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#Baladas#Literatura Brasileira

Sabina

Por Machado de Assis (1875)

Mortas entre os grilhões do cativeiro.


***


Assim falavam eles; tal o aresto

Da opinião. Quem evitá-lo pode

Entre os seus, por mais baixo que a fortuna

Haja tecido o berço? Assim falavam

Os cativos do engenho; e porventura

Sabina o soube e o perdoou.


***


Volveram

Após os dias da saudade os dias

Da esperança. Ora, quis fortuna adversa

Que o coração do moço, tão volúvel

Como a brisa que passa ou como as ondas,

Nos cabelos castanhos se prendesse

Da donzela gentil, com quem atara

O laço conjugal: uma beleza

Pura, como o primeiro olhar da vida,

Uma flor desbrochada em seus quinze anos,

Que o moço viu num dos serões da corte

E cativo adorou. Que há de fazer-lhes

Agora o pai? Abençoar os noivos

E ao regaço trazê-los da família.


***


Oh longa foi, longa e ruidosa a festa

Da fazenda, por onde alegre entrara

O moço Otávio conduzindo a esposa.

Viu-os chegar Sabina, os olhos secos

Atônita e pasmada. Breve o instante

Da vista foi. Rápido foge. A noite

A seu trêmulo pé não tolhe a marcha;

Voa, não corre ao malfadado rio,

Onde a voz escutou do amado moço.

Ali chegando: “Morrerá comigo

O fruto de meu seio; a luz da terra

Seus olhos não verão; nem ar da vida

Há de aspirar...”


***


Ia a cair nas águas,

Quando súbito horror lhe toma o corpo;

Gelado o sangue e trêmula recua,

Vacila e tomba sobre a relva. A morte

Em vão a chama e lhe fascina a vista;

Vence o instinto de mãe. Erma e calada

Ali ficou. Viu-a jazer a lua

Largo espaço da noite ao pé das águas,

E ouviu-lhe o vento os trêmulos suspiros;

Nenhum deles, contudo, o disse à aurora.

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