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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

A tempestade portanto, apezar de avizinharse medonha e ameaçadora, foi saudada com gritos de alegria pelo povo, que se achava reunido em torno da cabana de Nha-Tuca. O vento zunia com furia diabolica, os coriscos fuzilavão de instante a instante, os trovões estouravão cada vez com mais força, e a chuva começava a despenhar-se em violentas e copiosas rajadas.

Conrado, Frei João e toda aquella gente, que em numero de trinta a quarenta pessoas alli se achava desde pela manhã, virão-se forgados a recolherem-se atropeladamente á casa de francez. Os commodos erão bastantemente acanhados para tanta gente ; mas mesmo assim elles em pé, apinhados e acotovelando-se, em quanto lá por fóra a tempestade desabava roncando furiosa, fallavão em voz alta com a maior franqueza e desembaraço, formando outra tempestade de horripilantes pragas e maldições.

Aquella mulher era mesmo o diabo que malsinava esta terra; — gritava um. — Foi ella morrer, e a chuva descer. Bemdita morte e bemdita chuva!

— E é mesmo assim, — replicava outro;

aquella maldita trazia e demonio na alma, e era preciso um padre sancto para mandar o cão tinhoso com a velha e tudo estourar nas profundas dos infernos para a gente ficar livre da secca.

— Abençoado seja o Sr Frei João de Sta Clara ! A imaginação do povo é sempre propensa á crendices e superstições, e aquelle phenomeno, coincidindo com a morte da desgraçada velha, fez com que acreditassem que ella provocando com suas maldades as iras do céo era a unica causadora do flagello, com que Deos affligia aquella terra, e portanto continuavão a maldizer na morte a pobre mulher, a quem na vida já tinhão votado ao desemparo e á execração. Assim, a alma de Nha-Tuca, para onde quer que tivesse de dirigir-se, retirava—se deste mundo entre os roncos da tempestade, e as apupadas e maldições do povo.

O vento impetuoso tinha dilacerado e atirado pelos o tecto de capim do rancho, deixando o cadaver da misera velha exposto a todo o vigor do temporal.

— Si até o céo se zanga contra esta mulher, nós é que devemos ter piedade della ? . . . clamava o povo, e já se dispunha a ir, logo que amainasse a tormenta, atacar fogo ao rancho,

a fim de que ardesse completamente com o cadaver da velha e tudo que lhe pertencia.

— Delia, — dizião elles, — não devem ficar sobre a terra nem mesmo as cinzas. Pouco nos custa accender um grande brazeiro. que seccará a chuva, e amanhã esse maldito rancho e sua dona não serão mais que um punhado de cinza, que o vento levará pelos ares.

E terião levado a effeito sua intenção, si Conrado e Frei João não os tivessem estorvado, oppondo-se com energia á tão cruel profanação.

Quando o temporal cessou de todo, a noite vinha descendo sobre a terra. Aquella chuva, que durou cerca de uma hora, a todos agradou, menos a Conrado, a quem viéra tirar a possibilidade de ir, como pretendia, reclamar naquelle mesmo dia a entrega de sua Rozaura. Sua impaciencia era legitima ; quizéra que nem mais uma só noite sua filha dormisse debaixo do tecto do major ; informado por Lucinda, já era sabedor dos continuos e graves perigos a que alli se achava exposta a pureza e pudicicia da menina. Mas forçoso lhe foi differir para o dia seguinte a satisfacção do seu intento ; posto que tivesse cessado a chuva, o céo se conservava nublado, e a noite ia-se tornando escurissima; isto, unido ao máo estado dos caminhos escavados pelas enchurradas, retardava consideravelmente a marcha dos animaes, e não poderião chegar á cidade sinão com noite muito adiantada.

A despeito da escuridão e das difficuldades do caminho, Conrado e Frei João de volta para a cidade, não deixárão de conversar largamente combinando entre si os meios que deverião empregar, para que sem escandalo e sem lezão da honra e da reputação de Adelaide, Rozaura fosse promptamente reconhecida como livre de nascimento, e entregue a seu pae, Frei João aconselhava a seu amigo que procurasse ser o mais humano e generoso que fosse possivel, para com o pae e o marido de Adelaide, os quaes, si fosse possivel, deveriüo ficar em perpetua ignorancia da existencia dessa neta e dessa enteada. Ponderava-lhe mais que, si es recusassem entregal-a por meios amigaveis, restava ainda o recurso dos meios judi ciaes, pelos quaes seriáo sem remissão forçados a reconhecer a liberdade da menina e largar mão defla.

É porque o meu amigo não conhece de que tempera é aquelle rnajor Damazio, — respondia Conrado. — É o homem mais teimoso, mais emperrado que o sol cobre. Quando encabéça para um lado, não ha força humana que o possa desviar. É como a anta disparada pelo mato, esbarrando furiosamente em quanto obstaculo encontra, e levando tudo de vencida.

Até que cahe em algum poço, e ahi, querendo fazer face ao inimigo, é de ordinario vencida e morta.

— É verdade, mas depois de muito acuada e á custa de renhido combate. Mas o meu amigo ignora ainda as perversas e sinistras intenções que o marido de Adelaide tem sobre a minha innocente Rozaura.

— Ignoro certamente.

(continua...)

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