Por Machado de Assis (1906)
4 No texto: sinônimo de bicho-do-mato, provinciano, pessoa antiquada.
D. LEONOR
— É ter paciência, sujeite-se às circunstâncias... (A D.. Cecília, que entra.) Ouviste?
D. CECÍLIA
— O que, titia?
D. LEONOR
— Helena te explicará tudo. (A D. Helena, baixo.) Tira-lhe todas as esperanças. (Indo-se.) Que urso! Que urso!
Cena VIII D. Helena, D. Cecília
D. CECÍLIA
— Que aconteceu?
D. HELENA
— Aconteceu... (Olha com tristeza para ela.)
D. CECÍLIA
— Acaba.
D. HELENA
— Pobre Cecília!
D. CECÍLIA
— Titia recusou a minha mão?
D. HELENA
— Qual! O barão é que se opõe ao casamento.
D. CECÍLIA
— Opõe-se!
D. HELENA
— Diz que a ciência exige o celibato do sobrinho. (D. Cecília encosta se a uma cadeira.) Mas, sossega; nem tudo está perdido; pode ser que o tempo... D. CECÍLIA — Mas quem impede que ele estude?
D. HELENA
— Mania de sábio. Ou então, evasiva do sobrinho.
D. CECÍLIA
— Oh! não! é impossível; Henrique é uma alma angélica! Respondo por ele. Há de certamente opor-se a semelhante exigência...
D. HELENA
— Não convém precipitar as coisas. O barão pode zangar-se e ir embora.
D. CECÍLIA
— Que devo então fazer?
D. HELENA
— Esperar. Há tempo para tudo.
D. CECÍLIA
— Pois bem, quando Henrique vier...
D. HELENA
— Não vem, titia resolveu fechar a porta a ambos.
D. CECÍLIA
— Impossível!
D. HELENA
— Pura verdade. Foi uma exigência do barão.
D. CECÍLIA
— Ah! conspiram todos contra mim! (Põe as mãos na cabeça.) Sou muito infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu mato-me! Anda, vê se descobres um meio...
D. HELENA, indo sentar-se
— Que meio?
D. CECÍLIA, acompanhando-a
— Um meio qualquer que não nos separe!
D. HELENA, sentada
— Há um.
D. CECÍLIA
— Qual? Dize.
D. HELENA
— Casar.
D. CECÍLIA
— Oh! não zombes de mim! Tu também amaste, Helena; deves respeitar estas angústias. Não tornar a ver o meu Henrique é uma idéia intolerável. Anda, minha irmãzinha. (Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o regaço de D. Helena.) Salva-me! És tão inteligente, que hás de achar por força alguma idéia; anda, pensa!
D. HELENA, beijando-lhe a testa
— Criança! supões que seja coisa tão fácil assim?
D. CECÍLIA
— Para ti há de ser fácil.
D. HELENA
— Lisonjeira! (Pega maquinalmente no livro deixado pelo barão sobre a cadeira.) A boa vontade não pode tudo, é preciso... (Tem aberto o livro.) Que livro é este?... Ah! talvez do barão.
D. CECÍLIA
— Mas vamos, continua...
D. HELENA
— Isto há de ser sueco... trata talvez de botânica. Sabes sueco?
D. CECÍLIA
— Helena!
D. HELENA
— Quem sabe se este livro pode salvar tudo? (Depois de um instante de reflexão.) Sim, é possível. Tratará de botânica?
D. CECÍLIA
— Trata.
D. HELENA
— Quem te disse?
D. CECÍLIA
— Ouvi dizer ao barão, trata das...
D. HELENA
— Das...
D. CECÍLIA
— Das gramíneas.
D. HELENA
— Só das gramíneas?
D. CECÍLIA
— Não sei; foi premiado pela Academia de Estocolmo.
D. HELENA
— De Estocolmo. Bem. (Levanta-se.)
D. CECÍLIA, levantando-se
— Mas que é?
D. HELENA
— Vou mandar-lhe o livro...
D. CECÍLIA
— Que mais?
D. HELENA
— Com um bilhete.
D. CECÍLIA, olhando para a direita
— Não é preciso; lá vem ele.
D. HELENA
— Ah!
D. CECÍLIA
— Que vais fazer?
D. HELENA
— Dar-lhe o livro.
D. CECÍLIA
— O livro, e...
D. HELENA
— E as despedidas.
D. CECÍLIA
— Não compreendo.
D. HELENA
— Espera e verás.
D. CECÍLIA
— Não posso encará-lo; adeus.
D. HELENA
— Cecília! (D. Cecília sai)
Cena IX D. Helena, Barão
BARÃO, à porta
— Perdão, minha senhora; eu trazia um livro há pouco...
D. HELENA , com o livro na mão
— Será este?
BARÃO, caminhando para ela
— Justamente.
D. HELENA
— Escrito em sueco, penso eu...
BARÃO
— Em sueco.
D. HELENA
— Trata naturalmente de botânica.
BARÃO
— Das gramíneas
D. HELENA, com interesse
— Das gramíneas.
BARÃO
— De que se espanta?
D. HELENA
— Um livro publicado...
BARÃO
— Há quatro meses.
D. HELENA
— Premiado pela Academia de Estocolmo?
BARÃO, admirado
— É verdade, mas...
D. HELENA
— Que pena que eu não saiba sueco!
BARÃO
— Tinha notícia do livro?
D. HELENA
— Certamente. Ando ansiosa por lê-lo.
BARÃO
—Perdão, minha senhora. Sabe botânica?
D. HELENA
— Não ouso dizer que sim, estudo alguma coisa; leio quando posso. É ciência profunda e encantadora.
BARÃO, com calor
— É a primeira de todas.
D. HELENA
— Não me atrevo a apoiá-lo, porque nada sei das outras, e poucas luzes tenho de botânica, apenas as que pode dar um estudo solitário e deficiente. Se a vontade suprisse o talento...
BARÃO
— Por que não? Le génie, c’est la patience, dizia Buffon.
D. HELENA, sentando-se
— Nem sempre.
BARÃO
— Realmente, estava longe de supor que, tão perto de mim, uma pessoa tão distinta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bela ciência.
D. HELENA
— Da sua esposa.
BARÃO, sentando-se
— É verdade. Um marido pode perder a mulher, e se a amar deveras, nada a compensará neste mundo, ao passo que a ciência não morre... Morremos nós, ela sobrevive a todas as graças do primeiro dia, ou ainda maiores, porque cada descoberta é um encanto novo.
D. HELENA
— Oh! tem razão!
BARÃO
— Mas, diga-me V. Exa., tem feito estudo especial das gramíneas?
D. HELENA
— Por alto... por alto...
BARÃO
(continua...)
ASSIS, Machado de. Lição de botânica. Rio de Janeiro, 1906.