Por Machado de Assis (1908)
— Bastantes; entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que ela encomendou há dias lá estavam bem dispostas e faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita.
— Vocês falaram-se?
— Não; ela já tinha saído.
— Como sabe você que ela é que foi levar as flores e coroas?
— Adivinha-se pela disposição.
— Sim?
— Decerto, mano. A disposição, o arranjo, a combinação, tudo era de mulher. Há dessas coisas que mão de homem não faz; mão de homem é pesada ou trapalhona, e mais se é de desembargador, como ele. Por exemplo, o nome do marido, o nome próprio só, não todo, estava cercado de perpetuas; isto é coisa que só uma senhora inventa e faz. As outras flores, rosas e papoulas, distribuiam-se com tal simetria que pediu tempo e gosto. Um homem chegava ali, pegava das flores e espalhava-as à toa.
— Admira que você a não visse.
— É que foi muito cedo.
— Mas num dia como o de hoje, tendo tanta coisa que arranjar. Daquela vez que a encontramos era mais tarde.
— Era, mas o dia era outro; hoje havia muita gente, não quis que a vissem, é o que foi.
Mana Rita desenvolveu esta idéia, que achei aceitável; depois falou dos outros jazigos. Como dos jazigos passamos ao ministério e a D. Cesária não me lembra, mas falamos dele e dela com interesse, e a mana com graça. Tinham estado juntas as duas, ontem à tarde; Rita desculpara-se de não ter lá ido no dia 2%. Contou-me parte do que lhe ouviu acerca de duas pessoas que lá estiveram...
— Que lá estiveram?
— Parece que sim.
E entrou a repetir uma série de anedotas e ditos, que ouvi durante uns dez minutos, com atenção. A maledicência não é tão mau costume como parece. Um espírito vadio ou vazio, ou ambas estas coisas acha nela útil emprego. E depois a intenção de mostrar que outros não prestam para nada, se nem sempre é fundada, muita vez o é, e basta que o seja alguma vez para justificar as outras. Disse isto a Rita por palavras graciosas, que ela reprovou e deitou à conta da minha perversidade.
9 de novembro
A marinha interrompeu a paisagem, ou de todo a pôs de lado. Fidélia consentiu em ir pintar um trecho da praia do Flamengo, não sei se com Tristão ou sem ele. Aguiar, que me deu a notícia, limitou-se a dizer que ela já começou a tela com muito gosto.
— Vá lá amanhã, conselheiro, entre uma e duas horas.
11 de novembro
Não fui ontem, fui hoje ver a marinha. Achei Fidélia no jardim, junto da casa, com o pincel e a palheta nas mãos, os olhos no mar e na tela, em pé. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com o seu riso bom e maternal. Viu-me à porta do jardim, e fez um gesto convidando-me a entrar; entrei.
— Venha, disse ela, ande ver a minha artista.
Fidélia pareceu vexada com estas palavras, e estendeu-me a mão, já livre do pincel, dizendo: — Não olhe, não olhe que não presta.
Olhei, prestava. Está ainda em começo, e não será obra-prima; a polidez obrigava-me a achá-la excelente, e disse-lho, com um gesto de admiração; mas, em verdade, presta. O fundo, serra e céu, faz bom efeito; a água creio que terá movimento e boa cor. Faltava Tristão; não vi nem sombra do "filho pintado pela filha". Posto não estranhasse a ausência, lembrou-me insinuá-la. Disse-lhe que podia por na praia a figura da boa amiga, que ali estava a acompanhá-la com os seus dois olhos amigos. Esta ia a dizer alguma coisa, mas Fidélia replicou:
— Não me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colégio pintava flores e paisagens, algum pedaço de mar ou de céu. Se não fosse isso, tirava o retrato de D. Carmo.
D. Carmo confirmou:
— Eu pedi-lhe que pintasse Tristão neste quadro, e ela respondeu-me a mesma coisa.
Aceitei a razão, aceitei uma cadeira vaga que ali estava, e pedi à viúva que continuasse a obra. Queria vê-la pintar. Na Europa tinha assistido ao trabalho de alguns artistas homens; era a primeira vez que uma senhora pintava diante de mim. Fidélia dispôs-se e continuou. Após alguns minutos os três falávamos de várias coisas. A viúva estava em toda a graça do costume, sem nenhum ar petulante que porventura pudesse tirar do exercício; pintava modestamente. Alguma vez interrompia o trabalho, ou para ouvir melhor, ou para dizer mais longo,—e logo tornava ao pincel e à tela.
Ao cabo de alguns minutos cuidava eu de sair, quando vi aparecer à porta da casa nada menos que Tristão. A porta é larga, dá para um saguão, donde se comunica para cima por dois pequenos lanços de degraus, teto baixo. Tristão vinha de concluir a correspondência que vai mandar para o correio, segundo soube logo depois, e tornava ao lugar em que estivera, ao pé das duas. Mandou vir cadeira; a que eu ocupava era a que ele ocupava antes, e não havia outra. Talvez estes pormenores não tenham valor, mas cabem aqui para o fim de acentuar bem que Tristão estava com elas antes da minha chegada, e para lembrar que antes de vir a cadeira me consultou acerca da pintura; respondi o que cumpria.
— Não é? disse ele contente do meu apoio.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Garnier, 1908.