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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Pois bem , faça em primeiro lugar conscienciosamente e com toda a sinceridade a declaração desse facto com todas as circumstancias, de que se lembrar. Depois a ouvirei em confissão particular e secreta.

— E verdade, senhor padre; foi um crime abominavel que commetti... Graças a Deus, que ainda me dá tempo de remedial-o nesta hora derradeira.

A velha em seguida fez com voz debil e arrastada a narração minuciosa da fraudulente manobra, que já conhecemos, e por meio da qual reduzira á escravidão a filha de Conrado e Adelaide. Frei João redigio e dictou, e o francez escreveo a seguinte declaração :

« Eu Gertudes Maria dos Anjos, natural de Mogimirim, provincia de S. Paulo, achandome em artigo de morte e prestes a entregar minha alma ao Creador, em confissão publica, que de viva voz e de livre vontade faço perante o Sr Padre Frei João de Sancta Clara, e mais testemunhas, para desencargo de minha consciencia, salvação de minha alma, e reparação do mal causado, declaro que na noite de dezoito para dezenove de novembro de mil e oitocentos e quarenta. .. , uma escrava minha deo á luz uma menina, a qual falleceo logo depois de nascida.

Nessa mesma manhã, ao romper do dia, encontrei exposta em minha porta uma menina recem-nascida, qne substitui á creança morta, fazendo-a passar pela filha da escrava, e dizendo que a engeitada é que tinha morrido. Esta engeitada foi baptisada na Egreja de Sancta Iphigenia como escrava minha com o nome de Rozaura, e como tal foi conservada em meu poder até a edade de dez annos, sendo então vendida por mim a um senhor Bazilio, morador na rua do Tabatinguéra.

fonoro o que depois foi feito delia. S. Paulo, 2 de novembro de 184...

Esta especie de termo, declaração, depoimento, ou como melhor se possa chamar, foi lido á enferma, que o julgou conforme ao que tinha declarado, e em acto continuo assignado por Frei João e as outras testemunhas. Frei João, para dar maior força e authencidade a aquelle importante documento antes de assianar-se, escreveo o seguinte juramento :

« pelo sagrado habito que visto, da Ordem dos Carmelitas, juro que a presente declaração foi feita perante mim, tal qual se acha es- cripta, em acto de confissão publica in articulis mortis.

Concluido este acto, retirárão—se todos, deixando sómente o frade para ouvir a penitente em confissão auricular.

É escusado dizer que o facto que constituio a confissão publica da velha, logo circulou de bocca em hocca entre os caipiras que cercavão o rancho, e foi discutido, commen- tado, e apreciado de mil maneiras. Sua curiosidade já em parte ficara satisfeita; já sabião qual o nobre e generoso motivo, pelo qual o cavalheiro, que alli se apresentára pela manhã, havia mostrado tanto interesse e solicitude

pela velha, e feito tantos esforços para que não morresse sem confissão. Não cessavão de elogial-o tanto, quanto maldizião a desditosa velha. Mas restava ainda um mysterio, que não podião penetrar, e que lhes causava no espirito o mais incommodo prurido. Darião tudo para saberem que laço mysterioso havia entre o cavalheiro e a menina baptisada como escrava, que lhe merecia tantos cuidados e sacrificios. De conjectura em conjectura alguns não deixárão de tocar certo no alvo; mas erão meras supposições; a duvida e o mysterio persistião.

Com grande desgosto de Conrado, que pretendia ir nessa mesma tarde arrancar sua filha as mãos de seus suppostos senhores, a confissão da velha teve de durar uma boa hora, tanta era a carga de peccados de que aquella alma trazia carregada a consciencia, e que lhe era mistér alijar á borda do tumulo para poder subir ao céo.

De profundis exclamam, — veio murmurando Frei João ao sahir do rancho da moribunda.

— Morreo? — perguntou Conrado, que o esperava á porta.

— Sim ; morreo. Aquella pobre alma parece que por um supremo esforço se mantinha preza ao corpo para descarregar o peso de suas enormes culpas. Foi recebendo a absolvição e expirando immediatamentc.

Deus se compadeça de sua alma, — disse Conrado.

Ámen, — respondeo Frei João.

Em quanto Nha*Tuca se confessava, o sol proximo ao occaso já quasi tocava na serra da Cantareira, não entre vapores diafohanos e nuvensinhas douradas, mas entre negros e carre gados bulcões de orlas côr de cobre, que a cada instante se accendião, e apagavão ao sulcar de mil coriscos. Era a tempestade, que se avizinhava em seu carro impetuoso, impellido pelo sopro dos furações.

Estava-sejá nos primeiros dias de novembro, e nem uma gotta de chuva tinha ainda cahido do céo sobre a terra ardente e sequiosa. A secca com seu sinistro cortejo de calamidades ameaçava a bella provincia de S. Paulo, pouco affeita a ser castigada com semelhante flagello. Ja se tinham feito preces publicasi implorando a misericordia divina ; já a milagrosa Imagem de Na Sra da Penha, que tem a sua capella a duas leguas de distancia da cidade de S. Paulo, tinha sido conduzida em procissão solemne desde lá até a Egreja da Sé com grande devoção e actos de penitencia.

(continua...)

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