Por Bernardo Guimarães (1883)
— É debalde insistir, senhor Conrado, replicou Moraes,' — nós não disporemos della, nem mesmo que o senhor offereça toda a sua fortuna. A paternidade, que Va chama a si, e de que não queremos duvidar, nada signiica; a maternidade é o que importa neste caso, e emquanto Va Sa não provar que Rezaura é filha de mãe livre...
-— Nada mais facil, — atalhou Conrado; — mas quero guarda resse segredo, porque importa a honra de uma mulher, a quem consagro... a mais alta estima.
— Ah ! nesse caso só Va Sa tentando os meios judiciaes; e mesmo assim lhe será talvez necessario desembuchar esse segredo. Devo notar-lhe tambem que nós não maltratamos Rozaura ; pelo contrario a consideramos como fazendo parte da familia, e a tratamos com o mimo e carinho que ella merece. A minha Estella a quer como si fosse sua irmã, e minha mulher a extremece, como si fosse sua filha.
— Acaba Va sa dc proferir a meio uma verdade mais verdadeira do que imagina, — disse Conrado com certo sorriso de melancolica ironia, cuja significação só Adelaide e Frei João comprehenderão.
— Mas, senhor Moraes, continuou Conrado, creio que neste negocio poderei pres cindir dos meios judiciarios. A infeliz mulher que escravizou Rozaura, falleceo hontem, mas antes de expirar fêz confissão publica do seu crime; o sacerdote, que a ouvio de confissão, foi o meu amigo, que aqui se acha presente, o senhor Frei João de Sancta Clara, de cujas virtudes, prudencia e illustraçüo não é dado duvidar. Em presença delle, minha e de mais duas testemunhas as velha fez a seguinte declaração, que tomamos por escripto, e que passo a ler.
Conrado tirou da algibeira e leo com voz firme e clara o papel, cujo conteúdo já conhecemos. Finda a leitura decorrerão silenciosamente alguns instantes de angustia e inquetação para uns, e de estupefacção para outros. A angustia estava no coração de Conrado, de Frei João e de Adelaide, que comprehendião perfeitamente a critica situação em que se achavão. Póde-se idear, mas não explicar, a penivel posição em que se achavão aquellas duas almas nobres em presença de uma mulher, cuja reputação ião ver-se talvez na dura necessidade de sacrificar para salvar a filha da escravidão e da deshonra ; de uma mulher, que não obstante ter no seu passado uma nodoa muito desculpavel, tinha-se mostrado por seu ulterior comportamento digna de todo o respeito e estima da sociedade.
A estupefacção era por parte do major e de seu genro, que a principio sentirão—se inteiramente desconcertados e como que aturdidos com a leitura do documento, que Conrado apresentára. Todavia não quizerão dar-se ainda por vencidos. O primeiro, já treslendo algum tanto, não quiz dar credito ao que via e ouvia, e começou a pensar lá de si para si que toda aquella scena não passava de manejo preparado pelo seu ex-capatáz, que por aquella maneira procurava vingar-se delle por lhe ter recusado a mão de sua filha. O genro dominedo pela insensata paixão, que concebera pela gentil Rozaura, e allucinado pelo ciume, que o sogro lhe excitára n'alma fazendo-lhe crer que Conrado cobiçava a rapariga para sua amacia, fechava tambem os olhos á evidencia, e não via nessa triste e pungente scena mais que embuste e velhacaria.
Foi Moraes quem primeiro rompeo o silencio.
Senhor Conrado, — disse elle com desdenhosa e impertinente altivéz, — sei muito bem quem era essa mulher, que foi a primeira senhora de Rozaura, e que hontem falleceo. Tambem já houve quem esta manhã me desse noticia da scena, que vossa senhoria preparou, e que de facto não foi mal representada.
Em qualquer outra occasião Conrado teria repellido com energia e dignidade esta tão grosseira e insultuosa insinuação ; mas naquelle delicado transe lhe era mistér levar ao extremo sua paciencia e longanimidade. Uma ruptura logo no começo daquella conferencia podia transtormar todos os seus planos de accommodação pacifica e honrosa, e portanto deixou passar sem resposta as palavras injuriosas de Moraes.
Não contesto, —— continuou este, — que essa mulher foi quem vendeo Rozaura; mas vendeo-a como sua legitima senhora; posso contestar, contesto e contestarei sempre que Rozaura seja livre, por nascimento, como filha de mulher livre. Merece ser livre, é verdade; mas a mim compete dar-lhe a liberdade, quando me approuver e julgar conveniente. Todo o povo de S. Paulo conhece muito bem quem foi essa Nha-Tuca. Foi uma boa e honrada senhora, que ha muitos annos por desgraças e contratempos, que lhe sobrevierão, cahio na miseria e perdeo o juizo. Caduca e alienada, como estava, com mais de oitenta annos de edade, e de mais a mais já nas vascas da morte, que valor póde ter a sua declaração, embora feita perante tres ou mais testemunhas
— Isso é que é verdade, — ponderou o major.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.