Por Machado de Assis (1887)
— Como assim?
João Barbosa abafou uma pontada reumática, ergueu-se, curvou-se diante de D. Lucinda e pediu-lhe a mão. A viúva não corou; mas, posto esperasse aquilo mesmo, estremeceu de júbilo.
— Que me responde? perguntou ele.
— Recuso.
— Recusa!
— Oh! com muita dor do meu coração, mas recuso!
João Barbosa tornou a sentar-se; estava pálido.
— Não é possível! disse ele.
— Mas por quê?
— Por que... por que, infelizmente, o senhor é rico.
— Que tem?
— Seus parentes dirão que eu lhe armei uma cilada para enriquecer... — Meus parentes! Dois biltres, que não valem a mínima atenção! Que tem que digam isso?
— Tem tudo. Além disso...
— Que mais?
— Tenho parentes meus, que não hão de levar a bem este casamento; dirão a mesma coisa, e eu ficarei... Não falemos em semelhante coisa!
João Barbosa estava aflito e ao mesmo tempo dominado pela elevação de sentimentos da interessante viúva. O que ele então esperdiçou em eloqüência e raciocínio encheria meia biblioteca; lembrou-lhe tudo: a superioridade de ambos, sua independência, o desprezo que mereciam as opiniões do mundo, sobretudo as opiniões dos interessados; finalmente, pintou-lhe o estado de seu coração. Este último argumento pareceu enternecer a viúva.
— Não sou moço, dizia ele, mas a mocidade...
— A mocidade não está na certidão de batismo, acudiu filosoficamente D. Lucinda, está no sentimento, que é tudo; há moços decrépitos, e homens maduros eternamente jovens. — Isso, isso...
— Mas...
— Mas, há de ceder! Eu lho peço; unamo-nos e deixemos falar os invejosos! D. Lucinda resistiu pouco mais. O casamento foi tratado entre os dois, convencionando-se que se verificaria o mais cedo possível.
João Barbosa era homem digno de apreço; não fazia as coisas por metade. Quis arranjar as coisas de modo que os dois sobrinhos nada tivessem do que ele deixasse quando viesse a morrer, se tal desastre tinha de acontecer — coisa de que o velho não estava muito convencido.
Tal era a situação.
João Barbosa fez a visita costumada à interessante noiva. Era matinal demais; D. Lucinda, porém, não podia dizer nada que viesse a desagradar a um homem que tão galhardamente se mostrava com ela.
A visita nunca ia além de duas horas; era passada em coisas insignificantes, entremeada de suspiros do noivo, e muita faceirice dela.
— O que me estava reservado nestas alturas! dizia João Barbosa ao sair de lá. Naquele dia, logo que ele saiu de casa, D. Joana tratou de examinar friamente a situação. Não podia haver pior para ela. Era claro que, embora João Barbosa não a despedisse logo, seria compelido a fazê-lo pela mulher nos primeiros dias do casamento, ou talvez antes. Por outro lado, desde que ele devesse carinhos a alguém mais que não a ela somente, sua gratidão viria a diminuir muito, e com a gratidão o legado provável. Era preciso achar um remédio.
Qual?
Nisso gastou D. Joana toda a manhã sem achar solução nenhuma, ao menos solução que prestasse. Pensou em várias coisas, todas impraticáveis ou arriscadas e terríveis para ela.
Quando João Barbosa voltou para casa, às três horas da tarde, achou-a triste e calada. Indagou o que era; ela respondeu com algumas palavras soltas, mas sem clareza, de maneira que ele ficaria na mesma, se não tivesse havido a cena da manhã. — Já lhe disse, D. Joana, que a senhora não perde nada com a minha nova situação. O lugar pertence-lhe.
O olhar de dignidade ofendida que ela lhe lançou foi tal que ele não achou nenhuma réplica. Entre si fez um elogio à caseira.
— Tem-me afeição, coitada! é uma alma dotada de muita elevação. D. Joana não o serviu com menos carinho nesse e no dia seguinte; era a mesma pontualidade e solicitude. A tristeza porém era também a mesma e isto desconsolava sobremodo o noivo de D. Lucinda, cujo principal desejo era fazê-las felizes ambas. O sobrinho José, que tivera o bom gosto de cortar os laços que o prendiam ao outro, desde que viu serem inúteis os esforços para separar D. Joana de casa, não deixava de ali ir a miúdo tomar a bênção ao tio e receber alguma coisa de quando em quando. Acertou de ir alguns dias depois da revelação de João Barbosa. Não o achou em casa, mas D. Joana estava, e ele em tais circunstâncias não deixava de se demorar a louvar o tio, na esperança de que alguma coisa chegasse aos ouvidos deste. Naquele dia notou que D. Joana não tinha a alegria do costume.
Interrogada por ele, D. Joana respondeu:
— Não é nada...
— Alguma coisa há de ser, dar-se-á caso que...
— Que?...
— Que meu tio esteja doente?
— Antes fosse isso!
— Que ouço?
(continua...)
ASSIS, Machado de. A melhor das noivas. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.