Por Bernardo Guimarães (1883)
Isto nos é indispensavel, porque a parte publica da confissão da velha versa sómente sobre um facto, que já conhecemos, a substituição de uma creança escrava e morta por outra viva e livre, donde resultou a escravisação de Rozaura. O resto porém passa-se debaixo do mysterioso sigyllo da confissão auricular, e como não somos sacerdote, e nem foi em nosso peito que ella depositou os segredos de sua abominavel e execranda vida, segredos que depois forão conhecidos e propalados a todos que tivessem ouvidos para ouvil-os, cremos que não será peccado da nossa parte divulgal-os agora.
Alguma cousa já dissemos acerca do caracter e dos costumes de Nha-Tuca; mas apenas levantámos um canto do véo que encobre as torpezas e atrocidades, que constituirão a occupação unica de sua longa vida.
Nha-Tuca não era natural da cidade de S. Paulo. Nascera em Mugimirim em mil setecentos e setenta, pouco mais ou menos. Portanto já não podia descer ao tumulo com menos de setenta e muitos a oitenta annos. Foi sómente depois que recebeo a herança de seu fallecido irmão, que tomou a resolução de mudar sua residencia para a capital da provincia, então capitania.
Essa herança, como já sabemos, na sua melhor parte consistia em uma boa porção de creoulas e mulatas, todas novas e bonitas, vigorosas e sadias.
Parece que por desgraça sua o irmão de Nha-Tuca tinha sangue turco nas veias; tinha pendor immenso para o serralho I nascera para ser um sultão, ou pelo menos um vizir. Por isso toda a fortuna que havia herdado ou adquirido á custa de algum trabalho, ia consumindo toda em colleccionar essa formosa tribu, que por força do destino teve de transmittir á sua irmã unica, sem mesmo ter o trabalho de fazer testamento. A sensualidade de um servio admiravelmente á avareza da outra.
A irmã, que não podia tirar o mesmo proveito de tão preciosa deixa, excogitou outro meio de fazel-a render o maior lucro possivel.
O vicio capital desta mulher era, como sabemos, a avareza, peccado mortal incomprehensivel para muitos e só comprehendido por aquelles que lhe sentem as delicias.
Obedecendo a esta sua tendencia innata, Nha-Tuca concebeo e realisou o projecto de fundar com as raparigas, que herdára, uma especie de prostibulo ou alcouce, dirigido por ella em pessoa, do qual esperava auferir grandes vantagens pecuniarias. Mas Mugimirim era então uma pobre Villa, talvéz arraial ainda, e não podia offerecer campo assáz vasto para suas altas especulações. Portanto Nha-Tuca tomou o accôrdo de vender tudo quanto possuia em sua terra natal, e de emigrar com seu formoso rebanho para a capital da provincia, onde poderia desenvolver em mais larga escala sua lucrativa industria.
Em S. Paulo comprou fóra da cidade o predio em que pela primera vez a encontrámos, e onde estabeleceo com excellentes commodos e por preços modicos venda, rancho e hospedaria.
Á freguezia, logo desde principio, tornou-se cada vez mais numerosa. O serviço da hospedaria era feito com grande esméro e aceio pelas seis ou oito escravas, jovens c vistosas, e sempre trajadas com certo luxo provocador, que attrahia a attenção dos sybaritas, Ellas, habilmente industriadas pela abelha mestra, cercavão os viandantes de mil cuidados e attenções, a que não era possivel resistir. Erão outras tantas Hebes, offertando o Jove a taça de ambrosia.
Muita vez acontecia que o viajor, esquecendo-se de interesses que reclamavão a prompta continuação de sua viagem, encantado pela deliciosa hospedagem, que alli encontrava, falhava quasi sem querer um, dois, tres e mais dias; tanta era a obsequiosidade, tantos os carinhos de que se via rodeado. Em todo caso, quando o viandante não falhava, lá ficava, além da despeza ordinaria, uma grossa somma, ou uma rica joia, que as fieis servidoras nunca deixavão de entregar á senhora. Nem lhes era mistér guardar cousa alguma. Nada lhes faltava, nem quanto á alimento nem quanto á vestuario. Gozavão de liberdade quasi absoluta, e comprehendendo o reciproco interesse que as ligava á sua senhora, vivião com ella em pereito pé de intelligencia e harmonia. A propria dona da casa, apezar de velha e adoentada, trabalhava tanto ou mais do que as escravas, que tafulonas e peraltas só se occupavão em servicos delicados e em fazer sala aos hospedes, emquanto a senhora era apenas ajudada por uma preta velha no serviço grosseiro da casa. Tudo isso porém se fazia por gosto da senhora, que o dava por muito bem empregado.
E não era só com os passageiros, que se especulava. A rapaziada da vizinhança tambern lá acudia attrahida pela fama da boa bebida, que lá havia, e das bonitas raparigas, que servião de caixeiras e de serventes na hospedaria. Mais de um filho de caipira bem arranjado alli deixou, sem saber como, os rendimentos de todo o bom negocio que havia feito na cidade, e arruinou seu pae com as repetidas invernadas na taberna de Nha-Tuca.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.