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#Contos#Literatura Brasileira

Miloca

Por Machado de Assis (1870)

Os três passageiros deram um grito, que foi o prelúdio de muitos outros gritos, principalmente de D. Pulquéria que misturava trapalhadamente preces e pragas. Felizmente havia na vizinhança um baile, e os cocheiros de outros carros acudiram depressa para impedir que os burros disparassem. Esta providência era de todo ponto inútil porque os burros, em cujo ânimo parece que também influíra o drama, aproveitaram a queda para dormir completamente.

O cocheiro saltou no chão e tratou de salvar os náufragos; mas já encontrou junto da portinhola que ficara voltada para cima um rapaz desconhecido, que parecia ter a mesma idéia.

Dizer-lhes que esse rapaz era Adolfo seria supor que os leitores nunca leram romances. Adolfo não passara por acaso; estava ali havia muito aguardando a volta de Miloca para ter a satisfação de a ver de longe. Quis a fortuna dele que houvesse desastre do carro. Levado por um duplo sentimento de humanidade e de egoísmo, o bom rapaz atirou-se ao veículo e começou a pescar as vítimas.

A primeira pessoa que saiu foi D. Pulquéria, que apenas se achou sã e salva, deu graças a Nossa Senhora e descompôs em termos brandos o cocheiro. Enquanto ela falava, estendia Adolfo a mão para dentro do carro, para tirar Miloca. A moça estendeu-lhe a mão, e o rapaz estremeceu. Daí a dois minutos saía ela do carro, e Adolfo tirava a terceira vítima, que gemia com a dor de uma ferida no nariz. Miloca apenas teve uma contusão no rosto. D. Pulquéria parece que por ser gorda ofereceu mais resistência ao choque.

Rodrigo estancava o sangue com o lenço; Miloca entrara no corredor da casa, o cocheiro tratava de levantar o carro ajudado por alguns colegas, quando D. Pulquéria, que já durante alguns minutos tinha os olhos pregados em Adolfo, exclamou: — Foi o senhor quem nos salvou! Ó mano Rodrigo, aqui está a pessoa que nos salvou... Olhe!

— Mas não me salvou o nariz! objetou Rodrigo com mau humor. Pois quê! é o senhor! continuou ele aproximando-se do rapaz.

— É verdade, respondeu modestamente Adolfo.

Rodrigo estendeu-lhe a mão.

— Oh! fico-lhe muito obrigado!

— Devemos-lhe a vida, observou Dona Pulquéria, e creio que lhe seremos eternamente

gratos. Quer descansar?

— Obrigado, minha senhora.

— Mas ao menos prometa que há de vir à nossa casa, disse D. Pulquéria. — Se me permitem essa honra...

— Não permitimos, exigimos, disse Rodrigo.

— O meu serviço não vale nada, respondeu Adolfo; fiz o que faria outra qualquer pessoa. Todavia, se me permite, virei saber da saúde do senhor...

— Da saúde do meu nariz, emendou galhofeiramente Rodrigo; venha que nos dará grande prazer. Deixe-me apresentá-lo a minha filha...

Era tarde. Miloca, menos grata que os dois velhos, ou mais necessitada de descanso que eles, tinha subido havia já cinco minutos.

Adolfo despediu-se de Rodrigo e de D. Pulquéria e foi esperar na esquina a passagem do carro. Chamou o cocheiro e deu-lhe uma nota de cinco mil-réis.

— Aqui está o que você perdeu quando o carro tombou.

— Eu? perguntou o cocheiro que sabia não ter um vintém na algibeira. — É verdade, disse Adolfo.

E sem mais explicações foi andando.

O cocheiro era sagaz como bom cocheiro que era. Sorriu e guardou o dinheiro no bolso. Adolfo não era tão pouco fino que fosse logo apresentar-se em casa de Rodrigo. Esperou quarenta e oito horas antes que desse sinal de si. E não foi à casa da família, mas à loja de Rodrigo, que já lá estava com um pequeno emplastro no nariz. Rodrigo agradeceu outra vez o serviço que lhe prestara assim como à sua família na noite do desastre e procurou estabelecer desde logo uma salutar familiaridade.

— Não sabe, lhe disse ele quando o rapaz se dispunha a sair, não sabe como minha cunhada ficou morrendo pelo senhor...

— Parece ser uma excelente senhora, disse Adolfo.

— É uma pérola, respondeu Rodrigo. E se quer que lhe fale franco, eu estou sendo infiel à promessa que lhe fiz.

— Como assim?

— Prometi a minha cunhada que o levaria lá em casa apenas o encontrasse, e separo-me do senhor sem desempenhar a minha palavra.

Adolfo curvou levemente a cabeça.

— Muito agradeço essa prova de bondade, disse ele, e sinto realmente não poder corresponder ao desejo de sua cunhada. Estou pronto porém a lá ir apresentar-lhe os meus respeitos no dia e hora que me designar.

— Quer que lhe diga uma cousa? disse alegremente o comerciante. Eu não sou homem de etiqueta; sou cá do povo. Simpatizo com o senhor, e sei a simpatia que minha cunhada lhe tem. Faça uma cousa: venha jantar conosco domingo.

Adolfo não pôde conter a sua alegria. Evidentemente não contava com tamanha maré de felicidade. Agradeceu e aceitou o convite de Rodrigo e saiu.

No domingo seguinte, apresentou-se Adolfo em casa do comerciante. Ia de ponto em branco, sem que esta expressão se deva entender no sentido da alta elegância fluminense. Adolfo era pobre e vestia com apuro relativamente à sua classe. Estava longe porém do rigor e da opulência aristocrática.

(continua...)

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