Por Machado de Assis (1878)
BOTA DIREITA. Onde estarão a esta hora as botinas da viúva?
BOTA ESQUERDA. Quem sabe lá! Talvez outras botas conversem com outras botinas... Talvez: é a lei do mundo; assim caem os Estados e as instituições. Assim perece a beleza e a mocidade. Tudo botas, mana; tudo botas, com tacões ou sem tacões, novas ou velhas; direita ou acalcanhadas, lustrosas ou ruças, mas botas, botas, botas! Neste ponto calaram-se as duas interlocutoras, e eu fiquei a olhar para uma e outra, a esperar se diziam alguma coisa mais. Nada; estavam pensativas.
Deixei-me ficar assim algum tempo, disposto a lançar mão delas, e levá-las para casa com o fim de as estudar, interrogar, e depois escrever uma memória, que remeteria a todas as academias do mundo. Pensava também em as apresentar nos circos de cavalinhos, ou ir vendê-las a Nova York. Depois, abri mão de todos esses projetos. Se elas queriam a paz, uma velhice sossegada, por que motivo iria eu arrancá-las a essa justa paga de uma vida cansada e laboriosa? Tinham servido tanto! tinham rolado todos os degraus da escala social; chegavam ao último, a praia, a triste Praia de Santa Luzia... Não, velhas botas! Melhor é que fiqueis aí no derradeiro descanso.
Nisto vi chegar um sujeito maltrapilho; era um mendigo. Pediu-me uma esmola; dei-lhe um níquel.
MENDIGO. Deus lhe pague, meu senhor! (Vendo as botas) Um par de botas! Foi um anjo que as pôs aqui...
EU (ao mendigo). Mas, espere...
MENDIGO. Espere o quê? Se lhe digo que estou descalço! (Pegando nas botas) Estão bem boas! Cosendo-se isto aqui, com um barbante...
BOTA DIREITA. Que é isto, mana? que é isto? Alguém pega em nós... Eu sinto-me no ar...
BOTA ESQUERDA. É um mendigo.
BOTA DIREITA. Um mendigo? Que quererá ele?
BOTA DIREITA (alvoroçada). Será possível?
BOTA ESQUERDA. Vaidosa!
BOTA DIREITA. Ah! mana! esta é a filosofia verdadeira:
— Não há bota velha que não encontre um pé cambaio.
ASSIS, Machado de. Filosofia de um par de botas. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1878.