Por Bernardo Guimarães (1883)
Ao ver tão perto de si e ao tocar a mão daquella que fôra o primeiro e unico amor de sua vida, Conrado sentio o mais violento abalo, e abafou um gemido de angustia e de saudade. Pareceo—lhe que sua antiga paixão ia renascer com todos os seus arroubos e exaltacões, e a muito custo conseguio domar a extrema emoção que o assoberbava.
Tambem Frei João se achava bastantemente commovido. Espirito elevado, e alma nobre e sensivel, bem comprehendia o alcance e importancia da scena, que se ia passar. O major e seu genro erão os unicos que se mostravão pouco preoccupados, e apezar de não ignorarem o motivo da visita de Conrado, affectavão certo ar de indifferença e seguridade. Tinhão razão ; estavão longe de suspeitar a que tristes resultados poderia chegar aquella conferencia. Si pudessem adivinhar, que vergonha e ignominia estava suspensa sobre suas cabeças como a espada de Damocles, serião elles os primeiros a se apresentarem de fronte humilhada e cheios de confusão, pedindo uma accommodação honrosa,
Senhor major, — disse Frei João, ainda precisamos pedir-lhe mais um favor. — Prompto, si estiver em meu poder...
—Ê muito simples o meu pedido. É de absoluta necessidade que aquillo, sobre que temos de conversar, se passe debaixo do maior segredo, de modo que jamais possa ser divulgado, nem conhecido sinão por nós, que aqui nos achamos. Por isso peço-lhe que mande 18h retirarem-se dos commodos vizinhos os famulos e escravos c mais pessoas da familia e feche as portas de modo que não possüo cscutar-nos.
— É boa ! - exclamou o major com desabrirnento. —Nunca tive e nem tenho segredos em minha casa ! não me dirá para que fim tanto mysterio 'P '
— Teremos acaso o tribunal da Inquisição em nossa casa, senhor padre? perguntou Moraes impertigando-se.
— Não se agastem, meus senhores, —— respondeo o frade com brandura. -— Bem sei que o senhor major não tem segredos em sua vida, e si os tem, elle proprio os ignora ; e fique certo o SI' Moraes, que não venho trazer a sua casa o tribunal da Inquisição. Venho aqui a convite de meu amigo o senhor Conrado a fim de cumprir um dever não só de amizade, como de religião e humanidade. Tenho ernfim com o desígnio de levar a urn feliz c pacifico descnlace um negocio de muito melindre, que pende entre e)le c os senhores. No fundo desse negocio existe um segredo importante, quo talvez seja forçoso revelar, e que é mistér que fique sepultado aqui entre nós, sem que jamais possa echoar além destas quatro paredes, O major e Moraes olharão um para o outro, como quo perguntando o que significavüo as palavras que Frei João acabava de proferir; Adelaide porém, que bem comprehendia o alcance dellas, estremeceo e recolheo sua alma no seio de sua angustia.
— Pois bem ! — disse Moraes fechando bruscamente as portas do salão. — Faça-se a vontade ás vossas senhorias ; quanto a mim, tanto me rende, que as portas estejão fechadas, como abertas. Não tenho segredos, mas não posso prohibir que outros os tenhão. Vejamos agora, —concluio elle sentando-se, — qual é esse tão importante e mysterioso negocio.
— Esse importante e mysterioso negocio, — disse Conrado levantando-se, e com voz firme e pausada, é de summa importancia, e precisa muito da sombra do segredo e do mysterio, principalmente da parte de vossa senhoria. É cousa muito simples ; e para evitar mais perguntas, vou explical-a em poucas palavras. A pouco tempo o senhor Moraes comprou como escrava uma menina por nome Rozaura a um negociante de escravos, para servir de mocamba a uma menina chamada Estella, filha do senhor Moraes e da senhora Dona Adelaide.
— Até ahi tudo é exactissimo, — murmurou Moraes.
—- Ora, sem o saberem, — continuou Conrado, comprarão uma pessoa que nasceo livre, e que por fraude e malicia de uma mulher, que hontem falleceo, foi reduzida á escravidão. Hontem eu procurei o senhor Moraes, e pedi-lhe o resgate dessa menina offerecendo-lhe a quantia que quizesse; mas elle recusou-se obstinadamente. Hontem eu ainda não tinha provas irrecusaveis; hoje, mercê de Deos, as tenho solidas e irrefragaveis, e venho apresental-as e exigir que me seja entregue essa menina, sobre a qual tenho direitos sagrados.
— Direitos sagrados . — exclamou o major, — esta ainda é mais importante. Quaes são elles ?
— Já hontem declarei ao senhor Moraes, e agora o repito : sou pae de Rozaura.
Há! Há! — gargalhou o major com riso aparvalhado. — O senhor é o pae e não poderá fazer-nos o favor de dizer quem era a mãe ?
Conrado olhou para Adelaide, e empallideceo ; ella baixou os olhos e corou. Ambos tivérão commiseração do dito inconsciente do pobre velho.
Não ha necessidade de saber-se quem é a mãe, — redarguio Conrado ; — é um segredo, que desejo guardar, e que só em ultima necessidade revelarei para salvar minha filha da escravidão e da deshonra.
Conrado carregou nesta ultima palavra fitando os olhos em Moraes, que percebendo-lhe o alcance estremeceo como o réo que vê seu crime descoberto.
— Estou prompto, continuou Conrado, — a indemnisal-os da somma por que comprárão a menina, porque sei que o fizerão em boa fé.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.