Por Machado de Assis (1908)
— Que eu ouvisse, nada. Passei lá uma boa meia hora de conversa, e o principal assunto foi a visita de Tristão a Santa-Pia, que ele achou interessante como documento de costumes. Gostou de ver a varanda, a senzala antiga, a cisterna, a plantação, o sino. Chegou a desenhar algumas coisas. Fidélia ouvia tudo com muito interesse, e perguntava também, e ele lhe respondia.
— Ela vai sempre vender a fazenda?
— Não ouvi falar disso.
— Vai, vai vendê-la. Ao menos, era plano há tempos, e o desembargador lá ficou para cuidar de apontamentos. Ele quando vem?
— Ouvi dizer que daqui a oito ou sete dias; duas semanas, quando muito.
— Fidélia jantou com eles, naturalmente?
— Não. Quando eu saí às quatro horas, Carmo pediu-me que ficasse. Tendo de fazer outra visita, recusei. Fidélia disse então que aproveitava a minha companhia. A outra instou com ela que jantasse, mas a amiga alegou que era esperada em casa e não podia; voltaria hoje ou amanhã. Carmo e Tristão acompanharam-nos à porta do jardim. Eu e Fidélia viemos andando, e, ao chegar à esquina da Rua da Princesa, não me lembrou logo voltar a cabeça. Fidélia lembrou-se, eu imitei-a, e os dois parados na calçada diziam-nos adeus com a mão.
Rita contou-me que foi até Botafogo com a viúva Noronha. De caminho falaram pouco, ou antes Fidélia é que não falou muito; ia preocupada. Apesar disso, mostrou-se o que sempre foi, afável, quase meiga; pareceu interessar-se pela vida de Rita, confessou saudades, sentia que se não vissem mais vezes, e pediu desculpa de não ir, há muito, a Andaraí. Se as palavras eram poucas, não eram secas, ao contrário.
Naturalmente falaram de D. Carmo e de Aguiar; também disseram alguma coisa de Tristão, concordaram que parecia amigo dos padrinhos.
Perto da casa do tio, Fidélia entrou em uma fábrica de flores para encomendar as que levará no dia 2 de novembro à sepultura do marido. Rita, que aliás não pensara ainda nisso, deixou de encomendar as suas; fá-lo-á quando o dia dos mortos estiver mais próximo, e trá-las-á consigo da cidade. Referiu-me as encomendas da viúva, a escolha, as exigências, o número de grinaldas, três, e a composição das cores que teriam; não quis deixar nada ao fabricante.
Ouvi todas essas minúcias e ainda outras com interesse. Sempre me sucedeu apreciar a maneira por que os caracteres se exprimem e se compõem, e muita vez não me desgosta 0 arranjo dos próprios fatos. Gosto de ver e antever, e também de concluir. Esta Fidélia foge a alguma coisa, se não foge a si mesma. Querendo dizer isto a Rita, usei do conselho antigo, dei sete voltas à língua, primeiro que falasse, e não falei nada; a mana podia entornar o caldo. Também pode ser que me engane.
Não escrevo o resto. Quando ela acabou e contou o regresso, perguntei-lhe por que não viera ontem jantar comigo. Respondeu-me que, tendo de vir hoje, não queria ser convidada de véspera. Ri-me e fomos para a mesa, que estava posta. Ao centro um ramo de flores, idéia dela, que o mandou trazer às escondidas, e, como eu lhe perguntasse se eram das que Fidélia encomendara, riu-se também. Agradeci-lhe a lembrança, exprimindo-lhe todo o meu afeto, comemos alegremente, recordando anedotas da infância e da família
18 de outubro
Ao levantar da cama, a primeira idéia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, à meia-noite: "Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se não foge a si mesma".
22 de outubro
Fidélia não voltou ao Flamengo, apesar da promessa que D. Carmo lhe fez fazer. D. Carmo fora achá-la a pintar; Fidélia lembrara-se de haver pintado em menina, e começara um trecho do jardim da própria casa. Prometeu voltar ao Flamengo no dia seguinte, e não foi.
Tristão, ao saber do motivo da ausência, advertiu que a viúva Noronha podia ter em pintura talento igual ao da música, e não sei se lho chamou grande; não mo disse. Que ele mesmo é que me referiu o que ai fica, e mais o que vou incluir nesta página antes que me esqueça. Tinha vindo almoçar comigo.
— Venho almoçar, conselheiro; voltando agora do meu passeio, lembrou-me subir e perguntar por Vossa Excelência. O seu criado disse-me que ia almoçar; ouso pedir-lhe um lugar à mesa.
— Um, dois, três, doutor, acudi eu, quantos a sua amizade pedir para o seu apetite.
Deu-me noticias da gente Aguiar; estão bons; falou-me dos seus e das cartas políticas de Lisboa. Já as leu ao padrinho e à madrinha. Uma só delas alude ao desejo de o ver tornar breve: "esperamos que não se demorará muito no Rio de Janeiro".
— E demora-se muito? perguntei-lhe.
— Não sei, mas é natural que pouco; a política chama-me.
Ao almoço é que Tristão me contou a história da tela que a viúva está pintando, da promessa que fez à amiga e não cumpriu. E disse-me depois:
— Se ela sabe pintar pareceu-me que, melhor quadro que o seu jardim, é um trecho marinho do Flamengo, por exemplo, com a serra ao longe, a entrada da barra, alguma das ilhas, uma lancha etc. A madrinha concordou logo, e foi propor à amiga a troca do quadro. Agradou-lhe este outro, prometeu vir ao Flamengo desenhá-lo, e não veio.
— É que está namorada do seu jardim. Geralmente os artistas sentem melhor as próprias imaginações. Ela ainda saberá pintar, como diz que pintou em menina?
— A madrinha viu-lhe apenas algumas linhas de desenho, e pareceram-lhe boas.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Garnier, 1908.