Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Pois devéras não sabe ainda quem é esse peralta ? — exclamou elle. -— Foi meu capataz ; fui eu quem lhe deu a mão e o tirou do nada; si não fosse eu, ainda hoje elle estaria em Curitiba, domando burros, ou tocando tropa.

Isso sabia eu, respondeo Moraes ; — mas o certo é que hoje é um homem de importancia e bastante rico...

— Rico! ora rico ! . . . não creia nisso, homem. É mais basofia e impostura do que qualquer outra cousa. Anda nos fazendo foscas com suas patarátas de luxo e riqueza só para nos pôr sal na moleira. Si tu soubesses o motivo por que esse biltre nos tem ogerisa, não lhe davas tanta importancia.

— Então elle nos tem ogerisa?... dessa não sabia eu.

— Tem, e muita, meu rapaz, e eu já te conto porque. Has de acreditar que aquelle pé de poeira, sendo meu capatáz, teve o descoco de apaixonar-se pela nossa Adelaide a ponto de ter o desaforo de pedil-a em casamento a mim, a mim mesmo, que aqui estou? I

— Devéras !? ...

— Olé sim, senhor' e com uma petulancia e impertinencia de espantar. O que vale é que a menina nunca lhe deo confianças, e eu arrumei-lhe com um não redondo á cara.

— Por isso ! por isso l . . . exclamou o genro com alegria aparvalhada.

— Mas o bicho teimou assim mesmo, continuou o sogro, — e foi-me preciso enxotal-o pela porta afóra para me ver livre delle.

— Por isso ! por isso ! — exclamou ainda o genro. — Por isso é que elle vem com tamanha arrogancia exigir o que não lhe pertence, inventando embustes e patranhas para me embaçar...

— Queres saber uma cousa ? — interrompeo o sogro. — Quer me parecer que esse pelintra já conhecia Rozaura, e desejava possuil-a, de certo para seu serralho... o maganão gosta de boas fazendas, e como se acha apatacado, co— biçou a menina, e faz o possivel para obtel-a. — Coitado disso está elle bem livre.

— Mas escuta ainda, basbaque. Não tens reparado que Rozaura tem assim certas parecenças com Adelaide, quando era mocinha?

— Oh ! si tem — murmurou o genro quasi fallando comsigo mesmo. -— Pensei que só eu tinha reparado nisso.

Pois é isso talvez que lhe despertou agora outra vez a paixão antiga, e. . . comprehendes D resto, para o bom entendedor um pingo é lettra. Mas como lhe tomaste a dianteira comprando a rapariga, que elle cobiçava lá para seus fins, damnou com o caso e agora vem com essas patranhas procurar arrancal-a de nossas mãos.

Ah! patife! — bradou o genro encris pando os punhos. Volta cá outra vez a buscar lã, e verás como sahirás tosqueadinho !

Moraes achou todo a fundamento nas conjccturas do major, que vierão dar bases mais solidas ás suas estolidas supposições, e em consequencia suas inquietações se transformárão no mais entranhado rancor contra Conrado. Lembrando-se do ar meigo e affectuoso, com que Rozaura com seus grandes olhos limpidos e ternos havia contemplado o moço durante todo o tempo que estivera em sua presença, o ciume atracou-lhe ao coração as garras ferozes ; sua paixão insensata pela innocente menina tomou um caracter sombrio de exaltação e ferocidade, que quasi tocava ao delirio. Andava de aposento em aposento procurando Rozaura, e quando a encontrava, a envolvia em um olhar torvo e inflammado, que não se poderia dizer si era de colera, ou desse ardente sensualismo que lhe queimava o sangue. Rozaura fugia, e correndo espavorida procurava abrigo, ora junto de Adelaide, ora junto de Lucinda.

O máo humor de Moraes se fez sentir nesse dia em toda a casa. Na loja o pequeno caixeiro, que o ajudava, tendo commettido uma insi- gnificante falta, Moraes investio sobre elle de covado em punho com tal furia, que o obrigou a saltar o balcão e correr pela porta afóra para nãe mais voltar. A' mesa achou o jantar pessimo, e a pobre Lucinda teve de ouvir os mais horriveis repellões.

Emfim, nesse dia tudo em casa do major andou inquieto c agitado. Lucinda, preoccupada e anciosa pelo resultado das passadas que Conrado ia dar para conseguir a liberdade de Rozaura, não sabia o que fazia, e esperava com impaciencia a noite para pôr termo ás suas incertezas.

Adelaide, apezar do prazer intimo que sentia vendo perto de si a filha do seu primeiro amor tão linda e tão amavel, achava-se desasocegada e apprehensiva, receando com bastante fundamento que o reconhecimento da liberdade de Rozaura não se pudesse realisar sem se romper talvez para sempre a confiança e harmonia que até alli tinha reinado no seio de sua familia»

A propria Estella, apezar de sua tenra edade, vendo que Rozaura, a quem já adorava, em vez de brincar com ella na fórma do costume, andava resabiada pelos cantos da casa com ar espavorido e consternado, sem saber porque achava-se tambem triste e amuada.

Sómente as creanças mais tenras brincavão, pião, saltavão com a descuidosa alegria da puericia.

Quando desceo a noite, Lucinda achou pretexto para sahir, e foi direito á casa de Conrado. Este ainda não tinha chegado. Lucinda o esperou á porta por espaço de quasi uma hora. Triste e contrariada, já vinha de volta para a casa, quando encontrou em caminho dois cavalheiros, em um dos quaes reconheceo Conrado. Era tal a sua anciedade que, esquecendo-se de sua condição, abalançou-se a travar da redea do animal no meio da rua, suspender-lhe a marcha, e dirigir ao elegante cavalheiro uma pergunta.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3435363738...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →