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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Mas tenho eu. Hás de ficar. 

- Mas se eu já mandei o criado tomar alojamento no Hotel de Bragança... 

- Pois manda contra-ordem. Fica comigo. 

- Insisto em não perturbar a tua paz. 

- Deixa-te disso. 

- Fique! disse Adelaide. 

- Ficarei. 

- E amanhã, continuou Adelaide, depois de ter descansado, há de nos dizer qual é o segredo da isenção de que tanto se ufana.

- Não há segredo, disse Tito. O que há é isto. Entre um amor que se oferece e... uma partida de voltarete, não hesito, atiro-me ao voltarete. A propósito, Ernesto, sabes que encontrei no Chile um famoso parceiro de voltarete? Fez a casca mais temerária que tenho visto... sabe o que é uma casca, minha senhora? 

- Não, respondeu Adelaide. 

- Pois eu lhe explico. 

Azevedo olhou para fora e disse: 

- Aí chega a D. Emília. 

Com efeito à porta do jardim parava uma senhora dando o braço a um velho de cinqüenta anos. 

D. Emília era uma moça a que se pode chamar uma bela mulher; era alta na estatura e altiva de caráter. O amor que pudesse infundir seria por imposição. De suas maneiras e das suas graças inspirava um não sei que de rainha que dava vontade de levá-la a um trono. 

Trajava com elegância e simplicidade. Ela tinha essa elegância natural que é outra elegância diversa da elegância dos enfeites, a propósito da qual já tive ocasião de escrever esta máxima: "Que há pessoas elegantes, e pessoas enfeitadas." 

Olhos negros e rasgados, cheios de luz e de grandeza, cabelos castanhos e abundantes, nariz reto como o de Safo, boca vermelha e breve, faces de cetim, colo e braços como os das estátuas, tais eram os traços da beleza de Emília. 

Quanto ao velho que lhe dava o braço, era, como disse, um homem de cinqüenta anos. Era o que se chama em português chão e rude, - um velho gaiteiro. Pintado, espartilhado, via-se nele uma como que ruína do passado reconstruída por mãos modernas, de modo a ter esse aspecto bastardo que não é nem a austeridade da velhice, nem a frescura da mocidade. Não havia dúvida de que o velho devia ter sido um belo rapaz em seus tempos; mas presentemente, se algumas conquistas tivesse feito, só podia contentar se com a lembrança delas. 

Quando Emília entrou no jardim todos se achavam de pé. A recém-chegada apertou a mão a Azevedo e foi beijar Adelaide. Ia sentar-se na cadeira que Azevedo lhe oferecera quando reparou em Tito que se achava a um lado.

Os dous cumprimentaram-se, mas com ar diferente. Tito parecia tranqüilo e friamente polido; mas Emília, depois de cumprimentá-lo, conservou os olhos fitos nele, como que avocando uma memória do passado. 

Feitas as apresentações necessárias, e a Diogo Franco (é o nome do velho braceiro), todos tomaram assentos. 

A primeira que falou foi Emília: 

- Ainda hoje não vinha se não fosse a obsequiosidade do Sr. Diogo. Adelaide olhou para o velho e disse: 

- O Sr. Diogo é uma maravilha. 

Diogo empertigou-se e murmurou com certo tom de modéstia: - Nem tanto, nem tanto. 

- É, é, disse Emília. Não é talvez uma, porém duas maravilhas. Ah! sabes que me vai fazer um presente? 

- Um presente! exclamou Azevedo. 

- É verdade, continuou Emília, um presente que mandou vir da Europa e lá dos confins; recordações das suas viagens de adolescente. 

Diogo estava radiante. 

- É uma insignificância, disse ele olhando ternamente para Emília. 

- Mas o que é? perguntou Adelaide. 

- É... adivinhem? É um urso branco! 

- Um urso branco! 

- Deveras? 

- Está para chegar, mas só ontem é que me deu notícia dele. Que amável lembrança! 

- Um urso! exclamou ainda Azevedo. 

Tito inclinou-se ao ouvido do amigo, e disse em voz baixa:

- Com ele fazem dous. 

Diogo jubiloso pelo efeito que causava a notícia do presente, mas iludido no caráter desse efeito disse: 

- Não vale a pena. É um urso que eu mandei vir; é verdade que eu pedi dos mais belos. Não sabem o que é um urso branco. Imaginem que é todo branco. 

- Ah! disse Tito. 

- É um animal admirável! tornou Diogo. 

- Acho que sim, disse Tito. Ora imagina tu o que não será um urso branco que é todo branco. Que faz este sujeito? perguntou ele em seguida a Azevedo. 

- Namora a Emília; tem cinqüenta contos. 

- E ela? 

- Não faz caso dele. 

- Diz ela? 

- E é verdade. 

Enquanto os dous trocavam estas palavras, Diogo brincava com os sinetes do relógio e as duas senhoras conversavam. Depois das últimas palavras entre Azevedo e Tito, Emília voltou-se para o marido de Adelaide e perguntou: 

- Dá-se isto, Sr. Azevedo? Então faz-se anos nesta casa e não me convidam? 

- Mas a chuva? disse Adelaide. 

- Ingrata! Bem sabes que não há chuva em casos tais. 

- Demais, acrescentou Azevedo, fez-se a festa tão à capucha. - Fosse como fosse, eu sou de casa. 

- É que a lua-de-mel continua apesar de cinco meses, disse Tito. 

- Aí vens tu com os teus epigramas, disse Azevedo.

- Ah! isso é mau, Sr. Tito! 

(continua...)

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