longa ausência de Gaspar.
D. Mônica contou com extrema atenção e tal ou qual saudade os dias da ausência do sobrinho. Não tardou a zangar-se com tamanho prazo, até que um dia ergueu-se da cama com a resolução de o mandar chamar. Nesse dia a camareira de D. Mônica pôs em atividade todos os seus talentos de ornamentista para reparar os ultrajes dos anos, e repor a boa senhora em condições menos desfavoráveis do que a pusera a natureza. Duas horas a espartilhar-se e a vestir-se. Ao cabo de todo esse tempo dispôs o ânimo para receber o esquivo sobrinha a quem escrevera logo de manhã.
Todo esse trabalho, porém, foi inútil porque o mencionado sobrinho não apareceu, e D. Mônica teve de contentar-se com as despesas da toilette.
A esquivança do sobrinho pareceu-lhe de algum modo ofensiva, duplamente ofensiva, porque o era à sua pessoa como tia e como mulher. Como mulher é que ela sentiu mais. Ao mesmo tempo refletiu no caso, e hesitou em crer que o rapaz, sem forte motivo, se
dispusesse a perder nada menos que uma gorda aposentadoria.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.