Por Machado de Assis (1866)
Quando me aproximei da viúva e troquei com ela um olhar, senti uma comoção inexprimível. Estive alguns segundos sem desviar os olhos dos olhos da moça. Ela também não desviava os seus.
Tudo se preparava para que este encontro fosse decisivo da minha sorte: a noite era das mais adoráveis noites do Sul.
Conversou-se, tomou-se chá e à meia-noite fomos eu, o major e as filhas deste, acompanhar as visitas até à casa.
Diana (não quero dar-lhe outro nome) pareceu não ser indiferente aos sentimentos que me inspirou. Também ela parecia impressionada, comovida. Pela minha parte não sei se disse coisas acertadas naquela noite.
Daí para cá já a vi dez vezes, e sempre de noite. Imagine se a impressão produzida durante a noite podia enfraquecer; tem aumentado antes com força redobrada. À quinta noite não me pude ter. Procurei um instante em que lhe pudesse falar a sós, e declarei-lhe indiretamente o que sentia por ela. Diana, ou respondesse do mesmo modo, ou fosse ilusão minha, o que é certo é que me disse algumas coisas indiretas assaz explícitas.
Olhe este espécime da nossa conversação:
Dizia eu:
— Quisera ser um coração viúvo.
— Por quê? perguntou ela.
— Porque os corações viúvos se consolam, respondi.
— Ah!
E suspirou.
É claro ou não?
Ah! eu creio que estou dizendo alguma extravagância, mas perdoa-me tu que sabes o que é amar, e conheces o meu coração nestas matérias.
O que te posso afiançar é que nunca amei como agora, nem mulher alguma se gabou ainda de possuir o meu coração como esta possui.
Quem dissera, meu Alberto, que vindo buscar uma fortuna e um segredo, levaria uma mulher, isto é, outro segredo e outra fortuna? Não estranhes a frase; estou disposto a casar com Diana, haja o que houver. É paixão doida...
Enfim o vapor está a partir, não posso demorar mais a carta. Adeus. Dentro de poucos dias vou para Pelotas para ver se descubro que segredo é este de meu padrinho... Olha, se é alguma fortuna enterrada!
Talvez a felicidade me queira proteger agora de uma vez. Adeus.
* * *
Um mês correu ainda entre esta carta e a terceira remetida por Luís ao amigo Alberto. Assistiremos eu e o leitor aos fatos que o advogado narrou na terceira carta. Basta-nos para isso transportarmo-nos para Porto Alegre, à casa de Luís, vinte e oito dias depois da segunda carta.
O amor de Luís e Diana (conservemos à moça o nome que lhe dera o namorado) caminhava às mil maravilhas.
A moça correspondera ao sentimento do rapaz, ao ponto de receber afetuosamente uma declaração positiva de casamento.
Como sempre se encontrassem em casa do major, onde Diana ia tomar chá todas as noites, nunca Luís fora a casa dela.
Um dia, porém, em que ele manifestou desejo de lá ir, Diana disse-lhe que fosse, pediu lhe, fez até uma intimação.
No meio de tudo isto, o legado e o segredo tinham ficado esquecidos inteiramente. Na manhã do dia marcado Luís levantou-se alegre como andorinha em tempo de verão. Vestiu-se, perfumou-se, encouraçou-se para todas as comoções e partiu. Ele levava em mente fazer nesse dia o pedido à velha. Sabia por boca de Diana que ela olhava esse amor com bons olhos.
Quando se aproximava da porta de Diana tirou o relógio e viu que se adiantara duas horas. Eram dez e a entrevista devia ter lugar ao meio-dia.
Quis voltar para esperar a hora convencionada. Mas a vista da jardim o desanimou. Teve uma tentação: esperar no jardim que batesse a hora decisiva da sua existência e da sua felicidade.
Hesitou alguns minutos.
Depois, fazendo um esforço, como a porta estivesse aberta, entrou.
Seus primeiros passos foram de receio. A areia rangia debaixo dos pés, e podia despertar alguém, o que seria estragar o romance.
A fortuna deparou-lhe uma espécie de caramanchel, naturalmente construído pela rama de quatro árvores plantadas em quadrado.
Luís encaminhou-se para lá.
A casa estava silenciosa; as janelas fechadas; tudo parecia dormir ainda. Ele sabia que ela se levantava tarde, mas não pôde supor que às dez horas da manhã ainda estivesse na cama.
É certo que a manhã era das mais frias e tinha chovido na véspera.
Luís sentou-se em um banquinho de pedra que havia embaixo do caramanchel. Descalçou as luvas, guardou-as no bolso, tirou um cigarro, concertou-o, riscou um fósforo, acendeu o cigarro e começou a fumá-lo tranqüilamente.
Quem o visse não diria que era um homem que dali a duas horas podia estar casado... em promessa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Diana. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.