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#Dramas#Literatura Brasileira

Desencantos

Por Machado de Assis (1861)

O meu bilhete, entretanto, é concebido em frases bem tocantes e simples.

CLARA

Com franqueza, eu não li o bilhete.

PEDRO ALVES

Deveras?

CLARA

Deveras.

PEDRO ALVES

(tomando o chapéu)

Com licença.

CLARA

Onde vai? Não compreende que quando digo que não li o seu bilhete é porque quero ouvir da sua própria boca as palavras que nele se continham?

PEDRO ALVES

Como? Será por isso?

CLARA

Não acredita?

PEDRO ALVES

É capricho de moça bonita e nada mais. Capricho sem exemplo.

CLARA

Dizia-me então?...

PEDRO ALVES

Dizia-lhe que, com o espírito vacilante como baixel prestes a soçobrar, eu lhe escrevia à luz do relâmpago que me fuzila n'alma aclarando as trevas que uma desgraçada paixão aí me deixa. Pedia-lhe a luz dos seus olhos sedutores para servir de guia na vida e poder encontrar sem perigo o porto de salvamento. Tal é no seu espírito a segunda edição de minha carta. As cores que nela empreguei são a fiel tradução do que sentia e sinto. Está pensativa?

CLARA

Penso em que, se me fala verdade, a sua paixão é rara e nova para estes tempos.

PEDRO ALVES

Rara e muito rara; pensa que eu sou lá desses que procuram vencer pelas palavras melífluas e falsas? Sou rude, mas sincero.

CLARA

Apelemos para o tempo.

PEDRO ALVES

É um juiz tardio. Quando a sua sentença chegar, eu estarei no túmulo e será tarde.

CLARA

Vem agora com idéias fúnebres!

PEDRO ALVES

Eu não apelo para o tempo. O meu juiz está em face de mim, e eu quero já beijar antecipadamente a mão que há de lavrar a minha sentença de absolvição. (quer beijar-lhe a mão. Clara sai) Ouça! Ouça!



Cena IV

LUÍS DE MELO, PEDRO ALVES



PEDRO ALVES

(só)

Fugiu! Não tarda ceder. Ah! o meu adversário!

LUÍS

D. Clara?

PEDRO ALVES

Foi para a outra parte do jardim.

LUÍS

Bom. (vai sair)

PEDRO ALVES

Disse-me que o fizesse esperar; e eu estimo bem estarmos a sós porque tenho de lhe dizer algumas palavras.

LUÍS

Às suas ordens. Posso ser-lhe útil?

PEDRO ALVES

Útil a mim e a si. Eu gosto das situações claras e definidas. Quero poder dirigir a salvo e seguro o meu ataque. Se lhe falo deste modo é porque, simpatizando com as suas maneiras, desejo não trair a uma pessoa a quem me ligo por um vínculo secreto. Vamos ao caso: é preciso que me diga quais as suas intenções, qual o seu plano de guerra; assim, cada um pode atacar por seu lado a praça, e o triunfo será do que melhor tiver empregado os seus tiros.

LUÍS

A que vem essa belicosa parábola?

PEDRO ALVES

Não compreende?

LUÍS

Tenha a bondade de ser mais claro.

PEDRO ALVES

Mais claro ainda? Pois serei claríssimo: a viúva do coronel é uma praça sitiada.

LUÍS

Por quem?

PEDRO ALVES

Por mim, confesso. E afirmo que por nós ambos.

LUÍS

Informaram-no mal. Eu não faço a corte à viúva Ido coronel.

PEDRO ALVES

Creio em tudo quanto quiser, menos nisso.

LUÍS

A sua simpatia por mim vai até desmentir as minhas asserções?

PEDRO ALVES

Isso não é discutir. Deveras, não faz a corte à nossa interessante vizinha?

LUÍS

Não, as minhas atenções para com ela não passam de uma retribuição a que, como homem delicado, não me poderia furtar.

PEDRO ALVES

Pois eu faço.

LUÍS

Seja-lhe para bem! Mas a que vem isso?

PEDRO ALVES

A coisa alguma. Desde que me afiança não ter a menor intenção oculta nas suas atenções, a explicação está dada. Quanto a mim, faço-lhe a corte e digo-o bem alto. Apresento-me candidato no seu coração e para isso mostro títulos valiosos. Dirão que sou presumido; podem dizer o que quiser.

LUÍS

Desculpe a curiosidade: quais são esses títulos?

PEDRO ALVES

A posição que a fortuna me dá, um físico que pode-se chamar belo, uma coragem capaz de afrontar todos os muros e grades possíveis e imagináveis, e para coroar a obra uma discrição de pedreiro-livre.

LUÍS

Só?

PEDRO ALVES

Acha pouco?

LUÍS

Acho.

PEDRO ALVES

Não compreendo que haja precisão de mais títulos além destes.

LUÍS

Pois há. Essa posição, esse físico, essa coragem e essa discrição, são decerto apreciáveis, mas duvido que tenham valor diante de uma mulher de espírito.

PEDRO ALVES

Se a mulher de espírito for da sua opinião.

LUÍS

Sem dúvida alguma que há de ser.

PEDRO ALVES

Mas continue, quero ouvir o fim de seu discurso.

LUÍS

Onde fica no seu plano de guerra, já que aprecia este gênero de figura, onde fica, digo eu, o amor verdadeiro, a dedicação sincera, o respeito, filho de ambos, e que essa D. Clara sitiada deve inspirar?

PEDRO ALVES

A corda em que acaba de tocar está desafinada há muito tempo e não dá som. O amor, o respeito, e a dedicação! Se o não conhecesse diria que o senhor acaba de chegar do outro mundo.

LUÍS

Com efeito, pertenço a um mundo que não é absolutamente o seu. Não vê que tenho um ar de quem não está em terra própria e fala com uma variedade da espécie?

PEDRO ALVES

Já sei; pertence à esfera dos sonhadores e dos visionários. Conheço boa soma de seus semelhantes que me tem dado bem boas horas de riso e de satisfação. É uma tribo que se não acaba, pelo que vejo?

LUÍS

Ao que parece, não?

PEDRO ALVES

Mas é evidente que perecerá.

LUÍS

(continua...)

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