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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Entretanto noto que a divina Providencia como que tem querido proteger por um modo manifesto a sua Rozaura, dirigindo os acontecimentos por tal sorte que em breve se revelará em plena luz a verdadeira origem da menina. Repare o meu amigo como tudo vae se combinando, e como que conspirando para esse feliz resultado ! A venda de Rozaura á sua propria mão foi um facto providencial. Si Deus quiz por esse estranho meio collocar em contacto essas duas creaturas, que pertencião uma a outra, e conservar até hoje a vida a essa desgraçada mulher que reduzio a menina á escravidão, foi por certo para esse grande e misericordioso designio. Vamos, meu amigo, apressemos o passo. Estou ancioso por ver chegado a um prospero desfecho este singularissimo drama.

Neste ponto da conversação já estavão á vista da casa do taverneiro francez, onde forão apear-se.

CAPITULO XIII

Nha-Tuca e sua chronica.

Apenas apeárão-se, Conrado chamou de parte o francez, dono da taverna, e depois de ter sido por elle informado de que todas as suas ordens tinhão sido cumpridas, pedio-lhe que fosse assistir como testemunha a uma de claração solemne que a velha Nha-Tuca tinha de fazer em confissão publica para desencargo de sua consciencia. Pedio-lhe tambem que d'entre os circumstantes escolhesse para o mesmo fim mais duas pessoas que soubessem ler a escrever, e que gozassem de bom conceito.

Não só o desejo de servir a Conrado, que por sua generosidade e boas maneiras lhe tinha taptado a benevoleñcia, como tambem a curiosidade, que semelhante facto excitava, contribuirão para quo não só o taverneiro, como todos os seus numerosos freguezes se prestassem com a melhor vontade a tudo quanto delles exigia o cavalheiro. Vinte ou trinta testemunhas, que lhe fossem necessarios naquella occasião, com facilidade os acharia promptos por aquella vizinhança.

Erão já quatro horas da tarde, e quasi todas as pessoas, que pela manhã encontrámos junctas na taverna do francez, ainda alli se acabavão presas pela viva curiosidade, que nelles excitára a visita de um tão guapo e distincto cavalheiro em casa de uma velha brucha, que no entender delles estava prestes a dar a alma ao diabo. Si algumas dessas pessoas se tinhão retirado, em compensação tinhão chegado outras attrahidas pelo rumor que se ia propagando, de que a velha brucha, estando a expirar, tinha-se resolvido a fazer confissão publica e por todos os seus podres na rua.

Conrado e o frade, seguidos pelo francez e pelas duas outras testemunhas, dirigirão-se a pé para o rancho de Nha-Tuca. Os mais freguezes tambem os forão acompanhando em distancia, e um a um ou em pequenos grupos, forão pouco a pouco se avizinhando e acercando em torno da misera choupana da moribunda, Á curiosidade vence o pavor e desmancha todos os escrupulosos. Toda aquella gente , que ainda ha pouco fugia do rancho de Nha— Tuca como de um logar malsinado, e que quando por alli passavão tinhão o cuidado de nem olhar para elle, benzendo-se cheios de terror quando acontecia enxergarem a velha, agora sentião-se irresistivelmente attrahidos para aquelle ponto. Era a curiosidade, esse iman mysterioso, que para alli os arrastava.

Nas massas populares a curiosidade supplanta o medo, e faz arrostar todos os perigos reaes ou imaginarios. E assim, por exemplo, que por occasião de um grande incendio, a turba se aggloméra por sob as paredes de um edificio em chammas, que a cada momento póde desabar sobre ella, sendo necessario intervir a acção da policia para desvial-a. A's vezes tambem para gozar de um espectaculo o mais tri- vial e corriqueiro, a turba não hesita em collocar-se nas posições mais incommodas e perigosas, em risco de quebrar um braço ou uma perna.

O espectaculo ou mysterio, que attrahia a curiosidade de nossos caipiras, nada tinha de realmente perigoso, mas abalava-lhes a imaginação, como si tivessem de ver Satanaz em pessoa.

— Sancto Deos! exclamava um delles. — Que irá fazer alli Frei João?... Um sancto em casa de uma brucha ! . . .

— Vae fazer obra de caridade, respondeo outro. — Vae ver si ainda póde livrar das penas do inferno a alma da pobre velha.

— Isso é impossivel... pois mecê não sabe que ella é mula sem cabeça? . .

— E demais a mais tem o diabo no corpo, accrescentou outro.

— Pois que tem isso?.., é que o padre vae tirar o diabo do corpo delta. Ah! si eu pudesse estar lá dentro e ver o tinhoso sahir aos pinchos da bocca daquella tartaruga velha ! . . .

— Deus te livre ! . . . ver o que! . . a cara de Satanaz ! . . . até estou com medo de ver agora mesmo pegar fogo no rancho, e a velha sahir de lá na figura do cão tinhoso.

— Ché ! que esperança ! . . . então o frade não está lá dentro ? . . .

— Mas esse é homem de Deus; não ha mal que o pegue; ha de sahir são e salvo.

Emquanto o povo por fóra se entretinha assim com estes e outros apodos e conjecturas, o frade e seu amigo penetravão no aposento da enferma, o qual, graças á generosidade de Conrado e aos cuidados do francêz, apresentava um aspecto menos lugubre e menos nauseabundo.

Antes porém de assistirmos á scena da confissão dar velha, nos é mistér da aqui ao leitor uma rapida noticia biographica da personagem que agora jaz no leito da agonia com a alma abarrotada de peccados e crivada de remorsos,

(continua...)

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