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#Contos#Literatura Brasileira

Decadência de dois grandes homens

Por Machado de Assis (1873)

Levou-me a uma poltrona de couro e obrigou-me a sentar ali. Depois foi sentar-se ao pé da mesa, em frente a mim e começou a desenvolver a sua teoria, que eu ouvi sem pestanejar. Jaime tinha a palavra fácil, ardente, impetuosa; animavam-se-lhe os olhos, tremia-lhe o lábio, e a mão, a famosa mão esquerda, agitava no ar o dedo polegar aberto e curvo como um ponto de interrogação. 

Ouvi o discurso do homem, e não ousei contestar-lhe. Era evidentemente um doido; e ninguém discute com homem doido. Jaime acabou de falar e caiu numa espécie de prostração. Cerrou os olhos e ficou insensível alguns minutos. O gato saltou à mesa, entre mim e ele, e começou a passar a mão pela cara de Jaime, o que o fez despertar daquele abatimento. 

— Júlio! Júlio! exclamava ele beijando o gato; será hoje? será hoje? Júlio não parecia entender a pergunta; alteou o lombo, descreveu com a cauda algumas figuras geométricas no ar, deu dois saltos e pulou ao chão. 

Jaime acendeu um lampião, enquanto eu me levantava para me ir embora. — Não se vá, meu amigo, disse-me Jaime; peço-lhe um favor. 

— Qual? 

— Fique comigo até a meia-noite. 

— Não posso. 

— Por quê? não imagina que favor me faria! 

— Tem medo? 

— Hoje tenho: são os idos de março. 

Consenti em ficar. 

— Não me dirá, perguntei eu, que tem o senhor com os idos de março? — Que tenho? disse Jaime com os olhos em fogo. Não sabe quem sou? — Pouco sei. 

— Não sabe nada. 

Jaime inclinou-se sobre a mesa e disse-me ao ouvido: 

— Sou Marco Bruto! 

Por mais extravagante que estas palavras pareçam ao frio leitor, confesso que me causaram profunda sensação. Recuei a cadeira e contemplei a cabeça do velho. Pareceu-me que a iluminava a virtude romana. Os olhos tinham fulgores de padre conscrito; o lábio parecia estar fazendo uma oração à liberdade. Durante alguns minutos saboreou ele silenciosamente a minha silenciosa admiração. Depois, sentando-se outra vez: 

— Marco Bruto sou, disse, ainda que esta revelação lhe cause espanto. Sou aquele que encabeçou a momentânea vitória da liberdade, o assassino (em que me pese o nome!), o assassino do divino Júlio. 

E voltando os olhos para o gato, que estava sobre uma cadeira, entrou a contemplá-lo com urna expressão de arrependimento e dor. O gato fitou nele os olhos verdes, redondos, e nesta contemplação recíproca ficaram até que eu para obter maior explicação do que presenciava, perguntei ao velho: 

— Mas, sr. Bruto, se é aquele grande homem que assassinou César por que receia os idos de março? César não voltou cá. 

— A causa do meu receio ninguém a sabe; mas eu lhe direi francamente, pois é o único homem que tem mostrado interesse por mim. Receio os idos de março, porque... Estacou; enorme trovão rolou nos ares e pareceu abalar a casa até os alicerces. O velho ergueu os braços e os olhos para o teto e fez mentalmente uma prece a algum deus do paganismo. 

— Será a hora? perguntou ele baixinho. 

— De quê? perguntei. 

— Do castigo. Ouça, mancebo; o senhor é filho de um século sem fé nem filosofia; não conhece o que é a cólera dos deuses. Também eu nasci neste século; mas trouxe comigo as virtudes da minha primeira aparição na terra: corpo de Jaime, alma de Bruto. — Então já morreu antes de ser Jaime? 

— Sem dúvida; é sabido que morri; ainda que eu desejasse negá-lo, aí estaria a História para dizer o contrário. Morri; séculos depois, voltei ao mundo com esta forma que vê; agora voltarei a outra forma e...

Aqui o velho começou a chorar. Consolei-o como pude, enquanto o gato, trepando à mesa, veio acariciá-lo com uma afeição bem contrária à índole de uma onça. O velho agradeceu as minhas consolações, e as carícias de Júlio. Aproveitei a ocasião para lhe dizer que efetivamente eu imaginava que o ilustre Bruto devia ter aquela figura. O velho sorriu. 

— Estou mais gordo, disse ele; naquele tempo eu era magro. Coisa natural; homem gordo não faz revolução. Bem o compreendia César quando dizia que não temia a Antônio e Dolabela, mas sim àqueles dois sujeitos amarelos e magros e éramos Cássio e eu... — Pensa então o senhor que... 

— Penso que homem gordo não faz revolução. O abdome é naturalmente amigo da ordem; o estômago pode destruir um império; mas há de ser antes de jantar. Quando Catilina encabeçou a célebre conjuração a quem foi procurar? Foi procurar a gente que não tinha um sestércio de seu; a turba dos clientes, que vivia de espórtulas, não os que viviam pomposamente em Túsculo ou Baïas. 

Achei curiosa a doutrina e disse a propósito algumas palavras que nos distraíram do assunto principal. 

O genro de Catão continuou: 

— Não lhe contarei, pois sabe a História, a conjuração dos idos de março. Apenas lhe direi que eu entrara naquela sinceramente, porquanto, como muito bem disse um poeta inglês, que depois me meteu em cena, eu matei César, não por ódio a César, mas por amor da República. 

— Apoiado! 

— O senhor é deputado? perguntou o velho sorrindo. 

— Não, senhor. 

— Pensei. Aproveito a ocasião para dizer-lhe que a tática parlamentar de tomar tempo com discursos até o fim das sessões não é nova. 

— Ah! 

(continua...)

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