Por Machado de Assis (1900)
Um correspondente do Piauí escreve para esta Corte as seguintes linhas: "Esteve por alguns dias na chefatura o juiz de direito da capital, Dr. Jesuíno Martins, que etc." Tenho lido outras vezes que a chefança perdeu um honrado magistrado; não poucas que mal anda o chefado nas mãos de Fulano; outras enfim que a chefação vai caminhando ao abismo.
Será preciso observar a todos os cavalheiros que cometem semelhante descuido, que não há chefança, nem chefado, nem chefação, nem chefatura, mas tão-somente chefia?
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[1 agosto]
I
HOJE POSSO espeitorar meia dúzia de bernardices sem que o leitor dê por elas.
A razão não é outra senão a de ser o leitor um homem que se respeita, ama o belo, possui costumes elegantes: conseguintemente, não tem orelhas para crônicas, nem outras cousas ínfimas.
Suas orelhas andam de molho, reservam-se para as grandes e belas vozes que estão prestes a chegar do Rio da Prata.
Antes de ir mais longe, convém advertir que o fato de nos virem as celebridades líricas do Rio da Prata é um fenômeno que, em 1850, seria puramente milagre; mas que hoje, mediante os progressos do dia, parece a cousa mais natural do mundo.
Há incrédulos, é verdade; há ombros que se levantam, espíritos que dão seus muxoxos de dúvida. Mas qual foi a verdade nova que ainda não encontrou resistências formais?
Colombo andou mendigando uma caravela para descobrir este continente; Galileu teve de confessar que a única bola que girava era a sua. Estes dois exemplos ilustres devem servir de algum lenitivo aos cantores platenses.
II
Demais os incrédulos se são duros, são em ínfimo número; número verdadeiramente ridículo. Porquanto, ainda, os cantores não deram amostra, já não digo de uma nota, mas somente de um espirro ou de um aperto de mão, e já os bilhetes estão todos tomados, a preços de primíssimo cartelo.
Donde os filósofos podem concluir com segurança que as vozes não são a mesma coisa que os nabos. Credo, quia absurdum, era a máxima de Santo Agostinho. Credo, quia carissimum, é a do verdadeiro dilettanti.
Ao preço elevado dos bilhetes corresponde os dos vencimentos dos cantores. Só o tenor recebe por mês oito contos e oitocentos mil-réis! Não sei que haja na crítica moderna melhor definição de um tenor do que esta dos oito contos, a não ser outra de dez ou quinze.
Que me importa agora ouvir as explicações técnicas dos críticos para saber se o tenor tem grande voz e profundo estudo? Já sei, já o sabemos todos; ele tem uma voz de oito contos e oitocentos; devo aplaudi-lo com ambas as luvas, até arrebentá-las.
Vejam a superioridade da música sobre a política. Cavour fez a Itália—um pau por um olho, e não sonhou nunca receber ordenado tamanho. Mas um jovem de olho azul e bigode louro, tendo a boa fortuna de engolir um canário ou outra ave equivalente, só por esse motivo, c por outros que seria longo desfiar, mete Cavour num chinelo. Cavour morreu talvez com pena de não ter sido barítono.
Não sei quanto vence o soprano; mas deve ser grosso cabedal, em vista do tenor, e porque também é célebre.
Imaginemos outro tanto.
Ora, expirou há pouco uma mulher, que me hão de conceber tinha um gênio maior que o do soprano referido, mulher que ocupa um dos mais altos lugares entre os prosadores de seu século. Madame Sand nunca venceu tanto por mês. Rendeu-lhe menos Indiana ou Mauprat do que rendem ao soprano de que trato meia dúzia de sustenidos bem sustenidos.
Oh! se tu tens algum filho, leitor amigo, não o faças político, nem literato, nem estatuário, nem pintor, nem arquiteto! Pode ter algum pouco de glória, e essa mesma pouca; muita que seja, nem só de glória vive o homem. Cantor, isso sim, isso dá muitos mil cruzados, dá admiração pública, dá retratos nas lojas; às vezes chega a dar aventuras romanescas.
III
Por fortuna de Alexandre Herculano, esta notícia lírica só invadiu a Corte depois de anunciado o seu azeite. Se o azeite se demora uma semana, ninguém fazia caso dele; ninguém lhe reparava na notícia, nem nos méritos.
Achou o tal azeite seus admiradores, como o Meneses do Jornal, e seus críticos, como o Serra da Reforma. Eu chego tarde para ser uma das duas coisas; prefiro ser ambos ao mesmo tempo. E não tendo visto ainda o azeite, estou na melhor situação para dar sobre ele o meu parecer. Quem era certo cavaleiro italiano que gastou a vida a duelar-se em defesa da Divina Comédia, sem nunca a ter lido? Eu sou esse cavaleiro apenas por um lado, que é o lado dos que dizem que, a não fazer o Herculano livros de história, deve fazer outra coisa.
Mas confesso que preferia ao pé do seu azeite o seu estilo; e de bom grado receberia de suas mãos o livro e a luz. Dar-me ele a luz e o Sr. *** os livros, é uma disparidade que não chega a vencer o sono... por melhor que seja o azeite.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.