Por Machado de Assis (1876)
— É bom moço, pensou ele, empregado sério e tem cabedais no horizonte; posso dar-lhe a pequena.
Gaspar entendeu pelo rosto amável do comendador que o seu pedido não viria fora de propósito, e planeava o meio de requerer a moça com o consentimento do tio quando este se lembrou de mudar o domicílio passageiro pelo eterno, deixando-lhe o dinheiro e a tia. A situação mudara; contudo não lhe pareceu que o comendador mudasse muito com ela. Achou-o certamente mais reservado e algo frio; mas a filha estava tão contente que ele sentiu renascer-lhe a abalada confiança.
— Já sei que me deixas, disse a moça com um tom de tristeza
— Deixar-te?
— Não te casas?
Gaspar levantou secamente os ombros.
— Isso não é resposta, disse a moça.
— Que queres que te diga?
— Que me amas... que não me hás de trair...
— Lucinda!
— Lucinda não é resposta.
— Criança!
— Ainda menos!
— Pois sim; não te hei de trair... Trair por que e por quem? Julgas-me um... A moça desatou a rir, uma risada que faria morrer a D. Mônica, se a ouvisse e percebesse a coisa, e os dois namorados passaram a falar do seu futuro. O que os namorados dizem de seu futuro não é coisa nova para ninguém; dizem tudo e não dizem coisa nenhuma, eloqüência divina, que é melhor experimentar, que julgar, mas julgue-a quem não experimentá-la.
III
D. Mônica soube da cláusula de testamento com viva demonstração de desagrado. A disposição pareceu-lhe zombeteira e cruel a um tempo. Não era melhor, se o sobrinho queria favorecer os seus dois parentes, repartir com eles os trezentos contos? Esta foi a primeira reflexão. A segunda foi de agradecimento, porquanto a recusa da parte de Gaspar vinha constituí-la herdeira de toda a riqueza, e a cláusula testamentária redundava toda em proveito dela. Não sei se isto é interesse e egoísmo, sei que foi a reflexão de D. Mônica. Não foi porém a última; foi apenas a segunda, a que ainda sucedeu terceira e quarta. D. Mônica refletiu que havia no testamento uma lacuna, e era o caso em que, disposto Gaspar a desposá-la, não estivesse ela disposta a aceitar-lhe a mão. A quem pertenceria nesse caso a herança? Parece que ao rapaz, visto que não casaria por motivo independente de sua vontade. Enfim, D. Mônica perguntou a si própria, se o casamento, em tal idade, era coisa tão fora de propósito que a obrigasse a recuar. A resposta foi negativa, por duas razões: a primeira é que o sobrinho Matias não disporia em testamento um absurdo, uma coisa que lhe ficasse mal a ela. Sempre o conhecera respeitoso e seu amigo; a segunda é que ela mesma sentia em si alguns restos das graças de outro tempo.
D. Mônica relanceou os olhos para o espelho, compôs as duas tranças do cabelo, presas sobre a nuca, a fim de lhes dar um ar menos sustoso, estudou-se com atenção, e concluiu que, se não era moça, não era de todo rejeitável. Uma idéia desta é mais difícil de nascer
que de morrer. Uma vez nascida no espírito de D. Mônica, entranhou-se como uma verruma. Vinte e quatro horas depois era resolução assentada; mas, como a consciência busca muita vez iludir-se a si própria, D. Mônica lançava a resolução à conta da afeição que tinha ao rapaz.
— Que razão tenho eu para retardar a herança que o tio lhe deixou? dizia ela dentro de si. Aceitando o casamento, evito chicanas e perda de tempo. Demais é sempre digna de respeito a última vontade de um morto.
Gaspar foi ter com a tia-avó, alguns dias depois de voltar à Secretaria. Ia resolvido a dizer-lhe francamente a razão que tinha para não aceitar a condição imposta pelo tio, razão que o leitor sabe ser o amor de Lucinda, além do horror que inspirava a idéia de obedecer naquele ponto ao tio.
D. Mônica vestira-se nesse dia com singular apuro. Tinha um vestido de gorgorão preto; sério na cor, mas risonho na forma, que era um complicado de folhos e babados. Os cabelos dobravam-se em bandós e enquadravam-lhe o rosto, cuja expressão não era severa nem desconsolada. D. Mônica deixava-se estar na poltrona, quando lhe anunciaram o sobrinho. A poltrona era larga, pouco mais larga que a tia do capitão, que tinha as formas amplas e refeitas.
— Bem-vindo seja o senhor Gaspar! exclamou ela logo que o viu assomar à porta. Cuidei que nunca mais queria ver a sua única parenta.
— Que idéia! respondeu o moço. A senhora sabe não podia haver tal esquecimento da minha parte.
Disse, e, aproximando-se dela, beijou-lhe respeitosamente a mão. D. Mônica deu-lha com uma graça estudada, mas que lhe não ficou mal de todo.
— Senta-te aqui, disse ela apontando para uma cadeira que lhe ficava ao lado. Gaspar obedeceu. Apenas sentado, reconheceu que era mais fácil planear que executar. Calou-se durante algum tempo, sem saber por onde começasse. D. Mônica veio em seu auxílio.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.