Por José de Anchieta (1563)
e arrebatando os homens. Afastam-se altivos com a presa
e fartam-se de sangue humano os ávidos ventres.
eis que se ajuntam, vindos de várias paragens,
em magotes cerrados, para arruinar para sempre
as aldeias cristãs, ferve-lhes nas veias a raiva
a louca paixão da guerra e o apetite da carne
humana, batem os corações em fúrias amentes.
Se o braço de Deus não impede esses aprestos ferozes
com o socorro celeste, senão dispensa essas tribos altivas
que vibram ao incêndio da guerra e ao faro do sangue,
em breve a ímpia guerra tudo terá conspurcado
e encharcada se verá a terra no sangue dos justos.
Transposto finalmente o oceano, fundeiam no porto.
Sabe então o valente chefe que cruas guerras se aprestam
contra os cristãos, tribos ferozes se insurgem
de toda a parte, decididas de uma vez para sempre
a ferir, matar, devorar a todos os brancos.
O primeiro cuidado do chefe foi erguer logo a mente
ao Pai celeste e revolvendo em silêncio todos esses sucessos
implorar para os sitiados o auxílio que desce
copioso do alto: pois a clemência onipotente, vencida
pela prece dos filhos, sobre eles se inclina piedosa.
Escolhe depois duas caravelas da armada
e manda equipá-las. Envia Fernão à peleja,
seu filho querido, ainda na primavera da vida,
jovem de coração varonil, alma plasmada
nos moldes paternos, enche-lhe o coração de conselhos,
e diz-lhe: “aprende, filho, desde os anos mais tenros,
a buscar no trabalho as virtudes e a glória,
não honras humanas: pois que haverá sobre a terra
capaz de encher-te a alma?” No coração insculpido
leva o nome de Deus, e, na chama da fé abrasado,
onde quer que apertem os trabalhos da guerra,
arroja o dique do peito à maldade furiosa.
Vês como gentes cruéis em hordas imensas preparam
aos Cristãos batalhas ferozes. De morte humilhante
ameaçam agora as cabeças dos pobres colonos,
quais tigres cruéis em redor da preia lanhada
sorvendo com fauces sedentas o sangue inocente.
Que esperança ou que alívio resta ainda aos sitiados?
Donde tirar auxílio? com que forças enfrentar inimigo
tão sanguinário? com que esforço, tão poucos
poderão repelir das aldeias as ondas que avançam?
Se é força buscar na fuga a salvação (vergonhoso
embora o proceder), se é força deixar ao selvagem
lares e férteis campos? lembra-te que mares profundos
tolhem a retirada, nem têm naus que sulquem as ondas
do pego irado, e salvem a vida pobres que tudo perderam.
Eia, pois, sem tardar, lança-te ao mar encrespado
e de novo provoca as vagas em naus bem armadas.
Voa em auxílio da pobre gente no que puderes.
Qualquer a sorte que te espera, quaisquer os trabalhos,
esforça-te por arrostá-los e suplantá-los com brio.
Se a destra onipotente te conservar são e salvo
e te conceder, com a derrota do inimigo, o pendão da vitória
e desdobrar ao olhar paterno os sinais do triunfo:
ditoso dia nos será a ambos! A Deus soberano
cumpriremos os votos e renderemos os devidos louvores.
A glória conquistada em guerra pela honra divina
te será muito doce: eis, filho, o teu belo futuro!
Se porém por desígnio imutável do Pai sempiterno
o último alento te colher na primavera da vida,
se a morte te arrancar em plena flor da existência:
então te aguardarão imarcescíveis louros e honra perene,
glória imorredoura dourará nos céus teus destinos!
Trocam-se assim pelo dia eterno efêmeros dias
À luta pois com braço forte, e no fundo do peito
gravado o nome do Senhor que governa o universo”!
Assim falando envia o filho à empresa gloriosa.
Dá-lhe quatro dezenas de companheiros bem equipados,
manda soltar ao vento as velas, e à divina clemência
roga auspiciar as primeiras estréias do jovem.
De pronto ergue as âncoras a marujada valente
e em voz cadenciada puxa as amarras que vai recolhendo
em círculos. Volta proas à vaga a marulhar mar em fora,
desdobra dos altos mastros o cândido linho,
enquanto o vento, bojando as velas, as cordas estira.
O Norte se abate sobre o mar, o casco impelindo
e abaulando as velas; voa a lisa proa, cortando
o pego espumante, roçando apenas o dorso das ondas.
Ora aqui, ora além fundeia nos litorais rumorosos.
Só se abranda o rondo do oceano enraivado,
quando a Ursa Maior o bafeja com ventos propícios
e a nau, vencida muitas milhas, ferra os diversos
portos dos cristãos. Muitos logo aí se oferecem
ao intrépido chefe para sócios da empresa e da sorte.
Vai pois o jovem brioso escoltado de cem companheiros
ansiosos por domar com as armas a altivez do selvagem.
Já no termo da rota, e perto das aldeias dos brancos,
a que vinha socorrer ainda a tempo, penetra
na foz espaçosa de grande rio, e remando
contra o ímpeto da corrente veloz, se dirige
ao acampamento inimigo. Aí ajuntara o gentio
forças vindas de toda a região em redor.
Das fortificações, umas se ocultam em selvas sombrias
do lado em que o sol, deixando o zênite, se engolfa no plaino;
outras, escondidas juntos dos litorais arenosos,
ouvem o troar das ondas que se enrolam e quebram.
O melhor da mocidade foi destinada a esses lugares:
ergueram aí, em vasta construção, três fortalezas
cercadas de larga trincheira de troncos gigantes.
Rodeavam cada um dos fortes seis voltas de lenhos,
(continua...)
ANCHIETA, José de. De gestis Mendi de Saa.