Por Machado de Assis (1862)
— Compreendo o motivo; os rapazes da corte — as delicias de Cápua, como diz o vigário Tosta — eis a causa.
Vicente caía das nuvens com todas estas notícias que lhe dava o capitão, ao passo que o capitão ia desenrolando-se sem intenção de afrontar nem censurar o rapaz... O capitão era um bom velho; compreendia a mocidade, e desculpava-lhe tudo. — Ora bem, continuou ele, quem fez tanto por ti, entende que é chegado o momento de fazer-te feliz de outra maneira.
— Qual maneira? perguntou Vicente curioso e ao mesmo tempo assustado com o gênero de felicidade que lhe anunciava o tio.
— De uma maneira tão velha como Adão e Eva, o casamento. Vicente empalideceu; esperava tudo, menos o casamento. E que casamento seria? O velho não disse mais nada; Vicente gastou alguns minutos em formular uma resposta, que seria ao mesmo tempo une fin de non recevoir.
— Que achas? respondeu finalmente o velho.
— Acho, respondeu resolutamente o rapaz, que meu tio é em extremo bondoso comigo em me propor o casamento para minha felicidade. Com efeito, parece que o casamento é o remate natural da vida, e por isso aceito com braços abertos a sua idéia. O velho sorria de contentamento, e ia já abraçá-lo quando o sobrinho acabou o discurso.
— Mas, acrescentou Vicente, a dificuldade está na esposa, e eu por enquanto não amo a ninguém.
— Não amas a ninguém? disse o velho deitando-se; mas então cuidas que eu vinha à corte só para te propor um casamento? Trago duas propostas — a do casamento e a da mulher. Não amas a mulher? Hás de vir a amá-la, porque ela já te ama. Vicente estremeceu; a questão agora tornava-se mais complicada. Ao mesmo tempo a idéia de ser amado sem que ele soubesse nem tivesse feito nenhum esforço, era uma coisa que lhe sorria à vaidade. Entre estes dois sentimentos contrários, o rapaz achou-se embaraçado para dar uma resposta qualquer.
— A mulher que te destino e que te ama, é minha filha Delfina.
— Ah! a prima? Mas ela é criança...
— Era há cinco anos; agora está com dezessete anos, e creio que a idade é própria para um consórcio. Aceitas, não?
— Meu tio, respondeu Vicente, eu aceitaria com muito prazer a sua idéia; mas, posto que eu reconheça toda a vantagem desta união, contudo, não quero fazer uma moça infeliz, e é o que pode acontecer se eu não amar minha mulher.
— Dar-lhe-ás pancadas?
— Oh! perdão! disse Vicente, não sem esconder um sentimento de indignação que lhe provocara a pergunta do velho. Mas não amando a uma pessoa que me ama, é fazê-la infeliz.
— Histórias da vida! disse o velho levantando-se e passeando pela sala; isto de amor em casamento é uma burla; basta que se estimem e se respeitem; é o que eu exijo e nada mais. Vê lá; em troca disso, dou-te a minha fortuna toda; bem sei que isto é o menos para ti; mas ter mulher bonita (porque Delfina é uma jóia), meiga, dócil, é uma fortuna que só um pateta pode recusar...
— Eu não digo que...
— Um pateta, ou um estouvado, como tu; um estouvado, que abandonou a casa de comércio, em que se achava, por um capricho, uma simples desinteligência com o dono da casa... Olhas espantado para mim? É verdade, meu rico; soube de tudo isso: e é essa a razão de não saberes tu quando aqui cheguei. Creio ao menos que estarás empregado?
— Estou, balbuciou o moço.
O capitão estava já zangado com as recusas do sobrinho, e não se pôde conter; disse-lhe o que sabia. Vicente, que o cuidava iludido acerca da saída da casa em que estivera, recebeu a notícia como uma bala de 150.
O velho continuou a passear silencioso. Vicente deixou-se estar assentado sem dizer palavra.
No fim de alguns minutos, voltou o capitão à sua cadeira e acrescentou: — Não me sejas palerma; atende que eu venho fazer a tua felicidade. Tua prima suspira por ti. Só o soube quando o filho do coronel Vieira foi lá pedi-la em casamento. Disse-me ela então que só se casaria contigo; e eu que a estremeço, quero fazer-lhe a vontade. Vamos; não posso esperar; decide-te.
— Meu tio, disse Vicente depois de alguns instantes, não posso dar-lhe uma resposta definitiva; mas afirmo que o que eu puder fazer estará feito.
— Boa confiança devo eu ter nas tuas palavras!
— Por quê?
— Queres saber por quê? é porque eu suponho que andarás por aí perdido, que sei eu? Como se perdem os rapazes de hoje.
— Oh! quanto a isso, juro...
— Não quero juramentos, quero uma resposta.
O capitão Ferreira era um homem de vontade; não admitia recusas, nem sabia propor coisas daquelas, quando lhe não assistia direito legal. Vicente até então vivera independente do tio; era natural que nunca contasse com a fortuna dele. Querer impor-lhe o casamento por aquele modo, era arriscar a negociação, afrontando o orgulho do moço.
O velho não reparava nisso, ficou muito admirado quando o sobrinho respondeu secamente às últimas palavras dele:
— Pois bem, a minha resposta é simples: não me caso.
Seguiu-se a estas palavras um profundo silêncio; o velho ficou fulminado.
— Não te casas? perguntou ele no fim de longos minutos.
O rapaz fez um sinal negativo.
— Reparaste bem na resposta que me deste?
— Reparei.
— Adeus.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.