Por Machado de Assis (1876)
CAVALCANTE — Bem. Dei um belo passeio; fui até o Vaticano e vi o papa. (Magalhães olha espantado). Não te assustes, não estou doido. Eis o que foi: o meu cavalo ia para um lado e o meu espírito para o outro. Eu pensava em fazer-me frade; então todas as minhas idéias vestiram-se de burel2, e entrei a ver sobrepelizes3 e tochas; enfim, cheguei a Roma, apresentei-me à porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade apareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei e vi que o meu corpo seguira atrás do sonho, e que eu ia quase caindo.
MAGALHÃES — Foi então que a nossa prima Carlota deu contigo ao longe.
CAVALCANTE — Também eu a vi, e, de vexado, piquei o cavalo.
MAGALHÃES — Mas então, ainda não perdeste esta idéia de ser frade?
CAVALCANTE — Não.
MAGALHÃES — Que paixão romanesca!
CAVALCANTE — Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com suas perfídias e tempestades. Quero achar um abrigo contra elas; esse abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cela, e buscarei esquecer diante do altar...
MAGALHÃES — Olha que vais cair do cavalo!
CAVALCANTE — Não te rias, meu amigo!
MAGALHÃES — Não; quero só acordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses mais em semelhante moça. Há no mundo milhares e milhares de moças iguais à bela Dolores.
CAVALCANTE — Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um convento. Mas é engano; há só uma, e basta.
MAGALHÃES — Bem; não há remédio senão entregar-te à minha tia.
CAVALCANTE — À tua tia?
MAGALHÃES — Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral, — e adivinhou, — e fala de curar-te. Não sei se sabes que ela vive na persuasão de que cura todas as enfermidades morais.
CAVALCANTE — Oh! eu sou incurável!
MAGALHÃES — Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se te não curar, dar-te-á alguma distração, e é o que eu quero. (Abre a charuteira, que está vazia) Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos.
(Sai; Cavalcante pega um livro e senta-se).
2 Hábito de frade, feito de pano grosseiro.
3 Veste branca, com ou sem rendas, que os padres usam sobre o hábito.
Cena V
Cavalcante, d. Carlota, aparecendo ao fundo
D. CARLOTA — Primo... (Vendo Cavalcante) Ah! perdão!
CAVALCANTE (erguendo-se) — Perdão de quê?
D. CARLOTA — Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras da prima Adelaide; está aqui...
CAVALCANTE — A senhora viu-me passar a cavalo, há uma hora, numa posição incômoda e inexplicável.
D. CARLOTA — Perdão, mas...
CAVALCANTE — Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéia séria, um negócio grave.
D. CARLOTA — Creio.
CAVALCANTE — Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distração que me deu aquela postura inexplicável. Na minha família quase todos são distraídos. Um dos meus tios morreu na Guerra do Paraguai, por coisa de uma distração; era capitão de engenharia...
D. CARLOTA — O! não me fale!
CAVALCANTE — Por quê não pode tê-lo conhecido.
D. CARLOTA — Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro à minha prima.
CAVALCANTE — Peço-lhe perdão, mas...
D. CARLOTA — Passe bem. (Vai até a porta).
CAVALCANTE — Mas, eu desejava saber...
D. CARLOTA — Não, não, perdoe-me. (Sai).
Cena VI
Cavalcante, só
CAVALCANTE — Não compreendo; não sei se a ofendi. Falei no tio João Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer...
Cena VII
Cavalcante, d. Leocádia
D. LEOCÁDIA, ao fundo, à parte — Está pensando (Desce). Bom-dia, dr. Cavalcante.
CAVALCANTE — Como passou, minha senhora?
D. LEOCÁDIA — Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?
CAVALCANTE — Foi buscar charutos, já volta.
D. LEOCÁDIA — Os senhores são muito amigos.
CAVALCANTE — Somos como dois irmãos.
D. LEOCÁDIA — Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.
CAVALCANTE — Disse-lhe ontem algumas tolices, não?
D. LEOCÁDIA — Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.
CAVALCANTE — Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.
D. LEOCÁDIA, pegando-lhe as mãos — Olhe bem para mim. (Pausa) Suspire. (Cavalcante suspira). O senhor está doente; não negue que está doente, — moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos.)
CAVALCANTE — Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandisíssimo desgosto...
D. LEOCÁDIA — Jogo de praça?
CAVALCANTE — Não, senhora.
D. LEOCÁDIA — Ambições políticas malogradas.
CAVALCANTE — Não conheço política.
D. LEOCÁDIA — Algum livro mal recebido pela imprensa?
CAVALCANTE — Só escrevo cartas particulares.
D. LEOCÁDIA — Não atino. Diga francamente; eu sou médico de enfermidades morais, e posso curá-lo. Ao médico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?...
CAVALCANTE, suspirando — Trata-se justamente de amores.
D. LEOCÁDIA — Paixão grande?
CAVALCANTE — Oh! imensa!
D. LEOCÁDIA — Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita?
CAVALCANTE — Como um anjo!
D. LEOCÁDIA — O coração também era de anjo?
CAVALCANTE — Pode ser, mas de anjo mau.
D. LEOCÁDIA — Uma ingrata...
CAVALCANTE — Uma perversa!
D. LEOCÁDIA — Diabólica...
CAVALCANTE — Sem entranhas!
D. LEOCÁDIA — Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas não acha casamento.
CAVALCANTE — Já achou!
D. LEOCÁDIA — Já?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.