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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

Que nova fama quer o Céu que merque,

E me está com seus feitos provocando,

Que dele cante e sobre ele alterque;

Aquele que na Ida estou pintando,

Hierónimo sublime d’Albuquerque

Se diz, cuja invenção, cujo artifício

Aos bárbaros dar total exício.



XXXIV

Deste, como de Tronco florescente,

Nascerão muitos ramos, que esperança

Prometerão a todos geralmente

De nos berços do Sol pregar a lança.

Mas, quando virem que do Rei potente

O pai por seus serviços não alcança

O galardão devido e glória digna,

Ficarão nos alpendres da Piscina.



XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!



XXXVI

Não tens poder algum, se houver prudência;

Não tens Império algum, nem Majestade;

Mas a mortal cegueira e a demência

Co título te honrou de Deidade.

O sábio tem domínio na influência

Celeste e na potência da vontade,

E se o fim não alcança desejado,

É por não ser o meio acomodado.



XXXVII

Este meio faltará ao velho invicto,

Mas não cometerá nenhum defeito,

Que o seu calificado e alto espírito

Lhe fará a quanto deve ter respeito.

Aqui Balisário, e Pacheco aflito,

Cerra com ele o número perfeito.

Sobre os três, ô a dúvida se excita:

Qual foi mais, se o esforço, se a desdita?



XXXVIII

Foi o filho de Anquises, foi Acates,

À região do Caos litigioso,

Com ramo d’ouro fino e de quilates,

Chegando ao campo Elíseu deleitoso.

Quão mal, por falta deste, a muitos trates

(Ó sorte!) neste tempo trabalhoso,

Bem claro no-lo mostra a experiência

Em poder mais que a justiça a aderência.



XXXIX

Mas deixando (dizia) ao tempo avaro

Cousas que Deus eterno e ele cura,

E tornando ao Presságio novo e raro,

Que na parte mental se me figura,

De Jorge d’Albuquerque, forte e claro,

A despeito direi da inveja pura,

Pera o qual monta pouco a culta Musa,

Que Meónio em louvar Aquiles usa.



XL

Bem sei que, se seus feitos não sublimo,

É roubo que 1he faço mui notável;

Se o faço como devo, sei que imprimo

Escândalo no vulgo variável.

Mas o dente de Zoilo, nem Mínimo,

Estimo muito pouco, que agradável

É impossível ser nenhum que canta

Proezas de valor e glória tanta.



XLI

Uô a cousa me faz dificuldade

E o espírito profético me cansa,

A qual é ter no vulgo autoridade

Só aquilo a que sua força alcança.

Mas, se é um caso raro, ou novidade

Das que, de tempo em tempo, o tempo lança,

Tal crédito lhe dão, que me lastima

Ver a verdade o pouco que se estima."



XLII

E prosseguindo (diz: "que Sol luzente

Vem d’ouro as brancas nuvens perfilando,

Que está com braço indômito e valente

A fama dos antigos eclipsando;

Em quem o esforço todo juntamente

Se está como em seu centro trasladando?

É Jorge d'Albuquerque mais invicto

Que o que desceu ao Reino de Cocito.



XLIII

Depois de ter o Bárbaro difuso

E roto, as portas fechar de Jano,

Por vir ao Reino do valente Luso

E tentar a fortuna do Oceano."

Um pouco aqui Proteu, como confuso,

Estava receando o grave dano,

Que havia de acrescer ao claro Herói

No Reino aonde vive Cimotoe.



XLIV

"Sei mui certo do fado (prosseguia)

Que trará o Lusitano por designo

Escurecer o esforço e valentia

Do braço Assírio, Grego e do Latino.

Mas este pressuposto e fantasia

Lhe tirará de inveja o seu destino,

Que conjurando com os Elementos

Abalará do Mar os fundamentos.



XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meus ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.



XLVI

Na parte mais secreta da memória,

Terá mui escrita. impressa e estampada

Aquela triste e maranhada História,

Com Marte, sobre Vênus celebrada.

Verá que seu primor e clara glória

Há de ficar em Lete sepultada,

Se o braço Português vitória alcança

Da nação que tem nele confiança.



XLVII

E com rosto cruel e furibundo,

Dos encovados olhos cintilando,

Férvido, impaciente, pelo mundo

Andará estas palavras derramando":

— Pôde Nictélio só no Mar profundo

Sorver as Naus Meónias navegando,

Não sendo mor Senhor, nem mais possante

Nem filho mais mimoso do Tonante?



XLVIII

E pôde Juno andar tantos enganos,

Sem razão, contra Tróia maquinando,

E fazer que o Rei justo dos Troianos

Andasse tanto tempo o Mar sulcando?

E que vindo no cabo de dez anos,

De Cila e de Caríbdis escapando,

Chegasse à desejada e nova terra,

E co Latino Rei tivesse guerra?



XLIX

E pôde Palas subverter no Ponto

O filho de Oileu per causa leve?

Tentar outros casos que não conto

Por me não dar lugar o tempo breve?

E que eu por mil razões, que não aponto,

A quem do fado a lei render se deve,

Do que tenho tentado já desista,

E a gente Lusitana me resista?



L

Eu por ventura sou Deus indigente,

Nascido da progênie dos humanos,

Ou não entro no número dos sete,

Celestes, imortais e soberanos?

A quarta Esfera a mim não se comete?

Não tenho em meu poder os Centimanos?

Jove não tem o Céu? O Mar, Tridente?

Plutão, o Reino da danada gente?



LI

Em preço, ser, valor, ou em nobreza,

Qual dos supremos é mais qu’eu altivo?

(continua...)

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