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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Então, Nhô Conrado? e.. como é? . . .

forão as unicas palavras que lhe dirigio.

— Tudo correo á medida de nossos desejos, respondeo o cavalheiro, que logo reconheceo a velha escrava. Amanhã Rozaura está livre.

A preta voou para a casa pulando de contente ; seu humor do dia para a noite mudouse por tal fórma, que a todos causou estranheza; ella, que durante todo o dia estivera distrahida, rabujenta e de poucas graças, apresentava-se agora alegre e folgazona como nunca. Corria, cantava, ria-se á toa, como si fosse uma creança. Tomou Rozaura ao collo, e cobrindo-a de caricias a chamava de sinhásinha com alegria tal, que parecia loucura. Rozaura, Estella e as creanças, que nem por sombra suspeitavão o motivo de tão insolito conten- tamento, rião-se tambem, a não poderem mais, da desenvoltura de Lucinda.

Adelaide que fôra a primeira a quem a preta logo ao chegar tinha communicado as palavras de Conrado, sentio banhar-se-lhe em jubilo o coração ; mas um cruel presentimento pesava-lhe sobre o espirito, e não permittia que o seu jubilo se manifestasse com as mesmas expansões do de Lucinda. Ella comprehendia va namente que se achava na vespera de um acontecimento que tinha de exercer a mais decisiva influencia sobre seu destino futuro, e cheia de inquietação e angustia aguardava o desenlace de uma situação que ella, melhor que ninguem, sabia quanto era grave e melindrosa.

Durante a noite o somno de todos, á excepcão do das creanças, foi agitado, febril e povoado de sonhos. O espirito de Adelaide debatia-se entre o prazer de ver sua filha bela, grande e pura, arrancada á escravidão e restituida aos carinhos de seus progenitores, e o receio cruel de ver perdida aos olhos do esposo e do pae a reputação, de que até alli gozára, e estes pensamentos alumentavão o somno de suas palpebras.

Moraes teve horriveis pezadelos e sonhos pavorosos, em que se lhe apresentava a figura de Conrado torva e inexoravel, disputando-lhe a posse da formosa Rozaura.

Para Lucinda essa noite pareceo uma eternidade ; estava anciosa pelo momento" em que, em vez de dar, teria de pedir a benção á Rozaura.

Esta dormio com a imaginação entre a figura sombria e sinistra de Moraes, ameaçandoa com seus olhares ardentes e carregados, e a benevola e placida imagem que lhe ficára intimamente gravada n'alma, do homem que estivera com ella pela manhã.

CAPITULO XVI

Abate os soberbos

No dia seguinte, Frei João veio almoçar em caza de Conrado, e dahi dirigirão-se ambos para a casa do major Damazio. A missão que ião desempenhar, era grave e melindrosa, e é facil de comprehender a emoção com que ambos e especialmente Conrado transpuzérão a soleira daquella casa, onde por uma fatal necessidade ião talvez levar a vergonha e a desharmonia.

Introduzidos na sala de visitas, forão ahi recebidos pelo major Damazio com fria polidez.

— Desejava saber, — disse o major convidando-os a sentarem-se, a que devo a honra desta visita.

Frei João, que conhecia a velha indisposicão que existia entre o major e Conrado, e reflectindo que debaixo da emoção, que o do-

minava, seu amigo não teria a necessaria presença de espirito para entabolar convenientemente a conversação, resolvco-se a responder por elle.

Não é propriamente uma visita, senhor Major, — disse o frade. O que nos traz hoje á sua casa, é um negocio da mais alta importancia, não só para nós, como para va sa.

Um negocio da mais alta importancia !... exclamou o major, fingindo-se* sorprehendido. — E' commigo l . . . póde ser... Declarem qual é esse negocio, e estou prompto a dar a solucão, que fôr de direito, e couber no possivel.

— Entretanto, senhor major, -— continuou Frei João, — para tratarmos desse negocio é indispensavel que estejão tambem aqui presentes o senhor Moraes e sua senhora, que são nelle altamente interessados, e por isso rogamos-lhe o favor de mandal-os chamar.

— Muito grave é o negocio, mas por isso não seja a duvida, — disse o major tocando a campainha.

Appareceo um escravo, pelo qual mandou chamar a filha c o genro, que após instantes se apresentárão na sala.

Quando Adelaide deo com os olhos em Conrado, apezar de pevenida, empallideceo, foi extraordinaria sua perturbação, e a muito custo com passos vacillantes adiantou-se para tocar a mão, que elle lhe estendia.

Ah ! que tristes e amargas recordações lhe opprimião o coração, e que serias e assustadores apprehensões lhe assaltavão o espirito naquella occasião e em presença daquelle homem!...

Adelaide, apezar dos filhos e de mais quatorze primaveras que tinhão passado sobre sua juventude, ainda conservava no frescor da têz, no brilho dos olhos, e na delicadeza e flexibilidade de seu bem feito corpo quasi intactas todas as graças da primeira mocidade. A matrona de trinta annos em quasi nada differencava de donzella de dezoito.

O tempo apenas lhe tinha tornado as bellas feições um pouco mais pronunciadas, e lhe imprimira na physionomia certa expressão grave e melancolica, que ainda mais lhe realcava os encantos.

(continua...)

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