Por Machado de Assis (1866)
A previdente Madalena começara do menor para o maior. Com efeito, para Fernando melhor fora que Fernanda tivesse morrido do que se tivesse casado. Fernando desesperou ao ouvir as palavras de sua mãe. Esta veio com imediatos conselhos de prudência e resignação. Fernando a nada atendia. Formara durante tanto tempo um castelo de felicidade, e eis que uma simples palavra derrubara tudo. Mil idéias lhe atravessaram o cérebro; o suicídio, a vingança, voltavam a ocupar-lhe o espírito, cada qual por sua vez; o que ele via no fundo de tudo era a perfídia negra, a fraqueza do coração feminino, a zombaria, a má fé, ainda nos corações mais virgens. Enfim, Madalena pôde tomar a palavra e explicar ao desditoso mancebo a história do casamento de Fernanda.
Ora, a história, a despeito de sua vulgaridade, deve ser contada aqui para conhecimento dos fatos.
Fernanda sentira, e sinceramente, a ausência de Fernando.
Chorou longos dias sem consolação. Para trazer-lhe algumas distrações ao espírito, Madalena resolveu levá-la às reuniões e introduzi-la entre as moças da mesma idade, cuja convivência não podia deixar de ser-lhe útil, visto que lhe tranqüilizaria o espírito, sem varrer-lhe da memória e do coração a idéia e o amor do viajante.
Fernanda, que até ali vivera uma vida modesta e retirada, achou-se de repente ante um mundo novo. Sucediam-se os bailes, as visitas, as simples reuniões. Pouco a pouco a tristeza foi desaparecendo e dando lugar a uma satisfação completa e de bom agouro para Madalena.
— Bem, pensava a velha mãe, deste modo Fernanda poderá esperar Fernando, sem murchar-lhe a beleza da mocidade. Estas relações novas, esta nova convivência, tirando lhe a tristeza que a acabrunhava, dar-lhe-á mais força ao amor, em virtude do espetáculo do amor alheio.
Madalena raciocinava bem até certo ponto. Mas a prática demonstrou que a sua teoria era errada e não concluía como o seu coração.
O exemplo alheio, longe de fortificar Fernanda na fidelidade ao amor jurado, trouxe-lhe um prurido de imitação; ao princípio, simples curiosidade; depois, desejo menos indiferente; mais tarde, vontade decidida. Fernanda desejou imitar as novas amigas, e teve um namorado. A algumas ouvira que não ter um namorado, pelo menos, era dar prova de péssimo gosto, e de nenhum espírito; e Fernanda não queria de modo algum ficar neste ponto atrás das suas companheiras.
Entre os rapazes que a reqüestavam havia um certo Augusto Soares, filho de um rico capitalista, que era o seu primeiro mérito, sendo o segundo a mais bem merecida fama de néscio que ainda coroou uma criatura humana.
Mas os néscios não trazem na testa o dístico de sua nescedade; e, se é certo que Soares não podia encadear duas frases sem ferir o senso comum, também é certo que muitas mulheres perdoam tudo, até a tolice, em ouvindo tecer um gabo às suas graças naturais. Ora, Soares começava por aí, o que foi meio caminho andado. Fernanda, vendo que o rapaz era da mesma opinião que o seu espelho, não indagou de outras qualidades; deu lhe o sufrágio... não do coração, mas do espírito. O coração veio mais tarde. Ter um preferido, como objeto de guerra para os mais, e ver assim mais reqüestada a sua preferência, era trilhar o caminho das outras e ficar na altura do bom tom. Fernanda, desde o primeiro dia, mostrou-se tão hábil como as outras.
Mas quem pode lutar com um néscio em ele tomando ao sério o seu papel? Soares era ousado.
Não tendo consciência da nulidade do seu espírito, obrava como se fosse um espírito eminente, de modo que conseguia aquilo que nenhum homem avisado fora capaz de conseguir.
Deste modo, ao passo que a ausência de Fernando se prolongava, iam calando no espírito as declarações reiteradas de Soares, e o coração de Fernanda foi pouco a pouco cedendo o amor antigo ao recente amor.
Veio a comparação (a comparação, que é a perdição das mulheres). Fernando amava com toda a sinceridade e singeleza do seu coração; Soares amava de modo diverso; sabia entremear uma declaração com três perífrases e dois tropos, destes que já cheiram mal, por andarem em tantas bocas, mas que Fernanda ouvia com encanto porque era uma linguagem nova para ela.
Finalmente, um dia declarou-se a vitória de Soares no coração de Fernanda, não sem alguma luta, à última hora, e que não era mais do que um ato voluntário de Fernanda para tranqüilizar a consciência e deitar a sua traição para as costas do destino. O destino é o grande culpado de todas as más ações da humanidade inocente... Um dia Soares, tendo previamente indagado das posses de Fernanda, foi autorizado por esta a pedi-la em casamento.
Madalena não deu logo o seu consentimento; quis antes consultar Fernanda e ver até que ponto era séria a nova resolução de sua filha.
Fernanda declarou amar deveras o rapaz, e fez depender a sua vida e felicidade de tal casamento.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Fernando e Fernanda. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.