Por Bento Teixeira (1601)
Foi o filho de Anquises, foi Acates,
À região do Caos litigioso,
Com ramo d’ouro fino e de quilates,
Chegando ao campo Elíseu deleitoso.
Quão mal, por falta deste, a muitos trates
(Ó sorte!) neste tempo trabalhoso,
Bem claro no-lo mostra a experiência
Em poder mais que a justiça a aderência.
XXXIX
Mas deixando (dizia) ao tempo avaro
Cousas que Deus eterno e ele cura,
E tornando ao Presságio novo e raro,
Que na parte mental se me figura,
De Jorge d’Albuquerque, forte e claro,
A despeito direi da inveja pura,
Pera o qual monta pouco a culta Musa,
Que Meónio em louvar Aquiles usa.
XL
Bem sei que, se seus feitos não sublimo,
É roubo que 1he faço mui notável;
Se o faço como devo, sei que imprimo
Escândalo no vulgo variável.
Mas o dente de Zoilo, nem Mínimo,
Estimo muito pouco, que agradável
É impossível ser nenhum que canta
Proezas de valor e glória tanta.
XLI
Uô a cousa me faz dificuldade
E o espírito profético me cansa,
A qual é ter no vulgo autoridade
Só aquilo a que sua força alcança.
Mas, se é um caso raro, ou novidade
Das que, de tempo em tempo, o tempo lança,
Tal crédito lhe dão, que me lastima
Ver a verdade o pouco que se estima."
XLII
E prosseguindo (diz: "que Sol luzente
Vem d’ouro as brancas nuvens perfilando,
Que está com braço indômito e valente
A fama dos antigos eclipsando;
Em quem o esforço todo juntamente
Se está como em seu centro trasladando?
É Jorge d'Albuquerque mais invicto
Que o que desceu ao Reino de Cocito.
XLIII
Depois de ter o Bárbaro difuso
E roto, as portas fechar de Jano,
Por vir ao Reino do valente Luso
E tentar a fortuna do Oceano."
Um pouco aqui Proteu, como confuso,
Estava receando o grave dano,
Que havia de acrescer ao claro Herói
No Reino aonde vive Cimotoe.
XLIV
"Sei mui certo do fado (prosseguia)
Que trará o Lusitano por designo
Escurecer o esforço e valentia
Do braço Assírio, Grego e do Latino.
Mas este pressuposto e fantasia
Lhe tirará de inveja o seu destino,
Que conjurando com os Elementos
Abalará do Mar os fundamentos.
XLV
Porque Lémnio cruel, de quem descende
A Bárbara progênie e insolência,
Vendo que o Albuquerque tanto ofende
Gente que dele tem a descendência,
Com mil meus ilícitos pretende
Fazer irreparável resistência
Ao claro Jorge, baroil e forte,
Em quem não dominava a vária sorte.
XLVI
Na parte mais secreta da memória,
Terá mui escrita. impressa e estampada
Aquela triste e maranhada História,
Com Marte, sobre Vênus celebrada.
Verá que seu primor e clara glória
Há de ficar em Lete sepultada,
Se o braço Português vitória alcança
Da nação que tem nele confiança.
XLVII
E com rosto cruel e furibundo,
Dos encovados olhos cintilando,
Férvido, impaciente, pelo mundo
Andará estas palavras derramando":
— Pôde Nictélio só no Mar profundo
Sorver as Naus Meónias navegando,
Não sendo mor Senhor, nem mais possante
Nem filho mais mimoso do Tonante?
XLVIII
E pôde Juno andar tantos enganos,
Sem razão, contra Tróia maquinando,
E fazer que o Rei justo dos Troianos
Andasse tanto tempo o Mar sulcando?
E que vindo no cabo de dez anos,
De Cila e de Caríbdis escapando,
Chegasse à desejada e nova terra,
E co Latino Rei tivesse guerra?
XLIX
E pôde Palas subverter no Ponto
O filho de Oileu per causa leve?
Tentar outros casos que não conto
Por me não dar lugar o tempo breve?
E que eu por mil razões, que não aponto,
A quem do fado a lei render se deve,
Do que tenho tentado já desista,
E a gente Lusitana me resista?
L
Eu por ventura sou Deus indigente,
Nascido da progênie dos humanos,
Ou não entro no número dos sete,
Celestes, imortais e soberanos?
A quarta Esfera a mim não se comete?
Não tenho em meu poder os Centimanos?
Jove não tem o Céu? O Mar, Tridente?
Plutão, o Reino da danada gente?
LI
Em preço, ser, valor, ou em nobreza,
Qual dos supremos é mais qu’eu altivo?
Se Netuno do Mar tem a braveza,
Eu tenho a região do fogo ativo.
Se Dite aflige as almas com crueza,
(continua...)
TEIXEIRA, Bento. Prosopopeia. 1601. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16579. Acesso em: 28 nov. 2025.