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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Pois saiba que concebeo por ella a mais louca e infrene paixão, e a cada instante emprega todos os meios e artificios para seduzil-a ou coagil-a, de modo que a infeliz menina a qualquer momento póde ser victima da furia libidinosa de seu pretendido senhor. E é bem de crer que quando elle perceber que a preza está prestes a escapar-lhe das garras, redobrará de esforços para levar a effeito seus execraveis designios. Eis ahi porque não posso resignar me ás delongas dos meios judiciaes, sempre morosos e complicados, mesmo nas cousas mais simplices. Estou quasi certo, que tanto o velho, como o genro hão de recalcitrar com a maior obstinação, e cerrando os olhos á evidencia, hão de oppÔr todos os embaraços que estiverem a seu alcance, a fim de obstar a liberdade e a entrega de Rozaura. Creio por isso que não terei remedio sinãD valer-me do meio prompto e decisivo, com que a Providencia armou-me o braço.

— Tens razão de sobejo, meu caro amigo ; replicou o frade ; não sabia que as cousas se achavão em tão melindrosa conjunctura. Não obstante, antes de lançarmos mão desse recurso extremo, convem empregar todos os meios para conseguir a liberdade e entrega da menina sem quebra da honra de Adelaide, sem ir levar a vergonha e a discordia ao seio de uma familia considerada.

De minha parte, — retorquio Conrado, — bem estimaria que para seu castigo o major viesse ao conhecimento de todo o occorrido, pois é elle o primeiro, o unico causador de todos estes transtornos ; mas a lembrança de que Adelaide, victima dos caprichos de um pae estupido e brutal, tambem irá participar do mesmo castigo, me contem em meus legitimos desejos de vingança.

— Nenhuma vingança é legitima, meu amigo.

Está bem ; mas isto não seria propriamente uma vingança, porem sim um castigo, que Deus lhe infligia por minhas mãos. Esteja porém tranquillo a esse respeito ; não empregarei a arma terrivel de que disponho, sinão em ultimo caso ; mas tenho quasi certeza de que me forçarão a empregal-a ; ver-me-hei na cruel necessidade de invocar o testemunho da propria Adelaide perante seu pae e seu marido.

— Talvez não ; o documento que levamos, não póde ser contestado.

— Elle são capazes de contestar a luz ao sol. Veremos amanhã. A's dez horas iremos á casa do major Damazio. Poderá fazer-me ainda este favor

— Com muito prazer ; creio até que a minha presença ahi não é sómente util, torna-se mesmo necessaria, pois creia que não socego, emquanto não vir este negocio terminado com o mais feliz resultado. Eu lá estarei para coadjuval-o quanto em mim couber, afim de concluil-o sem escandalo, e do modo mais pacifico que fôr possivel. Quando tivermos esgottado todos os meios brandos, eu darei um Signal, para que o meu amigo lance mão do extremo recurso. este ponto da conversação os dous amigos entravão na cidade. Acabavão de soar nove horas. Conrado apeou-se em casa, e mandou seu pagem acompanhar Frei João ao Convento e trazer a cavalgadura,

CAPITULO XV

O sogro e o genro.

Esse dia primeiro de Novembro de 186.. . tão cheio de emoções profundas e interessantes peripecias na vida de Conrado, não se escoou tambem tranquillamente em casa do major Damazio. Desde que Conrado ahi apparecera, exigindo do senhor Moraes a libertação e a entrega de Rozaura, allegando que ella nascera livre, e declarando que era sua filha, o marido de Adelaide perdeo não sómente toda a tranquillidade de seu espirito, como tambem algum tanto de sua razão. Por mais que se esforçasse por dar pouca importancia ás declarações do rico capitalista, ellas não deixavão de fazer sobre sua alma a mais esmagadora impressão.

O genro do major conhecia a Conrado pela bella e honrosa reputação, de que gozava não só na capital, como em toda a provincia do S. Paulo. Sabia muito bem que, além de rico, era homem honesto e honrado, incapaz de aleives e manejos torpes.

— Este homem terá de certo algum motivo particular para querer pregar-me alguma peça, murmurava comsigo. — Já fui estudante, e elle sempre foi futrica ; talvez eu lhe tivesse arranjado alguma caçoada, de que não me lembro, e para tirar desforra vem-me agora com esta... Mas perde seu tempo ; não é a mim que ha de fazer engulir aráras ; . . . . vá com sua caçoada para mais longe. De certo o maganão sabe que gosto de Rozaura, e quer me fazer medo...

Com estas e outras estolidas reflexões, que o seu mesquinho espirito lhe suggeria, Moraes procurava dissipar a terrivel impressão que lhe causára a visita de Conrado; mas era debalde; a figura grave e severa de Conrado, suas palavras firmes e concisas, e o estranho motivo de sua visita erão como visões sinistras, que de continuo lhe apavoravão a imaginação.

Embaraçado com mil conjecturas, que lhe escaldavão o cerebro, não poude ter-se que não fosse communicar ao sogro tudo quanto havia occorrido entre elle e Conrado, esperando que aquelle dissipasse a inquietação, que o torturava. O velho, que em razão dos janeiros e das molestias já começava a tresler seu tanto ou quanto, soltou uma estrondosa gargalhada.

(continua...)

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